
Em Praia do Forte, no Litoral Norte baiano, nada parece improvisado. No fim de semana e feriados, a vila opera em ritmo intenso: restaurantes cheios, hotéis com alta ocupação, comércio funcionando sem sobressaltos, turistas de alto poder aquisitivo circulando com naturalidade. O cenário é bonito, mas o que realmente chama atenção é outra coisa: tudo funciona. Para além do charme bucólico, Praia do Forte é, na verdade, uma unidade de negócios de alta performance. Diferente de destinos que cresceram de forma orgânica e caótica, aqui o turismo foi “desenhado”. E é justamente essa precisão que hoje coloca o destino diante de um espelho desafiador.
Localizada a cerca de 80 km de Salvador, a antiga vila de pescadores dentro da fazenda de Klaus Peters transformou-se, a partir dos anos 80, no principal polo de hotelaria de luxo do estado. Segundo dados da prefeitura de Mata de São João, o turismo responde por mais de 60% da economia local.
O modelo é baseado no tripé: preservação ambiental (Projeto Tamar), resorts de padrão internacional (como o Tivoli e o complexo Iberostar) e um comércio de vila que mimetiza um shopping a céu aberto. É o destino que “vende” a Bahia que funciona, segura e organizada.
Por que funciona: O triunfo do zoneamento
O sucesso de Praia do Forte não é sorte; é regulação. Enquanto outros destinos litorâneos sofrem com a favelização das orlas e a poluição sonora, Praia do Forte implementou normas rígidas de ocupação de solo.
Gestão de fluxo: A ausência de veículos na vila não é apenas estética; ela força o visitante a consumir o espaço de forma mais lenta, aumentando o tempo de permanência nas lojas e restaurantes.
Simbiose ambiental: O Projeto Tamar não é só ciência; é a âncora de marketing que justifica o selo de sustentabilidade, atraindo o turista europeu e o brasileiro que busca “propósito”.
Empregabilidade: O destino é um dos maiores geradores de carteira assinada da região, absorvendo mão de obra de cidades vizinhas como Pojuca e Camaçari.
O Lado B
O sucesso tem efeitos colaterais. O custo de vida aumentou, o acesso à moradia ficou mais restrito e a dependência quase total do turismo torna a economia local vulnerável a crises externas. Além disso, há o risco da padronização excessiva – quando o destino começa a perder identidade para atender expectativas globais.
A gentrificação total: O custo de vida na vila expulsou os moradores originais para bairros periféricos ou para a localidade de Malhadas. Quem serve o vinho de R$300 não consegue morar onde trabalha. Isso gera um desafio logístico e social: o transporte público e a infraestrutura básica para o trabalhador não acompanharam o brilho da vila turística.
O conflito do acesso: Reportagens recentes do portal G1 Bahia e do jornal Correio* mostram que a infraestrutura de acesso (a Linha Verde) sofre com o excesso de veículos em feriados. O destino ficou tão desejado que a “experiência de luxo” começa com um engarrafamento de duas horas.
O turismo de “um dia”: Empresários locais reclamam do crescimento do turismo de “bate-volta”. Ônibus de excursão despejam centenas de pessoas que utilizam a infraestrutura pública (limpeza, banheiros), mas deixam pouco valor agregado no comércio local, sobrecarregando o ecossistema.
O que o empresário e o gestor levam daqui
Praia do Forte é, hoje, um modelo de turismo que deu certo, mas que exige atenção constante. Seu maior mérito talvez seja mostrar que turismo não precisa ser improviso, nem aposta de curto prazo. Quando tratado como política econômica, ele gera renda, emprego e estabilidade.
Para destinos em ascensão, a lição é clara: não basta ter uma bela praia. É preciso ter um Código de Postura municipal que seja respeitado. Contudo, o sucesso cria uma bolha. Se o destino não investir na qualidade de vida do entorno e na mobilidade regional, ele corre o risco de se tornar um “parque temático” isolado, perdendo a alma e, eventualmente, o interesse do turista que busca autenticidade.
Praia do Forte é o exemplo de que o turismo pode, sim, ser uma indústria de precisão. Mas, como toda indústria, ela precisa de manutenção constante para não fundir o motor com o excesso de demanda.
O Lado B dos Destinos é uma coluna semanal do Indústria News que revela a economia, a indústria e as decisões que fazem um destino funcionar – ou entrar em tensão. Aqui, viagem não é fuga do noticiário. É outra forma de entender como cidades e regiões geram valor, emprego e identidade. A paisagem atrai. O modelo sustenta. O que você vai encontrar aqui? Análise leve, sem jargão; textos de fim de semana, com narrativa e contexto econômico; infraestrutura, investimentos, empregos, conflitos e oportunidades. Casos reais: o que deu certo, o que cobra seu preço e o que pode ser replicado.
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