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Capa O Lado B dos Destinos
mangue seco

Mangue Seco é a última praia do litoral norte baiano, na fronteira com Sergipe (Fotos: Manuela Brito)

Mangue Seco e o dilema clássico do turismo: preservar ou crescer

Destino aposta na simplicidade, mas enfrenta concorrência e limitações

MARCELO SAMPAIO por MARCELO SAMPAIO
11/04/2026
em O Lado B dos Destinos
Tempo de Leitura: 6 minutos
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Lado B

A  cena é clássica no imaginário brasileiro: as dunas brancas recortadas por coqueiros solitários, onde o Rio Real se encontra com o mar. Foi ali que, em 1989, o Brasil parou para ver Tieta retornar a Santana do Agreste. Mas, para quem desembarca em Mangue Seco, no extremo norte da Bahia, a realidade vai muito além da telenovela da Rede Globo. Ao descer da lancha que atravessa o rio a partir de Sergipe, o visitante não entra apenas em um cenário de Jorge Amado; ele entra em uma engrenagem econômica peculiar que sobrevive, quase que exclusivamente, de um ativo invisível: o isolamento.

Mas é aí que começa o “Lado B”.

Mangue Seco, distrito do município de Jandaíra, funciona como um destino de acesso difícil. Não há estrada direta até o vilarejo. O trajeto exige travessia de barco via Pontal (SE)  ou encarar quilômetros de areia em veículos 4×4. Isso, que para o turista é parte da experiência, para o destino é um gargalo estrutural. Limita fluxo, encarece operação e dificulta a escala.

Na prática, Mangue Seco vive de um turismo de baixa densidade e alta sazonalidade. Feriados e verão lotam pousadas e restaurantes. No resto do ano, o movimento cai drasticamente. O resultado é previsível: empregos temporários, renda irregular e baixa capacidade de investimento contínuo.

“Essa barreira geográfica é, ironicamente, o que sustenta o ‘valor de marca’ do destino. Se houvesse uma ponte ou uma estrada duplicada, a vila provavelmente perderia o charme rústico que permite cobrar preços diferenciados em pousadas e passeios”, diz o administrador de empresas Ícaro Oliveira, que mora em Salvador e costuma visitar o destino pelo menos duas vezes ao ano.

“Percebo que existe uma espécie de tensão silenciosa entre o turismo de bate e volta  (que vem de Aracaju ou da Linha Verde) e o turismo de permanência. O visitante que passa apenas três horas na vila consome a paisagem, mas deixa pouco capital no comércio local, sobrecarregando a infraestrutura de limpeza e recepção sem a contrapartida da hospedagem”,  analisa.

mangue seco

Modelo econômico

O modelo econômico de Mangue Seco é simples, quase artesanal. Para os cerca de 200 moradores do vilarejo, o turismo é uma das principais fontes de renda ao longo do ano.   A cadeia gira em torno de pousadas, restaurantes de beira de rio, barracas de praia e, principalmente, da Associação de Bugueiros local, que detém o monopólio dos passeios pelas dunas. Os roteiros são feitos integralmente pela associação, com trajetos que incluem diferentes mirantes e dunas, como o Morro do Caju e a Duna do Pôr do Sol.

É um ecossistema típico de turismo de base local, com forte protagonismo de moradores. Pouca presença de grandes redes, pouca padronização e quase nenhuma verticalização. Isso tem dois efeitos diretos.

O primeiro é positivo: mantém a identidade do destino. Mangue Seco não virou um “litoral pasteurizado”. Não há grandes resorts dominando a paisagem, nem uma explosão imobiliária descontrolada. O lugar ainda parece autêntico   e isso é ativo econômico.

O segundo é o oposto: limita produtividade e escala. Sem investimentos estruturantes –  acesso, saneamento, energia e conectividade  –  o destino cresce devagar e perde competitividade para vizinhos mais organizados.

E aqui entra um ponto pouco óbvio: Mangue Seco concorre, na prática, com destinos de Aracaju e do litoral sergipano, que oferecem acesso mais simples, preços mais previsíveis e melhor infraestrutura urbana. O turista que busca conforto muitas vezes atravessa o mapa  e deixa a Bahia para trás.

O paradoxo é claro: o que faz Mangue Seco ser especial também impede que ele cresça mais rápido.

mangue seco

Insumos mais caros

Outro desafio está na logística. Insumos chegam mais caros. Operar um restaurante ou pousada exige planejamento maior e margens mais apertadas. Isso impacta preço final e competitividade. Para o visitante, a conta aparece. Para o empresário local, é sobrevivência.

Há também o limite ambiental. A região é sensível, com dunas móveis, manguezais e ecossistemas frágeis. Qualquer expansão desordenada pode comprometer justamente o ativo que sustenta o destino. Ou seja: crescer demais também é um risco.

E o turista percebe. Reclama do acesso demorado, da falta de estrutura em alguns serviços, da oscilação de preços e da pouca oferta fora da alta temporada. Nada disso é novidade,  mas também não é trivial de resolver.

Então por que Mangue Seco continua funcionando?

Porque vende uma experiência que o mercado ainda valoriza: isolamento, simplicidade e contato direto com a natureza. Em um mundo de destinos cada vez mais padronizados, isso virou diferencial competitivo. Mas diferencial, sozinho, não sustenta crescimento.

O que Mangue Seco ensina é direto: turismo não é só paisagem. É logística, governança e modelo de negócio. Sem isso, o destino sobrevive,  mas não escala.

Há caminhos possíveis

Investimentos leves, mas estratégicos, em infraestrutura de acesso e saneamento podem aumentar eficiência sem descaracterizar o lugar. Capacitação de serviços pode elevar ticket médio sem perder autenticidade. E uma articulação regional com Sergipe poderia transformar a divisa em ativo,  não em fronteira competitiva.

Mangue Seco é um caso de manual sobre o que economistas chamam de resource curse turístico: o próprio ativo que atrai o visitante é o que impede a escala. O acesso difícil preserva – e limita. O rústico encanta –  e afasta o capital. A novela fideliza –  e congela a narrativa.

O destino tem ingredientes raros: autenticidade, paisagem singular, produto gastronômico exclusivo e uma cadeia local organizada. O que falta é um modelo de gestão que consiga monetizar melhor o tempo de quem já fez o esforço de chegar. Hospedagem de qualidade com experiências imersivas, turismo de natureza com protocolo ambiental sério, e uma narrativa econômica que vá além da Tieta  são os próximos capítulos que o vilarejo ainda não escreveu.


O Lado B dos Destinos é uma coluna semanal do Indústria News que revela a economia, a indústria e as decisões que fazem um destino funcionar – ou entrar em tensão. Aqui, viagem não é fuga do noticiário. É outra forma de entender como cidades e regiões geram valor, emprego e identidade. A paisagem atrai. O modelo sustenta. O que você vai encontrar aqui? Análise leve, sem jargão; textos de fim de semana, com narrativa e contexto econômico;  infraestrutura, investimentos, empregos, conflitos e oportunidades. Casos reais: o que deu certo, o que cobra seu preço e o que pode ser replicado.


Leia também: Bahia abre a maior mina subterrânea de níquel da América Latina


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