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Capa Memória da Indústria
Nestlé Brasil

A Nestlé tem mais de 100 anos de atuação no Brasil e conta com 20 unidades industriais no país (Foto: Divulgação)

Do leite Ninho ao silêncio: o fim da Nestlé em Itabuna

Por quase quatro décadas, a Nestlé ajudou a impulsionar a economia de Itabuna, no sul da Bahia. O fechamento da fábrica encerrou uma história de prosperidade, empregos e forte ligação com a cultura do cacau

MARCELO SAMPAIO por MARCELO SAMPAIO
16/06/2026
em Memória da Indústria
Tempo de Leitura: 5 minutos
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Memória da Indústria

Durante quase quatro décadas, quem passava pelas imediações do bairro industrial de Itabuna reconhecia o cheiro antes mesmo de ver as paredes da fábrica: um aroma adocicado de leite em pó que se misturava ao ar úmido do sul da Bahia. Era a Nestlé. A multinacional suíça –  a maior empresa de alimentos do mundo – escolheu Itabuna para instalar uma de suas unidades brasileiras ainda no início dos anos 1980, apostando na vocação regional para o cacau e na posição estratégica da cidade no coração do território grapiúna. A inauguração da fábrica de Itabuna consta na própria cronologia histórica da Nestlé no Brasil, ao lado de lançamentos icônicos da empresa naquele período,  um detalhe que evidencia o quanto aquela planta fazia parte de uma estratégia nacional ambiciosa.

A escolha de Itabuna não era coincidência. A cidade era o epicentro comercial e financeiro da região cacaueira baiana, o maior polo produtor de amêndoas de cacau do mundo naquele período. Instalar uma unidade fabril ali significava estar próximo da matéria-prima e de uma cadeia produtiva pujante. Não demorou muito para que Itabuna virasse referência nacional dentro da própria Nestlé. A fábrica chegou a gerar mais de 600 empregos diretos, era responsável pela produção de Leite Ninho para todo o Nordeste e fornecia massa de cacau para toda a produção de chocolate do país. Para uma cidade de porte médio, aquele era um ativo econômico enorme — e bastante visível no cotidiano local.

O portfólio da unidade foi amplo desde o início e se diversificou com os anos. Além do Leite Ninho, que consolidou Itabuna como o celeiro lácteo do Nordeste, a fábrica produziu Nescau, Nesquik, Farinha Láctea e derivados de cacau. A baixa captação de leite no sul da Bahia, contudo, levou a multinacional a transferir a linha do Ninho para Minas Gerais em determinado momento, e a unidade passou a se concentrar nas marcas de achocolatado. A mudança foi o primeiro sinal de que a equação estratégica que justificara a instalação da fábrica começava a mudar.

O baque mais profundo, porém, veio de fora. No final dos anos 1980, a vassoura-de-bruxa –  fungo devastador que contaminou os cacaueiros do sul da Bahia –  desestruturou toda a cadeia produtiva regional. A produção brasileira de cacau, que era de 320 mil toneladas por ano, despencou para 190 mil toneladas em 1991, e toda a queda correspondeu ao colapso da cacauicultura baiana, que concentrava 80% da produção nacional. O impacto sobre Itabuna foi sistêmico: fazendas fechadas, desemprego rural em massa, retração do comércio e dos serviços. O ambiente que havia justificado a aposta da Nestlé na cidade foi corroído pela praga e pela crise que a seguiu.

Apesar do cenário adverso, a fábrica resistiu por mais de três décadas. Havia um vínculo real entre a empresa e a cidade –  empregos, fornecedores, prestadores de serviço, famílias inteiras cuja renda dependia, direta ou indiretamente, daquelas instalações. A fábrica gerava ainda 1.000 empregos de forma indireta, que proporcionavam uma economia significativa ao município. Quando os rumores de fechamento começaram a circular, em 2015, a própria Nestlé emitiu nota desmentindo a possibilidade. A desativação começou a ser ventilada naquele ano, quando a empresa negou a opção. O desmentido durou quatro anos

Feira de Santana

Em agosto de 2019, a notícia que Itabuna temia finalmente se confirmou. A Nestlé Brasil anunciou que investiria R$ 45 milhões na unidade de Feira de Santana para instalar três novas linhas de produção de Nescau Pronto para Beber, e que iniciaria o processo de transição da operação de Itabuna para aquela cidade. O argumento oficial era de eficiência: centralizar a produção em Feira de Santana transformaria aquela unidade em um hub de abastecimento para o Norte e o Nordeste, com tecnologia mais moderna e maior capacidade instalada. A lógica corporativa era impecável. Para Itabuna, era um golpe.

Os trabalhadores receberam a notícia com desamparo e resistência. A Nestlé ofereceu aos funcionários que atuavam em Itabuna a possibilidade de migrar para a fábrica de Feira a partir de 2020, mas a proposta esbarrou na realidade concreta de quem havia construído vida na cidade.

“Nós temos uma vida em Itabuna. Muitos trabalhadores fizeram dívidas. Compramos casas. Temos familiares próximos aqui”, disse à TV Santa Cruz o auxiliar de produção Danilo César da Silva, em declaração que resumia o drama coletivo. O Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias de Alimentação da Bahia entrou nas negociações e conseguiu viabilizar a realocação de parte dos funcionários em Feira, mas o impacto humano foi inevitável.

O Governo da Bahia prometeu agilidade na atração de novos investidores para ocupar a planta. A Secretaria de Desenvolvimento Econômico chegou a divulgar publicamente que havia sido procurada por grupos empresariais interessados. A informação, contudo, não se confirmou na prática. Conforme registrou o jornal A Região em dezembro de 2020, a promessa não saiu do papel. Itabuna perdeu uma fábrica que chegou a fornecer 100% do Leite Ninho para todo o Nordeste sem ter outra para ocupar o espaço.

A fábrica encerrou definitivamente as atividades em novembro de 2020. Com o fechamento da unidade, 141 trabalhadores foram impactados diretamente. As instalações físicas permaneceram ociosas.

Hoje, mais do que a lembrança de uma fábrica, a Nestlé de Itabuna representa um capítulo importante da história industrial baiana. Sua trajetória resume os desafios de uma região que viu o cacau gerar riqueza, enfrentou uma crise devastadora e assistiu à reorganização das grandes corporações em busca de eficiência logística. O cheiro de chocolate desapareceu dos arredores da fábrica, mas continua vivo na memória de quem acompanhou um dos ciclos industriais mais emblemáticos do sul da Bahia.

Conteúdo original


MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo – mesmo depois do fechamento de suas portas. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.

Tem informações e imagens sobre fábricas antigas de Salvador e de outros municípios da Bahia? Compartilhe com a gente: redacao@industrianews.com.br


Leia também: Royalties turbinam interior da Bahia e reforçam o avanço da mineração

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Tags: cacauFeira de SantanaItabunaMemória da IndústriaNestlé
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