
Era 1920 e Feira de Santana ainda engatinhava como cidade quando um químico chamado Paulo da Costa Lima – e seu irmão Sinval – decidiu montar no meio de um grande matagal, entre os fundos da Prefeitura e o que hoje é a Avenida Sampaio, aquela que seria a primeira grande indústria da cidade. A Fábrica Leão do Norte foi a primeira indústria de Feira de Santana, e ela nasceu de uma combinação improvável: a escassez de uvas no Brasil e a criatividade de um homem que enxergou negócio onde os outros viam apenas mato.
A Jurubeba Leão do Norte, inicialmente, era vendida em farmácias como tônico estomacal, afrodisíaco e como auxiliar contra males como a febre amarela – graças às propriedades medicinais da jurubeba, planta nativa do Nordeste e do Norte do Brasil. Na infusão com cachaça e outras ervas como a quina, prescrita na época para a febre amarela, e ainda o fedegoso, o produto ganhava um gosto menos carregado do cheiro original da casca. O resultado era um vinho amargo-adocicado que misturava ciência, folclore e oportunismo de mercado, uma fórmula que, como se veria décadas depois, era imbatível.
A fábrica que abrigava esse projeto era, para os padrões da época, monumental. O cronista feirense Antônio Moreira Ferreira, o célebre “Antônio do Lajedinho”, que a conheceu pessoalmente nos anos 1930, descreve, em seu livro “A Feira no Século XX” (2006, editado pela Prefeitura de Feira de Santana), um complexo de cerca de 20 mil metros quadrados que incluía salão de dornas com capacidade de 2 a 4 mil litros cada, galpão de moagem com máquinas a motor, sala de tanoaria, lavagem de garrafas, carpintaria, embalagem, depósitos e dependências para operários, além da chácara com a residência do próprio fundador. “É difícil de acreditar que uma cidade até então tão pequena tivesse uma fábrica daquele porte”, admitia o próprio Lajedinho, em um texto publicado no site da Prefeitura de Feira de Santana em agosto de 2019.
O movimento era intenso e contínuo. Carroças entravam e saíam carregadas de caixas e barris com destino à Estação Ferroviária e ao comércio local. Às segundas-feiras, dia de feira livre, a fábrica transbordava de animais de carga vindos de toda a região para buscar bebidas e vinagre. A Leão do Norte não era apenas uma indústria: era um nó logístico do sertão baiano.
Segundo o historiador Antônio do Lajedinho, o químico Paulo da Costa Lima criou, em 1924, vinhos de diversas frutas e montou em Feira de Santana a primeira fábrica de grande porte. A empresa gerou um ecossistema próprio: formou discípulos que abriram seus próprios negócios em Feira, dentre eles Francisco Ferreira da Silva, Francisco Valadares, Emídio Trindade, Afonso Rico, Janico Aguiar e Durval Lago, criando uma espécie de cadeia produtiva artesanal ao redor da fábrica-mãe.
Mudança para a capital
A mudança para a capital foi um divisor de águas. A empresa, em 1932, mudou-se para Salvador, a fim de melhor atender ao desenvolvimento das vendas e à expansão da área de consumo. O endereço escolhido foi um casarão colonial no Largo da Boa Viagem, em Itapagipe, numa área de 3.200 m². Era um movimento estratégico: Salvador era a porta de saída para o mercado nacional, e a ferrovia de Feira já não dava conta da ambição da marca.
A partir daí, em 1937 o então responsável pela fábrica, Epaminondas Costa Lima, valendo-se de sua agência de publicidade, começou a investir em divulgação, com anúncios, campanhas e materiais de ponto de venda. Foi Epaminondas quem criou o almanaque do produto, distribuído por mala direta, e cunhou o slogan que atravessou gerações: “Exija o legítimo” — criado justamente para combater a enxurrada de imitações que surgiu ao sabor do sucesso da marca. Foi o marketing que deu longa vida a este produto, uma das marcas de maior recall entre as indústrias de bebidas regionais, registra o portal iBahia.
Havia também um fator externo que ameaçava o modelo original do negócio. O progresso do pós-guerra, em 1945, popularizou o vinho de uva e sepultou as pequenas fábricas de vinho e vinagre que haviam surgido à sombra da Leão do Norte em Feira de Santana. A democratização do vinho importado do Sul do país, mais acessível às classes populares após a Segunda Guerra, foi o golpe que encerrou o ciclo artesanal que a fábrica havia inaugurado. Os discípulos que Paulo da Costa Lima deixara em Feira não resistiram à concorrência do vinho de uva. A fábrica-mãe, porém, sobreviveu e evoluiu.
A sede definitiva foi erguida no Centro Industrial de Aratu, em Simões Filho, em um terreno de 125 mil m² com 12 mil m² de área construída. Maquinário e equipamentos atualizados permitiram à indústria alcançar alto índice de automação e produtividade, com dornas de capacidade para três milhões e meio de litros e laboratório próprio de análises enológicas e bacteriológicas com cromatógrafo computadorizado.
Segundo o banco de dados de Patrimônio Arquitetônico Industrial da UFBA, essa transferência ocorreu em 1978. No velho casarão da Boa Viagem, em Salvador, restou o silêncio: o conjunto foi encontrado por pesquisadores em estado precário de conservação, com fachadas pichadas e cobertura escorada, sem nenhum tipo de proteção patrimonial oficial, um destino melancólico para o berço soteropolitano de uma das marcas mais icônicas da Bahia.
A trajetória da Leão do Norte é, em essência, a história de uma empresa que soube se reinventar para sobreviver, mas que, ao fazer isso, foi deixando pelo caminho os lugares onde nasceu. Feira de Santana perdeu a sua primeira indústria para a capital, e a capital a perdeu para o interior metropolitano.
O que restou em Feira foi a memória: o cheiro das dornas no meio do matagal, o barulho das carroças nas manhãs de segunda, e a saudade de um tempo em que a Leão do Norte era sinônimo de progresso numa cidade que ainda aprendia a ser grande. O pedido do cronista Antônio do Lajedinho de que a Câmara Municipal homenageasse Paulo da Costa Lima com o nome de uma rua jamais foi atendido. Feira cresceu, e esqueceu o seu primeiro industrial.
Hoje, a Organização Leão do Norte, com mais de um século de história, permanece em Simões Filho, combinando técnicas tradicionais com padrões modernos de produção – e o rótulo do vinho amargo ainda ostenta o nome do leão rugindo, como se continuasse anunciando: nascemos no interior da Bahia, e não nos esquecemos disso.
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