O Paraguai deixou de ser apenas o destino de compras de brasileiros na fronteira para se transformar em um dos ambientes de negócios mais competitivos da América do Sul. Com energia barata, estabilidade regulatória, incentivos fiscais e uma política agressiva de atração de investimentos, o país tem atraído um número crescente de empresas brasileiras, especialmente indústrias. O movimento ganhou novo impulso após o presidente paraguaio, Santiago Peña, ampliar o regime de maquila para os setores de serviços e tecnologia.
O tema foi destaque do programa Webinar da Indústria, que entrevistou Roger Maciel, presidente da Câmara de Comércio Brasil–Paraguai. Segundo ele, o avanço do Paraguai está diretamente ligado à previsibilidade econômica e à manutenção de políticas de Estado. “A legislação de maquila está há mais de 20 anos em vigor e, quando foi alterada recentemente, foi para melhorar. Isso no Brasil é raro”, afirmou.
O regime de maquila permite que empresas produzam no Paraguai utilizando insumos importados com isenção tributária e paguem apenas cerca de 1% de imposto sobre o valor agregado exportado. Inicialmente voltado à indústria, o modelo agora também contempla empresas de serviços, tecnologia, data centers, marketplaces e operações de terceirização. “O Paraguai está ampliando a competitividade justamente num momento em que o Brasil discute aumento de carga tributária sobre serviços”, observou Roger.
O setor têxtil aparece entre os casos mais emblemáticos dessa migração industrial. Empresas brasileiras como Lupo, Döhler e Karsten já possuem operações no Paraguai ou anunciaram expansão no país. A JBS também ampliou investimentos na área de proteína animal. Para Roger, muitas empresas enxergam o Paraguai não como substituição do Brasil, mas como complemento estratégico. “A Câmara não incentiva empresas a saírem do Brasil. O objetivo é ajudar o empresário brasileiro a ganhar competitividade”, destacou.

Segurança
Além dos benefícios tributários, o Paraguai tem atraído empresários brasileiros por fatores como segurança, menor burocracia e custo operacional reduzido. Roger chama atenção para a sensação de estabilidade do país vizinho. “O Paraguai hoje é uma ilha de estabilidade na América Latina. Existe previsibilidade econômica, política e jurídica muito maior do que no Brasil”, disse. Segundo ele, até as regras para investidores possuem mecanismos de proteção contra mudanças futuras que possam prejudicar operações já instaladas.
Outro diferencial apontado é a proximidade cultural e logística. Grande parte das maquiladoras brasileiras está concentrada na região de fronteira com o Brasil, especialmente em Ciudad del Este, Hernandarias e Presidente Franco. “Você chega lá e praticamente fala português. Muitas cidades têm forte presença de brasileiros, principalmente no agro, na indústria e no comércio”, afirmou Roger. Ele também destacou que o Paraguai vem investindo em infraestrutura estratégica, como o corredor bioceânico, que ligará o Atlântico ao Pacífico.
Para quem quer explorar o Paraguai como alternativa de expansão, a recomendação de Maciel é clara: antes de investir, planejar. A Câmara de Comércio Brasil-Paraguai oferece estudos de viabilidade, suporte jurídico e contábil, além de conectar empresários com quem já percorreu esse caminho. “O Paraguai não é bom para todos. Mas bem planejado, dá para fazer um negócio viável”, afirmou. O conselho é testar antes de escalar – locar um galpão, terceirizar a produção com uma empresa paraguaia, validar a logística. Passo a passo, sem atropelamentos. Como resume o presidente da Câmara: “O momento de investir era ontem. Mas o que é possível é investir agora.”
A expansão da maquila para serviços e tecnologia mostra que o Paraguai quer ir além da indústria tradicional e se consolidar como um polo regional de competitividade. Em meio aos desafios tributários e ao alto custo de produção no Brasil, o país vizinho se posiciona cada vez mais como alternativa para empresas que buscam reduzir custos, ampliar margens e acessar novos mercados sem sair da América do Sul.
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