
Muito antes de o Polo Petroquímico de Camaçari colocar a Bahia no mapa da indústria mundial, havia um endereço que simbolizava o futuro do estado: o Centro Industrial de Aratu. Durante décadas, dizer que alguém “trabalhava no CIA” era sinônimo de estabilidade, carteira assinada e oportunidade de ascensão social. Entre o som das sirenes marcando a troca de turno, o vai e vem de caminhões e milhares de operários cruzando diariamente a rodovia CIA-Aeroporto, nasceu uma nova economia baiana.
A Bahia dos anos 1960 ainda tinha uma economia fortemente concentrada na agricultura, no comércio e nas atividades ligadas ao Porto de Salvador e à Refinaria Landulpho Alves. A industrialização caminhava lentamente. Foi nesse contexto que o governo estadual decidiu apostar em um projeto inédito para o Nordeste: criar um distrito industrial planejado, capaz de reunir infraestrutura, logística e incentivos para atrair empresas de todo o país. Assim nasceu o Centro Industrial de Aratu, instituído pela Lei nº 2.321, de 11 de abril de 1966, durante o governo de Lomanto Júnior. O primeiro superintendente foi Ângelo Calmon de Sá, personagem decisivo na missão de convencer empresários a investir na Bahia. Segundo relato do engenheiro Adary Oliveira, suas viagens frequentes a São Paulo e ao Rio de Janeiro em busca de investidores chegavam a ser notícia nos telejornais da época.
Escolhida estrategicamente entre os municípios de Simões Filho e Candeias, com influência também sobre Salvador e Lauro de Freitas, a área oferecia uma combinação rara para aquele período: amplo espaço para expansão, proximidade com a capital, acesso ferroviário e rodoviário e, posteriormente, ligação direta com o Porto de Aratu. O CIA foi apenas o segundo grande distrito industrial planejado do país, atrás apenas da Cidade Industrial de Contagem, em Minas Gerais. O projeto foi concebido para receber indústrias pesadas, metalúrgicas, químicas, de transformação, logística e atividades portuárias, formando uma base industrial capaz de mudar a matriz econômica baiana.
Resultados rápidos
Os resultados apareceram rapidamente. Grandes empresas começaram a ocupar os lotes industriais, atraídas pelos incentivos fiscais da Sudene e pela infraestrutura disponível. O sucesso foi tão expressivo que a procura por áreas industriais na Bahia tornou-se tão intensa que a Sudene reviu a prioridade concedida ao estado, numa tentativa de distribuir melhor os investimentos pelo restante do Nordeste. O CIA deixava de ser apenas um empreendimento baiano para se transformar em uma referência nacional de política industrial.
A consolidação do distrito ganhou novo impulso com a construção do Porto de Aratu, inaugurado em 1975 pelo presidente Ernesto Geisel. Financiado com recursos dos royalties do petróleo e empréstimos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o terminal tornou-se peça-chave para importar matérias-primas e escoar a produção industrial. Apesar dos avanços em infraestrutura viária, energia e telecomunicações, o CIA ainda enfrentava desafios relacionados às utilidades industriais e ao tratamento de efluentes, lacunas que ajudariam a moldar o projeto ainda mais integrado do futuro Polo Petroquímico de Camaçari.
Mas talvez o maior legado do Centro Industrial de Aratu tenha sido social. Milhares de baianos encontraram ali o primeiro emprego formal. As sirenes das fábricas passaram a marcar o ritmo das cidades vizinhas. Os ônibus lotados nos horários de troca de turno, o intenso movimento de caminhões na CIA-Aeroporto e até o cheiro característico das indústrias químicas tornaram-se parte da memória coletiva de uma geração. Trabalhar “em Aratu” virou motivo de orgulho e representava estabilidade financeira para milhares de famílias.
Polo de Camaçari
O sucesso do CIA acabou preparando o terreno para um projeto ainda mais ambicioso. Em 1974 começaram as obras do Polo Petroquímico de Camaçari, inaugurado quatro anos depois como o maior complexo petroquímico integrado do Hemisfério Sul. A infraestrutura desenvolvida em Aratu, a experiência adquirida na gestão de um grande distrito industrial e a formação de mão de obra especializada foram decisivas para essa nova etapa. Não por acaso, o então governador Luiz Viana Filho resumiu aquele momento com uma frase que entrou para a história: “A Bahia não vai ficar ancorada em Aratu”. O futuro industrial do estado passava a ganhar novas dimensões.
Com o avanço de Camaçari, o Centro Industrial de Aratu deixou de ocupar sozinho o protagonismo da indústria baiana. Ainda assim, jamais perdeu sua relevância. O distrito se reinventou ao longo das décadas, diversificando sua base produtiva e atraindo empresas dos setores químico, metalúrgico, plástico, alimentício, logístico e de bens de consumo.
Hoje, cerca de uma centena de empresas continua operando na área, que permanece como um dos principais polos industriais e logísticos da Bahia. Em abril ddeste ano, o CIA completou 60 anos reafirmando seu papel estratégico para a economia estadual, conforme destacou a Associação de Empresas do Centro Industrial de Aratu (Procia).
O que fica dessa história
A história do Centro Industrial de Aratu mostra que a industrialização não acontece por acaso. Ela exige planejamento, infraestrutura, crédito, logística e capacidade de atrair investimentos. O CIA cumpriu exatamente esse papel ao criar as condições para que a Bahia deixasse de depender quase exclusivamente da economia tradicional e passasse a ocupar posição de destaque na indústria brasileira. Mais do que um distrito industrial, Aratu foi a plataforma que permitiu o surgimento de cadeias produtivas que continuam sustentando a economia baiana.
O Centro Industrial de Aratu não pertence apenas ao passado. Sua infraestrutura, sua localização estratégica, a integração com o Porto de Aratu e a experiência acumulada ao longo de seis décadas continuam sendo ativos importantes para uma nova fase da indústria brasileira. Em um momento em que a reindustrialização volta ao centro do debate econômico, revisitar a história do CIA é lembrar que os grandes ciclos de desenvolvimento começam muito antes da chegada das fábricas. Eles nascem do planejamento, da visão de longo prazo e da capacidade de transformar oportunidades em política de Estado.
Fontes consultadas: Procia (60 anos do Centro Industrial de Aratu); artigo “O CIA e o Polo”, de Adary Oliveira (2020); legislação estadual de criação do Centro Industrial de Aratu (Lei nº 2.321/1966); documentos históricos da Sudene e da industrialização baiana.
MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.
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