
Durante alguns anos, quem passava pelas vias do Polo Industrial de Camaçari se impressionava com o tamanho das gigantescas pás eólicas que saíam da fábrica da Tecsis. Com dezenas de metros de comprimento, transportadas em operações especiais pelas rodovias baianas, elas simbolizavam um momento de euforia da indústria de energia renovável no Brasil. A empresa chegou à Bahia cercada de expectativas e promessas de milhares de empregos, mas sua passagem pelo estado foi tão intensa quanto breve.
Fundada em Sorocaba, no interior de São Paulo, em 1995, a Tecsis nasceu de uma ideia ousada do engenheiro aeronáutico Bento Koike e a origem da empresa é, por si só, uma história digna de cinema. Tudo começou numa viagem fracassada à Dinamarca. Após uma reunião frustrante, Koike aproveitou a estadia na Europa para conversar com Aloys Wobben, uma das maiores autoridades mundiais em energia eólica. Wobben disse que não estava satisfeito com seu atual fornecedor de pás, uma empresa alemã.
Três horas de conversa depois, Koike voltava para o Brasil com capital inicial e financiamento para matérias-primas. E a missão de construir, do zero, algo melhor do que um concorrente europeu já estabelecido. Quando entregou as primeiras pás, Wobben teria dito: “Não posso acreditar. Esta pá é a melhor coisa que já vi na minha vida. Tem a harmonia de um salão de dança.”
Com a convicção de que o Brasil possuía os melhores ventos do mundo e apostando na energia eólica como a forma mais limpa de gerar eletricidade, Koike transformou a Tecsis em líder mundial na produção de pás customizadas para turbinas eólicas. Com mais de 51 mil pás instaladas ao redor do globo, equivalentes a 34 gigawatts de capacidade energética, a empresa se tornou referência internacional em design aerodinâmico e fabricação em série de componentes de alto conteúdo tecnológico. No auge, em 2013, a Tecsis chegou à posição de maior empresa de Sorocaba, com 7,8 mil funcionários.
Chegada em Camaçari
A Bahia entrou nesse roteiro de grandeza em novembro de 2014. A Tecsis anunciou o início das obras de uma nova fábrica de pás eólicas em Camaçari, com previsão de entrada em operação no final de 2015 e capacidade para produzir até 1.500 pás por ano. O investimento previsto era de R$200 milhões, com a promessa de geração de cerca de 1.500 empregos diretos.
O presidente do Conselho de Administração da empresa, Pércio de Souza, deixou claro o horizonte ambicioso: a fábrica baiana não serviria apenas ao mercado interno, mas se tornaria uma plataforma de exportação. O governo do estado respondeu com generosidade: doação do terreno, incentivos fiscais e financiamento do BNDES foram parte do pacote de atração. Os investimentos do banco de desenvolvimento chegaram a R$ 1,3 bilhão.
Quando a fábrica entrou em operação, em 2016, o entusiasmo era ainda maior. Em visita à unidade, o então governador Rui Costa destacou que a empresa poderia chegar a empregar até 6 mil pessoas em sua capacidade máxima. Conforme reportagem publicada pelo Jornal Grande Bahia em agosto daquele ano, a Tecsis já possuía mais de 600 funcionários na planta e pretendia transformar a Bahia em uma base exportadora para mercados internacionais.
Naquele momento, os ventos sopravam a favor. A Bahia consolidava sua liderança nacional na geração eólica e atraía fabricantes de torres, naceles, pás e outros componentes. A Tecsis ocupava posição estratégica nesse ecossistema, fornecendo equipamentos para empresas como Gamesa e Acciona. O discurso era de expansão. Em setembro de 2017, executivos da companhia afirmavam que a fábrica poderia dobrar o número de empregados e ampliar sua capacidade produtiva nos anos seguintes.
Turbulência
O colapso, porém, já estava em marcha. A crise que abateu a Tecsis tinha raízes mistas – parte conjuntural, parte estrutural. O crescimento do setor eólico no Brasil era impulsionado pelos leilões de energia do governo federal. Em 2016 e 2017, o governo Temer não realizou nenhum leilão para novas permissões de parques eólicos, o que provocou uma série de rupturas de contratos e o colapso da demanda por pás.
Internamente, em 2011, já endividada, a empresa havia recebido um aporte de US$460 milhões de um consórcio de investidores liderado pela Estáter, de Pércio de Souza, que passou a deter 80% das ações – uma mudança de controle que, com o tempo, revelaria tensões entre os objetivos de curto prazo dos investidores financeiros e a lógica industrial de longo prazo que uma empresa como aquela exigia.
Em novembro de 2017, a situação tornou-se pública. Conforme relatou o portal Esquerda Online, a companhia anunciou a intenção de demitir cerca de 500 trabalhadores em Camaçari. Na época, a unidade baiana possuía entre 700 e 800 empregados. O anúncio ocorreu poucas semanas após a empresa obter autorização para renegociar suas dívidas por meio de recuperação extrajudicial, medida normalmente adotada por empresas em grave crise financeira.
O desfecho veio rapidamente. Em março de 2018, a fábrica encerrou suas atividades .A empresa atribuiu o fechamento aos elevados custos de produção, à perda de clientes e à ausência de novos leilões de energia eólica. O empreendimento, que havia sido apresentado como uma das âncoras da nova industrialização verde da Bahia, fechava as portas pouco mais de dois anos após sua inauguração.
A queda da Tecsis deixou marcas profundas. Centenas de trabalhadores perderam seus empregos e a região viu desaparecer uma das maiores apostas da cadeia eólica nacional. Conforme noticiado pelo jornal Correio em maio de 2018, mais de 400 funcionários foram desligados apenas na unidade baiana. Enquanto isso, a empresa buscava alternativas para retomar parte da produção em São Paulo.
Hoje, a história da Tecsis permanece como um dos episódios mais emblemáticos da industrialização recente da Bahia. Ela simboliza tanto o potencial transformador da energia renovável quanto os riscos de setores excessivamente dependentes de ciclos de investimento e políticas públicas. Durante um breve período, as enormes pás que cruzavam as estradas baianas representaram o futuro. Quando desapareceram, deixaram uma lição sobre os desafios de transformar crescimento acelerado em desenvolvimento industrial sustentável.
MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo – mesmo depois do fechamento de suas portas. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.
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