
Quem chega a Piatã,, município encravado na Chapada Diamantina, numa manhã de inverno pode estranhar a cena. Enquanto boa parte do Nordeste desperta sob um sol de 30 graus, ali o vapor sai da boca, casacos pesados dividem espaço com cachecóis e o café quente parece uma necessidade, não um luxo. A poucos quilômetros dali, nas partes mais altas da Serra da Tromba, os termômetros já registraram temperaturas próximas de 0°C em ocasiões excepcionais. Não parece Bahia. Mas é.
Piatã fica a cerca de 518 km de Salvador, numa posição privilegiada de platô entre as serras da Tromba e da Santana. É o município mais alto e mais frio do Nordeste – e não por pouco. Com altitude que ultrapassa 1.280 metros na sede urbana e chega a 1.500 metros nas áreas periféricas, Piatã supera com folga vizinhas como Morro do Chapéu, Rio de Contas e Vitória da Conquista. O Pico do Barbado, que pertence ao seu território, atinge 2.033 metros – o ponto mais alto de toda a região Nordeste.
O nome vem do tupi e significa “pé firme”. Ou “fortaleza”. Os dois sentidos cabem.
A cidade é também a mais antiga da Chapada Diamantina. Sua fundação remonta ao século XVII, quando garimpeiros em busca de ouro e pedras preciosas formaram o povoado de Bom Jesus dos Limões às margens da Estrada Real, que ligava Rio de Contas a Jacobina. Desse tempo colonial sobrevivem a Igreja Matriz do Bom Jesus e a Capela de Nossa Senhora do Rosário, monumentos que guardam a trajetória de bandeirantes, mineradores e comunidades quilombolas que fizeram desse platô um ponto de encontro de histórias.
Nas serras ao redor, sítios arqueológicos na Serra do Gentil revelam pinturas rupestres com vestígios que remontam a 10 a 12 mil anos – inscrições do período paleolítico, feitas por povos que viveram nessas alturas muito antes de qualquer garimpeiro.

Por que isso funciona — e o que ainda trava
O frio é o produto. Mas quem sustenta a economia local de forma mais consistente é um grão pequeno, aromático e cada vez mais valorizado no mercado global.
Piatã é conhecida como a “Terra do Café”. E não é título vazio. A altitude elevada, combinada com noites frias e maturação lenta dos frutos, cria condições ideais para cafés de altíssima qualidade sensorial — perfis que evocam chocolate, canela e frutas vermelhas. O resultado aparece nos prêmios. Em 2014, segundo o Guia Chapada Diamantina, Piatã varreu o Cup of Excellence — o principal concurso de qualidade do mundo para cafés especiais —, conquistando as cinco primeiras colocações.
A Fazenda Tijuco, da família Rigno de Oliveira, foi campeã novamente em 2022, com nota 91,41 pontos numa escala de 100 — ranking considerado “café presidencial”, de acordo com o Portal do Agronegócio. A propriedade se sagrou tetracampeã da competição ao longo dos anos.
Esse desempenho colocou Piatã no mapa global do café especial. Fazendas como a Rigno e outras propriedades da região já atraem compradores internacionais, e roteiros de turismo rural começaram a ser estruturados, levando visitantes a conhecer cada etapa do cultivo, da colheita à degustação.
“Enquanto muitas cidades disputam turistas apenas pela paisagem, Piatã construiu uma economia onde agricultura e turismo caminham juntos. Quem visita uma fazenda de café não conhece apenas uma plantação. Conhece um processo produtivo sofisticado, famílias que transformaram tradição em negócio e uma cadeia que gera emprego, renda e reconhecimento internacional”, diz o professo e guia turístico Mateus Araúdo.
Só que turismo de verdade exige mais do que atrativos.E aqui mora o Lado B.

Indicadores econômicos e infraestrutura
Com cerca de 20.086 habitantes segundo o Censo de 2022, Piatã apresenta indicadores econômicos que contrastam com o brilho dos prêmios internacionais. O PIB per capita era de R$14.405 em 2021, a taxa de formalização de empregos não chega a 8% da população, e mais da metade dos habitantes, segundo dados de 2010, vivia com renda abaixo de meio salário mínimo.
O isolamento geográfico é o nó estrutural. Piatã não tem aeroporto. As estradas de acesso, especialmente em períodos de chuva, transformam a viagem em aventura nem sempre desejada. As estradas exigem longos deslocamentos e, em alguns trechos, a infraestrutura ainda deixa a desejar. Lençóis, principal polo turístico da Chapada, concentra a infraestrutura hoteleira e o aeroporto da região, e acaba atraindo o grosso do fluxo de visitantes que Piatã deveria estar recebendo. O resultado é que o município sente na prática algo recorrente no turismo de interior: gera reputação, mas outro lugar colhe a conta.
A oferta de hospedagem cresce lentamente, faltam opções gastronômicas mais diversificadas e muitos atrativos permanecem pouco estruturados ou com baixa divulgação. E o calendário de eventos – destaque para o São João e festividades religiosas de romaria na Serra da Santana – ainda não foi suficientemente convertido em pacote, em experiência vendável, em economia que fique. “Na prática, Piatã ainda depende muito do turista que já conhece a Chapada Diamantina e decide estender a viagem por curiosidade”, afirma Mateus.

O que o leitor leva dessa história
Piatã tem o que muitos destinos tentam comprar com campanhas milionárias: autenticidade, história, natureza intacta e um produto agrícola que já circula entre os melhores do planeta. O frio nordestino que surpreende, as pinturas rupestres nas serras, a arquitetura colonial que resistiu ao tempo e o café que chegou às mesas dos melhores compradores do mundo compõem uma narrativa rara — e subexplorada.
O desafio não é de imagem. É de engenharia turística: conectividade, hospitalidade estruturada, roteiros operados por agências com consistência e uma política municipal que enxergue o turismo não como apêndice do calendário de festas, mas como cadeia produtiva permanente.
Piatã tem pé firme, como diz o tupi. Falta ainda dar o próximo passo e ele passa por estrada boa, pousada disponível e um copo de café entregue na mão certa.
O Lado B dos Destinos é uma coluna semanal do Indústria News que revela a economia, a indústria e as decisões que fazem um destino funcionar – ou entrar em tensão. Aqui, viagem não é fuga do noticiário. É outra forma de entender como cidades e regiões geram valor, emprego e identidade. A paisagem atrai. O modelo sustenta. O que você vai encontrar aqui? Análise leve, sem jargão; textos de fim de semana, com narrativa e contexto econômico; infraestrutura, investimentos, empregos, conflitos e oportunidades. Casos reais: o que deu certo, o que cobra seu preço e o que pode ser replicado.
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