
A história da industrialização baiana começa antes mesmo da criação da Petrobras. Às margens da Baía de Todos-os-Santos, em Mataripe, distrito de São Francisco do Conde, nasceu um empreendimento que mudaria para sempre a economia do estado. Inaugurada em 17 de setembro de 1950, a Refinaria Landulpho Alves (Rlam) foi a primeira refinaria de petróleo do Sistema Petrobras, criada três anos antes da própria estatal, e marcou a transição da Bahia de uma economia predominantemente agrícola para um dos principais polos industriais do país. Durante décadas, o apito das trocas de turno, as chamas constantes dos flares e o intenso movimento de caminhões e navios passaram a fazer parte da paisagem e da memória de gerações de trabalhadores.
A chegada da refinaria transformou o Recôncavo baiano. Sua implantação atraiu milhares de trabalhadores, impulsionou a urbanização de São Francisco do Conde, Candeias e Madre de Deus e estimulou o surgimento de fornecedores, transportadoras e empresas de engenharia que ajudariam a formar a base da cadeia de óleo e gás na Bahia. A refinaria funcionou como âncora de um dos primeiros polos de infraestrutura petrolífera do país, décadas antes de a Bahia consolidar o complexo de Camaçari.
No auge, a Rlam chegou a processar cerca de 300 mil barris de petróleo por dia, mantendo-se por décadas como a segunda maior refinaria do Brasil, atrás apenas da Replan, em Paulínia (SP), e responsável pela produção de gasolina, diesel, GLP, querosene de aviação, nafta petroquímica, lubrificantes, asfaltos e mais de 30 derivados. A unidade abastecia praticamente todo o Nordeste com combustíveis e virou peça central da logística energética da região.
Entre as curiosidades que a imprensa baiana registrou ao longo dos anos, está o fato de Mataripe ter se tornado, ainda nos anos 1950, uma das primeiras “cidades da Petrobras” do país – bairro planejado com escola, ambulatório e clube recreativo erguidos pela estatal para seus funcionários, um modelo depois replicado em outras regiões produtoras.
“A importância da refinaria extrapolou os limites do refino. A disponibilidade de matérias-primas foi decisiva para a implantação do Polo Petroquímico de Camaçari, inaugurado em 1978, consolidando a Bahia como referência nacional na indústria química e petroquímica”, diz o economista Elísio Porto.
Privatização
A partir da década de 2010, porém, a refinaria passou a viver um dos capítulos mais controversos de sua história. Inserida no programa de desinvestimentos da Petrobras e no compromisso firmado com o Cade para ampliar a concorrência no setor de refino, a Rlam foi colocada à venda. Em 2021, a unidade foi adquirida pelo fundo soberano Mubadala Capital, dos Emirados Árabes Unidos, por US$ 1,8 bilhão, passando a operar sob a marca Acelen e recebendo o novo nome de Refinaria de Mataripe. A transação marcou a primeira privatização de uma grande refinaria da Petrobras.
Sob a gestão da Acelen, a refinaria iniciou um novo ciclo de investimentos voltado à modernização dos processos, aumento da eficiência operacional e ampliação da capacidade produtiva. A empresa também passou a desenvolver projetos ligados à transição energética, incluindo iniciativas para produção de combustíveis renováveis e matérias-primas de menor intensidade de carbono.
A transformação, porém, não encerrou a história. Desde o início do terceiro mandato, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido publicamente a recompra da Rlam, classificando a privatização feita durante o governo Bolsonaro como um erro estratégico para a soberania energética do país.
Segundo reportagens do Valor Econômico e da Reuters ao longo de 2023 e 2024, a Petrobras chegou a formalizar tratativas com a Mubadala para reincorporar a unidade ao seu parque de refino, em negociações marcadas por divergências sobre o valor do ativo e o volume de investimentos já feitos pela Acelen.
O impasse até o momento não tem desfecho definitivo. De um lado, o governo argumenta que reduzir a dependência de refino privado no Nordeste é questão de segurança energética. Do outro, a Acelen resiste a vender por um preço que não reflita os aportes feitos desde 2021. É um raro caso em que uma privatização concluída, paga e operacional volta à mesa de negociação por decisão política, não por fracasso do comprador.
O legado da Rlam, independente de quem a opere no futuro, já está selado na formação industrial da Bahia. A refinaria segue como referência em teses acadêmicas sobre o desenvolvimento do Recôncavo, tema de reportagens especiais de veículos e continua sendo citada em estudos de geografia econômica como o marco que antecipou, em quase duas décadas, a industrialização baiana que Camaçari consolidaria depois.
“Passados 76 anos desde sua inauguração, a Refinaria Landulpho Alves continua ocupando um lugar singular na história econômica da Bahia. Mudaram o controle acionário, o nome e a estratégia empresarial, mas não sua relevância. A refinaria permanece como um dos principais ativos industriais do Nordeste, sustentando milhares de empregos diretos e indiretos, movimentando cadeias logísticas e abastecendo mercados em diversas regiões do país. Poucas instalações industriais brasileiras conseguiram atravessar tantas transformações mantendo tamanho protagonismo”, afirma Elísio Porto.
Análise
A trajetória da antiga Rlam mostra como um empreendimento industrial pode influenciar o desenvolvimento de uma região por décadas. A refinaria foi o ponto de partida para a consolidação da cadeia de petróleo, gás e petroquímica na Bahia, criando as bases que permitiram o surgimento do Centro Industrial de Aratu e, posteriormente, do Polo Petroquímico de Camaçari.
Hoje, o debate sobre seu futuro já não se limita à propriedade do ativo. A discussão envolve competitividade, segurança energética, transição para combustíveis de menor emissão e capacidade de atrair novos investimentos para um dos mais importantes polos industriais do Brasil. A história da Rlam demonstra que, na indústria, os ativos podem mudar de dono, mas seu impacto econômico permanece por gerações.
MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.
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