
U m casal de São Paulo decidiu ir a Taipu de Fora nas férias de julho do ano passado. Viajaram bem, pousada reservada, mala pronta. Saíram do aeroporto de Ilhéus e, nas últimas horas de trajeto, encontraram o que tantos encontram: uma estrada de terra que virou lamaçal após a chuva da noite anterior. Carros atolados, nuvem de poeira de quem vinha em sentido contrário, suspensão do carro de aluguel gemendo em cada buraco. Chegaram. E quando chegaram, esqueceram tudo. As piscinas naturais de Taipu de Fora são, de fato, perturbadoras de beleza.
Essa é a Península de Maraú: um destino que encanta depois de testar a paciência. E essa tensão entre beleza e acesso não é acidental – é, possivelmente, política. “Na prática, Maraú virou um destino de alto desejo, mas de logística cansativa”, diz Antônio Barroso, administrador de empresas. Sua esposa, a engenheira Angélica Barroso, completa: “Talvez justamente a dificuldade de acesso tenha ajudado a preservar parte do charme do lugar. O isolamento relativo impediu, até agora, uma verticalização agressiva do turismo e manteve o perfil mais exclusivo do destino.”.
O destino em contexto
Localizada na Costa do Dendê, no sul da Bahia, a Península de Maraú está a cerca de 270 km de Salvador e 127 km de Ilhéus. É rodeada pela Baía de Camamu de um lado e pelo Atlântico do outro, uma faixa de terra de vegetação densa, praias desertas e piscinas naturais que aparecem em qualquer lista dos “melhores do Brasil”. Barra Grande é o núcleo urbano principal. Taipu de Fora é onde ficam as famosas piscinas. Algodões, Cassange, Saquaíra completam um mosaico de mais de 40 quilômetros de litoral quase intocado.
Em 2024, Maraú foi certificada pelo Ministério do Turismo e incluída no Mapa do Turismo Brasileiro na categoria B, o que facilita o acesso a recursos federais. A Bahia, de modo geral, cresceu 7,4% no turismo em 2025, acima da média nacional de 5,3%, segundo o IBGE. E a própria Prefeitura de Maraú destacou que a certificação federal veio como consequência da “ótima rede hoteleira” e do “número crescente de turistas”.
O que funciona e o que trava
Do lado positivo, o setor privado apostou. O Vivant EcoBeach Resort, em Taipu de Fora, foi construído com R$ 80 milhões em investimento próprio da VCA Construtora, segundo o portal Brasilturis, e opera desde 2023 com 63 unidades habitacionais dentro de cinco hectares preservados de Mata Atlântica. É a chegada de um produto hoteleiro sofisticado a um mercado que vivia de pousadas familiares. O mercado imobiliário também ferve: terrenos em Taipu de Fora são anunciados como “região em constante crescimento e excelente retorno sobre investimento”.
Do lado negativo – e aqui está o Lado B de verdade -, a infraestrutura básica segue abandonada. A BA-011, que atravessa a Península de ponta a ponta, tem 43 km de estrada de terra, cheia de buracos. De dezembro a março, a seca a transforma em areia fofa, impraticável para carros comuns. De maio a agosto, as chuvas a transformam em lamaçal onde até 4x4s atolam. O trecho da BR-030 de acesso à região, responsabilidade do governo federal, também foi alvo de reclamações formais junto ao Dnit em 2025, com relatos de “impossibilidade de visibilidade pela poeira” e risco real de acidentes.
Empresários locais relatam dificuldades recorrentes com energia elétrica, conectividade de internet, saneamento e gestão de resíduos, gargalos que se tornam ainda mais evidentes durante a alta temporada.
Nos últimos anos, a explosão dos aluguéis de temporada também mudou a dinâmica da região. Casas e terrenos valorizaram rapidamente, impulsionando um mercado imobiliário que transformou antigos vilarejos de pescadores em áreas disputadas por investidores e turistas de maior poder aquisitivo. O fenômeno trouxe renda, mas também pressiona comunidades tradicionais e encarece o custo de vida local.
É um movimento parecido com o que aconteceu em destinos como Jericoacoara e Pipa: primeiro chega o viajante alternativo, depois vêm as pousadas sofisticadas, o mercado imobiliário acelera e, em seguida, aparecem os conflitos sobre ocupação urbana, sustentabilidade e identidade cultural.
Visitantes no TripAdvisor descrevem o paradoxo sem meias palavras: “As praias são belíssimas, o povo local é extremamente hospitaleiro e a experiência poderia ser excepcional, mas tudo isso é comprometido pela precariedade da infraestrutura.” Outro registro, de setembro de 2025: “A influência política não deixa o asfalto chegar – dizem que os ricos não querem desenvolvimento para não perder a privacidade.”
Esse rumor circula há anos e nunca foi confirmado oficialmente. Mas alimenta um debate legítimo: quem lucra com a dificuldade de acesso? A resposta, nos destinos de luxo pelo mundo afora, quase sempre é a mesma – quem já chegou e não quer que mais ninguém chegue.
O que o leitor leva dessa história
Maraú é um caso de manual sobre como o turismo pode criar valor e como a falta de governança pode deixar esse valor represado. O capital privado chegou, o produto melhorou, a certificação federal veio. Mas sem estrada decente, o destino segue sendo excludente por omissão (ou por design). O turista que chega de carro passa por uma provação. O turista sem 4×4 nem chega. O morador convive com esse custo todo dia.
Para empresários e gestores, a lição é antiga mas raramente aprendida: infraestrutura não é custo. É condição. Um resort de R$ 80 milhões cercado de estrada de terra é um negócio que concorre contra si mesmo. E um destino que preserva a exclusividade pela precariedade não está conservando nada, está adiando o problema.
Talvez o maior ativo da Península de Maraú hoje não seja apenas a paisagem. Seja o fato de ainda existir tempo para evitar alguns erros que outros destinos cometeram. O desafio não é transformar Maraú em um novo polo turístico de massa. É construir um modelo onde saneamento, mobilidade, energia, preservação ambiental e qualificação profissional consigam evoluir sem destruir a experiência que move a economia local.
No fim das contas, o turista lembra das piscinas naturais. O investidor olha para a valorização imobiliária. O empreendedor comemora a alta temporada. Mas o verdadeiro Lado B de Maraú está em outra pergunta: como transformar um paraíso em uma economia sustentável sem que ele deixe de parecer um paraíso?
FOTO: Márcio Filho/MTur
O Lado B dos Destinos é uma coluna semanal do Indústria News que revela a economia, a indústria e as decisões que fazem um destino funcionar – ou entrar em tensão. Aqui, viagem não é fuga do noticiário. É outra forma de entender como cidades e regiões geram valor, emprego e identidade. A paisagem atrai. O modelo sustenta. O que você vai encontrar aqui? Análise leve, sem jargão; textos de fim de semana, com narrativa e contexto econômico; infraestrutura, investimentos, empregos, conflitos e oportunidades. Casos reais: o que deu certo, o que cobra seu preço e o que pode ser replicado.
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