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Baixio: o destino que nasceu antes dos turistas

Antes de virar cartão-postal do litoral norte da Bahia, Baixio virou projeto. Entenda como bilhões em investimentos estão transformando uma vila de pescadores em um dos maiores laboratórios de turismo planejado do Brasil

MARCELO SAMPAIO por MARCELO SAMPAIO
13/06/2026
em O Lado B dos Destinos
Tempo de Leitura: 5 minutos
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Lado B

Existe um lugar no litoral norte da Bahia onde o tempo parece ter esquecido de correr. Lagoas de água doce de cor impossível, dunas que avançam sobre a mata atlântica, uma capelinha branca no centro da vila, e pescadores que ainda saem de madrugada para o mar como seus avós faziam. Esse lugar se chama Baixio,  um distrito do município de Esplanada, a 140 quilômetros de Salvador pela Linha Verde.

Mas o tempo, em Baixio, está acelerando. Em novembro de 2024, o Grupo Prima realizou a cerimônia da pedra fundamental que marcou o início da construção de um novo complexo turístico na vila. Com investimento de R$5,6 bilhões, o projeto foi apresentado como o maior investimento privado destinado ao desenvolvimento de um destino turístico no Brasil. O governador Jerônimo Rodrigues esteve presente. Veio também a embaixadora da Espanha.

Poucas vilas de pescadores na história do Nordeste receberam tanta atenção de uma só vez.

O arquiteto do plano

O Grupo Prima é formado por investidores da Catalunha, na Espanha, e atua no Brasil desde 2005 nos segmentos de hotelaria e incorporação imobiliária de alto padrão. A empresa não chegou a Baixio de surpresa: desde 2008, a Prima elaborou um masterplan de desenvolvimento turístico e imobiliário para a região, com aproveitamento de 30% da área total para construção e preservação ambiental de 70% do terreno. Em outras palavras, 17 anos de planejamento antes da primeira retroescavadeira entrar em campo.    

A empresa controla área correspondente a 90% do balneário. É uma concentração de propriedade que não tem precedente no turismo baiano – e que explica tanto a escala do projeto quanto parte das tensões que ele gera.

Hoje, já funcionam em Baixio dois empreendimentos da Prima: o Hotel Boutique & Spa Ponta de Inhambupe e a Pousada de Charme Aldeola, ambos administrados pela Slaviero Hotéis, que foram incluídos na lista dos dez melhores do Brasil pelo prêmio Travellers’ Choice 2025 do TripAdvisor. Os números dizem que o produto funciona. Noventa por cento dos hóspedes dessas unidades são provenientes do turismo interno.

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Com investimentos liderados pelo Grupo Prima, o destino baiano tenta provar que crescimento econômico, preservação ambiental e turismo de alto padrão podem caminhar juntos (Fotos: Grupo Prima)

O que vem por aí

A fase seguinte é de outra escala. A primeira etapa do projeto, orçada em R$2,1 bilhões, inclui dois resorts de luxo – um da bandeira Fasano e outro da rede tailandesa Anantara –  com previsão de entrega em 2028, somando 532 apartamentos. O projeto inclui ainda um aeroporto com capacidade para receber até 40 aeronaves, urbanização da Vila de Baixio e sistemas de energia renovável.

Uma segunda etapa deve incluir um resort all inclusive com 900 apartamentos, possivelmente com a bandeira Meliá ou Marriott. A previsão é de que mais de 10 mil empregos diretos e indiretos sejam gerados ao longo de dez anos.

O alcance internacional do projeto também já está sendo construído. A Embratur convidou agentes de turismo especializados em afroturismo dos Estados Unidos para conhecer Baixio, e um deles, Roger Lord, de Nova York, destacou o valor que o destino possui para o público afro-americano interessado em explorar locais de rica herança cultural africana e belezas naturais preservadas.

O Lado B: o que trava e o que preocupa

Todo destino tem sua sombra. E em Baixio ela é longa.

Uma dissertação de mestrado pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), defendida em 2024, mapeou com precisão o que a narrativa do luxo tende a deixar fora do frame. O modo de vida de Baixio vem sendo transformado pela urbanização e pelo desenvolvimento turístico, tendo como consequência a especulação imobiliária acompanhada de uma hipervalorização de terras, colocando em risco o meio ambiente, as identidades e tradições locais. O turismo em Baixio tem se voltado para os grandes empreendimentos, estimulando a especulação imobiliária e a marginalização da comunidade local.

A pergunta que o modelo levanta é simples e incômoda: numa vila onde um único grupo controla 90% do território e define o ritmo do desenvolvimento, quem decide o que se preserva –  e de quem?

O próprio Grupo Prima reconhece o desafio. A empresa criou a Baixio Turismo para liderar e desenvolver todas as atividades de recreação turística dentro de padrões preestabelecidos que garantam a preservação do patrimônio existente. E o masterplan prevê infraestrutura integrada para moradores e visitantes. Mas integração, no papel, não é o mesmo que participação real.

A infraestrutura de acesso ao destino, por exemplo, ainda depende de estrada  com trechos sem pavimentação adequada. O aeródromo prometido ainda não existe. E o visitante que chega de carro a Baixio hoje encontra um lugar de beleza rara,  mas ainda frágil na cadeia de serviços que transforma um destino bonito em destino sustentável.

O que o leitor leva daqui

Baixio não é um destino que “deu certo” ainda. É um destino em construção,  no sentido mais literal e mais ambíguo do termo. O que o Grupo Prima está construindo ali tem o potencial de ser um dos casos mais relevantes do turismo privado brasileiro: um destino criado do zero, com escala, infraestrutura e marcas internacionais, em território de altíssimo valor natural.

Mas o modelo que está sendo testado em Baixio também levanta perguntas que vão além da Bahia. O que acontece quando um único grupo privado controla quase integralmente o território de uma vila? Como garantir que os 10 mil empregos prometidos sejam absorvidos pela comunidade local –  e não tragam apenas mão de obra de fora? Como preservar as lagoas, as dunas e a cultura pesqueira quando o ritmo do capital acelera?

R$ 5,6 bilhões compram muita coisa. Mas não compram, automaticamente, o equilíbrio entre o destino que atrai e o lugar que permanece vivo para quem sempre morou nele. Essa é a obra mais difícil de Baixio. E ela ainda está no começo.


O Lado B dos Destinos é uma coluna semanal do Indústria News que revela a economia, a indústria e as decisões que fazem um destino funcionar – ou entrar em tensão. Aqui, viagem não é fuga do noticiário. É outra forma de entender como cidades e regiões geram valor, emprego e identidade. A paisagem atrai. O modelo sustenta. O que você vai encontrar aqui? Análise leve, sem jargão; textos de fim de semana, com narrativa e contexto econômico;  infraestrutura, investimentos, empregos, conflitos e oportunidades. Casos reais: o que deu certo, o que cobra seu preço e o que pode ser replicado.


Leia também: Prepare o bolso: conta de luz segue com cobrança extra em junho

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Tags: BahiaBaixiodestaqueGrupo Primaturismo
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