A Ferbasa iniciou 2026 pressionada por um cenário global mais hostil para o setor de ferroligas. A companhia baiana, líder nacional no segmento e única produtora integrada de ferrocromo das Américas, encerrou o primeiro trimestre com prejuízo líquido de R$2,4 milhões, revertendo o lucro de R$ 99,8 milhões registrado no quarto trimestre de 2025 e os R$ 24,2 milhões obtidos no mesmo período do ano passado.
O resultado reflete uma combinação de queda no volume de vendas, redução do dólar médio praticado, aumento dos custos de produção e efeitos das barreiras comerciais impostas por mercados estratégicos, especialmente Estados Unidos e União Europeia. Ainda assim, a empresa conseguiu ampliar fortemente sua geração operacional de caixa na comparação trimestral, mostrando capacidade de adaptação em um ambiente internacional mais turbulento.
A receita líquida consolidada da companhia somou R$506,4 milhões entre janeiro e março, retração de 16% frente ao último trimestre de 2025. Segundo a empresa, o desempenho foi impactado principalmente pela queda de 13,5% no volume de vendas de ferroligas e pela redução de 1,5% no dólar médio praticado. Na comparação anual, a receita caiu 7,9%.
No trimestre, a produção de ferroligas alcançou 72,6 mil toneladas, recuo de 2,9% frente ao quarto trimestre do ano passado e de 4,3% na comparação com o primeiro trimestre de 2025. Apesar disso, a utilização da capacidade instalada da planta metalúrgica subiu para 77,9%, impulsionada pela maior participação das ligas de silício na produção total – produtos mais intensivos em consumo de energia.

Vendas
As vendas totalizaram 63,9 mil toneladas, queda de 13,5% frente ao trimestre anterior. No mercado externo, a retração foi de 18,8%, influenciada principalmente pela reorganização das exportações após a derrubada parcial do chamado “tarifaço” dos Estados Unidos sobre as ligas de cromo brasileiras. Já na Europa, a companhia relatou dificuldades ligadas ao excesso de estoques e às novas regras comerciais e ambientais, como o CBAM – mecanismo europeu de ajuste de carbono.
No mercado interno, embora a produção de aço siga em ritmo considerado positivo, a Ferbasa aponta que o consumo de ferroligas foi afetado por paradas de manutenção nas siderúrgicas e pelo aumento da concorrência, incluindo o avanço de materiais alternativos. O cenário reforça a crescente disputa global por mercado em um setor diretamente ligado à indústria pesada e ao aço inoxidável.
Mesmo diante da pressão operacional, o Ebitda ajustado da companhia alcançou R$44,1 milhões, com margem de 8,7%, um salto de 926% frente ao quarto trimestre de 2025. O avanço, porém, precisa ser lido com cautela: o trimestre anterior havia sido impactado negativamente por fatores pontuais operacionais, enquanto o resultado atual ainda ficou 27,8% abaixo do registrado um ano antes.
O resultado financeiro positivo de R$ 18,5 milhões ajudou parcialmente a reduzir as perdas, embora tenha vindo 52,9% abaixo do trimestre anterior. A empresa lembra que o quarto trimestre de 2025 contou com receitas extraordinárias ligadas à recuperação de créditos tributários e ajustes contábeis relacionados a ativos biológicos, fatores que inflaram artificialmente o lucro do período.
Os investimentos da companhia somaram R$40,6 milhões no trimestre, concentrados principalmente na aquisição de máquinas e equipamentos para as áreas de metalurgia e mineração. A redução do Capex frente ao trimestre anterior indica uma postura mais cautelosa da empresa diante do ambiente internacional mais instável.
Análise
Mais do que um balanço trimestral, os números da Ferbasa ajudam a traduzir um momento delicado vivido pela indústria brasileira exportadora. O setor de ferroligas está no centro de disputas comerciais globais, novas barreiras ambientais e políticas industriais mais agressivas adotadas por grandes economias. Para uma companhia baiana altamente dependente do mercado externo, cada tarifa adicional, mudança regulatória ou tensão geopolítica afeta diretamente competitividade, margens e capacidade de investimento.
O resultado também mostra como a indústria eletrointensiva brasileira segue vulnerável às oscilações do dólar, aos custos energéticos e às mudanças no comércio internacional. Ainda assim, a Ferbasa demonstra resiliência ao manter operação elevada, capacidade exportadora e presença em mercados estratégicos como Estados Unidos, Europa, Japão e China. Em um cenário global cada vez mais protecionista, sobreviver com competitividade já se tornou, por si só, um diferencial industrial relevante.
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