
Durante quase quatro décadas, quem passava pelas imediações do bairro industrial de Itabuna reconhecia o cheiro antes mesmo de ver as paredes da fábrica: um aroma adocicado de leite em pó que se misturava ao ar úmido do sul da Bahia. Era a Nestlé. A multinacional suíça – a maior empresa de alimentos do mundo – escolheu Itabuna para instalar uma de suas unidades brasileiras ainda no início dos anos 1980, apostando na vocação regional para o cacau e na posição estratégica da cidade no coração do território grapiúna. A inauguração da fábrica de Itabuna consta na própria cronologia histórica da Nestlé no Brasil, ao lado de lançamentos icônicos da empresa naquele período, um detalhe que evidencia o quanto aquela planta fazia parte de uma estratégia nacional ambiciosa.
A escolha de Itabuna não era coincidência. A cidade era o epicentro comercial e financeiro da região cacaueira baiana, o maior polo produtor de amêndoas de cacau do mundo naquele período. Instalar uma unidade fabril ali significava estar próximo da matéria-prima e de uma cadeia produtiva pujante. Não demorou muito para que Itabuna virasse referência nacional dentro da própria Nestlé. A fábrica chegou a gerar mais de 600 empregos diretos, era responsável pela produção de Leite Ninho para todo o Nordeste e fornecia massa de cacau para toda a produção de chocolate do país. Para uma cidade de porte médio, aquele era um ativo econômico enorme — e bastante visível no cotidiano local.
O portfólio da unidade foi amplo desde o início e se diversificou com os anos. Além do Leite Ninho, que consolidou Itabuna como o celeiro lácteo do Nordeste, a fábrica produziu Nescau, Nesquik, Farinha Láctea e derivados de cacau. A baixa captação de leite no sul da Bahia, contudo, levou a multinacional a transferir a linha do Ninho para Minas Gerais em determinado momento, e a unidade passou a se concentrar nas marcas de achocolatado. A mudança foi o primeiro sinal de que a equação estratégica que justificara a instalação da fábrica começava a mudar.
O baque mais profundo, porém, veio de fora. No final dos anos 1980, a vassoura-de-bruxa – fungo devastador que contaminou os cacaueiros do sul da Bahia – desestruturou toda a cadeia produtiva regional. A produção brasileira de cacau, que era de 320 mil toneladas por ano, despencou para 190 mil toneladas em 1991, e toda a queda correspondeu ao colapso da cacauicultura baiana, que concentrava 80% da produção nacional. O impacto sobre Itabuna foi sistêmico: fazendas fechadas, desemprego rural em massa, retração do comércio e dos serviços. O ambiente que havia justificado a aposta da Nestlé na cidade foi corroído pela praga e pela crise que a seguiu.
Apesar do cenário adverso, a fábrica resistiu por mais de três décadas. Havia um vínculo real entre a empresa e a cidade – empregos, fornecedores, prestadores de serviço, famílias inteiras cuja renda dependia, direta ou indiretamente, daquelas instalações. A fábrica gerava ainda 1.000 empregos de forma indireta, que proporcionavam uma economia significativa ao município. Quando os rumores de fechamento começaram a circular, em 2015, a própria Nestlé emitiu nota desmentindo a possibilidade. A desativação começou a ser ventilada naquele ano, quando a empresa negou a opção. O desmentido durou quatro anos
Feira de Santana
Em agosto de 2019, a notícia que Itabuna temia finalmente se confirmou. A Nestlé Brasil anunciou que investiria R$ 45 milhões na unidade de Feira de Santana para instalar três novas linhas de produção de Nescau Pronto para Beber, e que iniciaria o processo de transição da operação de Itabuna para aquela cidade. O argumento oficial era de eficiência: centralizar a produção em Feira de Santana transformaria aquela unidade em um hub de abastecimento para o Norte e o Nordeste, com tecnologia mais moderna e maior capacidade instalada. A lógica corporativa era impecável. Para Itabuna, era um golpe.
Os trabalhadores receberam a notícia com desamparo e resistência. A Nestlé ofereceu aos funcionários que atuavam em Itabuna a possibilidade de migrar para a fábrica de Feira a partir de 2020, mas a proposta esbarrou na realidade concreta de quem havia construído vida na cidade.
“Nós temos uma vida em Itabuna. Muitos trabalhadores fizeram dívidas. Compramos casas. Temos familiares próximos aqui”, disse à TV Santa Cruz o auxiliar de produção Danilo César da Silva, em declaração que resumia o drama coletivo. O Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Alimentação da Bahia entrou nas negociações e conseguiu viabilizar a realocação de parte dos funcionários em Feira, mas o impacto humano foi inevitável.
O Governo da Bahia prometeu agilidade na atração de novos investidores para ocupar a planta. A Secretaria de Desenvolvimento Econômico chegou a divulgar publicamente que havia sido procurada por grupos empresariais interessados. A informação, contudo, não se confirmou na prática. Conforme registrou o jornal A Região em dezembro de 2020, a promessa não saiu do papel. Itabuna perdeu uma fábrica que chegou a fornecer 100% do Leite Ninho para todo o Nordeste sem ter outra para ocupar o espaço.
A fábrica encerrou definitivamente as atividades em novembro de 2020. Com o fechamento da unidade, 141 trabalhadores foram impactados diretamente. As instalações físicas permaneceram ociosas.
Hoje, mais do que a lembrança de uma fábrica, a Nestlé de Itabuna representa um capítulo importante da história industrial baiana. Sua trajetória resume os desafios de uma região que viu o cacau gerar riqueza, enfrentou uma crise devastadora e assistiu à reorganização das grandes corporações em busca de eficiência logística. O cheiro de chocolate desapareceu dos arredores da fábrica, mas continua vivo na memória de quem acompanhou um dos ciclos industriais mais emblemáticos do sul da Bahia.
MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo – mesmo depois do fechamento de suas portas. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.
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