A Bahia vive hoje um paradoxo econômico que desafia sua história de protagonismo no Nordeste. Se no passado a grande questão era a industrialização, o “enigma baiano” do primeiro quartel do século XXI atende pelo nome de isolamento logístico. Em entrevista ao Webinar da Indústria, o ex-ministro, ex-senador e ex-secretário de Planejamento, Waldeck Ornélas, traçou um diagnóstico severo sobre o estado das artérias que deveriam integrar a economia baiana, mas que hoje funcionam como verdadeiros torniquetes ao crescimento. “De repente, a Região Metropolitana de Salvador, que concentra a atividade industrial, ficou sem rodovias e sem ferrovias”, alerta Ornélas, que nesta quinta-feira (23) lança o livro Bahia Urgências do Presente.
Na entrevista, Waldeck foi direto ao ponto. “A Bahia tem todas as artérias estranguladas”, afirmou. O cenário rodoviário é um dos pontos mais críticos desse estrangulamento. Com o fim traumático da concessão da ViaBahia, o estado enfrenta agora um perigoso hiato temporal. Segundo ele, o cronograma para uma nova licitação das BRs 324 e 116 empurra obras significativas apenas para 2028. Enquanto isso, o fluxo de cargas e pessoas segue comprometido.
“A economia está estrangulada. Estamos sendo salvos pelos portos da Baía de Todos-os-Santos”, analisa, destacando que a precariedade das rodovias 101 e 116, que deveriam ser os elos entre o Sudeste e o Nordeste, reflete uma inércia que ele classifica como “suicida” para a competitividade regional.
No campo ferroviário, a situação não é menos grave. A Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), que deveria conectar a Bahia ao Sudeste, opera hoje a uma velocidade média de 11 km/h e atende praticamente um único cliente – uma mineradora. A renovação da concessão, aprovada recentemente pela ANTT, é vista por Waldeck como um “mal necessário”.
“Ruim com ela, pior sem ela. Nós íamos ficar sem ferrovia nenhuma”, avaliou. Já a Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), que ligaria Ilhéus ao Porto Sul e poderia se estender até o coração do agronegócio do Mato Grosso, tem 75% da obra concluída, mas segue paralisada à espera da resolução de um impasse contratual com um consórcio lusitano-chinês. “Nós estamos na beira de solucionar esses problemas. A Bahia precisa ter pressa”, cobrou.
Um ponto que incomoda especialmente o ex-secretário é a disparidade no tratamento federal. Enquanto Minas Gerais recebe um pacote de R$100 bilhões em investimentos e programa 13 leilões rodoviários para este ano, a Bahia terá dois. A Transnordestina avança com aportes maciços do Fundo de Desenvolvimento do Nordeste, garantidos, em grande parte, pela mobilização da bancada pernambucana em Brasília.
“Quando se anunciou que a Transnordestina ia deixar de ligar Salgueiro ao Porto Suape, a bancada federal de Pernambuco, acima dos partidos, foi a Brasília e arrancou a decisão do governo federal. “Na Bahia não está ocorrendo isto. Eu não consigo entender por quê. Nos tempos em que eu fazia política, essas coisas não aconteciam assim. Nós brigávamos para que as coisas acontecessem”, disse.

Ponte Salvador-Itaparica
Questionado sobre projetos polêmicos como a Ponte Salvador-Itaparica, Ornélas mantém sua postura analítica e crítica, definindo a obra como um “mal desnecessário”. Para ele, os vultosos recursos públicos que serão drenados para a ponte poderiam ter maior retorno social e econômico se aplicados na recuperação das ferrovias, estradas e hidrovias. Ele teme que a força centrípeta de Salvador acabe esvaziando centros comerciais dinâmicos do interior, como Santo Antônio de Jesus, além de comprometer a eficiência da Via Expressa na capital.
Na visão do ex-ministro, a decadência da infraestrutura explica por que a Bahia tem perdido peso relativo no PIB nacional e regional. O estado caiu do sexto para o sétimo lugar no ranking do PIB nacional e viu sua participação no PIB do Nordeste despencar de 38%, em 1985, para cerca de 25% hoje. “Nós temos perdido posição relativa, temos perdido peso econômico, temos perdido importância”, disse.
O livro
O livro que o ex-ministro Waldeck Ornélas lança nesta quinta-feira não é exatamente uma obra de prospectiva. É quase o oposto: uma prestação de contas com o passado. Reunindo mais de 110 artigos dos últimos anos, organizados por temas como ferrovias, portos, energia e desenvolvimento regional, a publicação revela um efeito perturbador: as perguntas de 2015 são as mesmas de 2025.

“Não estou falando do futuro, não estou falando de projetos futuros. O que eu defendo é resgatar as pendências que nós temos para daí começar a pensar em novos projetos”, explicou o autor.
Apesar do tom crítico, Waldeck enxerga saídas – e aposta, em especial, no potencial da energia eólica e solar como âncora para atrair indústrias intensivas em consumo energético, em vez de simplesmente exportar a geração limpa para o Sudeste. A Bahia, na sua leitura, tem o que precisa. Falta, como sempre, decidir o que fazer com isso.
Bahia Urgências do Presente, de Waldeck Ornélas, será lançado no dia 23 de abril, às 17h30, na Livraria Leitura do Salvador Shopping. O livro é publicado pelo Instituto Desenvolve Bahia e estará disponível também na Amazon.
O autor
Nascido em Ipiaú (BA), Waldeck Ornélas é especialista em planejamento urbano regional, com formação pela Universidade Federal da Bahia, pela Universidad Nacional de Ingeniería (Lima, como bolsista da Organização dos Estados Americanos) e pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe/ILPES. Com trajetória que combina técnica e política, coordenou o Plandurb, criou o Programa de Ocupação Econômica do Oeste Baiano e liderou a recuperação do Pelourinho, além de ter sido secretário estadual de Planejamento.
Foi constituinte de 1988, deputado federal, senador (1995–2003) e ministro da Previdência no governo de Fernando Henrique Cardoso. É autor de obras sobre desenvolvimento e, atualmente, atua como consultor no Instituto Desenvolve Bahia.
SERVIÇO
- O quê: Lançamento de Bahia Urgências do Presente
- Autor: Waldeck Ornélas
- Quando: 23 de abril de 2025 (quinta-feira), às 17h30
- Onde: Livraria Leitura — Salvador Shopping (L1)
- Editora: Vernasce
- Publicação: Instituto Desenvolve Bahia
Leia também: Braskem apresenta metodologia usada em grandes projetos a alunos da Ufba
















