A Bahia fechou 2024 consolidando uma posição ambígua no cenário nacional de energia solar. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o estado é o segundo maior produtor de energia solar centralizada do Brasil, com 2,4 GW de capacidade instalada, ficando atrás apenas de Minas Gerais (5 GW). Na geração distribuída, porém, a Bahia amarga a oitava posição nacional, com apenas 1,3 GW – muito distante dos líderes São Paulo (4,45 GW) e Minas Gerais (3 GW).
O paradoxo é gritante: um estado com radiação solar superior a 6 horas de sol pico diário em várias regiões, segundo o Atlas Solar da Bahia, não consegue transformar esse potencial em democratização energética. A questão que se impõe ao setor industrial baiano é: por que as grandes usinas prosperam enquanto a microgeração patina?
Esta análise desvenda os fatores por trás dessa dicotomia e mapeia as perspectivas para um setor que movimentou R$9,5 bilhões em investimentos desde 2012 e tem tudo para mudar o jogo econômico do estado.
Dois brasis solares em um só estado
A indústria solar baiana opera em duas velocidades drasticamente diferentes. Na geração centralizada, o estado abriga 79 usinas em operação, distribuídas por 14 municípios, com destaque para o Complexo Solar Lapa, em Bom Jesus da Lapa, o maior do país com 158 MW de capacidade, suficiente para abastecer 166 mil residências.
De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia (SDE), desde 2012, o setor atraiu mais de R$9,5 bilhões em novos investimentos, gerando mais de 60 mil empregos e contribuindo com R$3,3 bilhões em tributos aos cofres públicos. A capacidade instalada atual de 2,0 GW representa 18% de participação no mercado nacional de energia solar centralizada, segundo dados da Associação Baiana de Energia Solar (ABS).
R$ 89 bilhões É o Investimentos previstos até 2030 em energia solar no estado
Já na geração distribuída, o cenário é menos animador. Até novembro de 2024, a Bahia contava com apenas 109,3 mil sistemas fotovoltaicos instalados em residências e pequenos comércios, segundo informações da Aneel compiladas pelo Canal Solar. São Paulo, em comparação, possui mais de 326,7 mil conexões na mesma modalidade.
A disparidade não para por aí. Enquanto Salvador, capital do estado, lidera em capacidade instalada com modestos 12,68 MW, cidades do interior de São Paulo e Minas Gerais individualmente superam esse número. O crescimento de 56% na geração distribuída entre 2022 e 2023 no estado, celebrado pela Aneel, esconde uma verdade incômoda: a Bahia partiu de uma base muito pequena.
Fatores positivos: O potencial que atrai bilhões
A geografia não mente. A Bahia possui condições naturais privilegiadas que explicam o interesse dos grandes players do setor. Segundo o Atlas Solar da Bahia, várias regiões do estado registram irradiação solar acima de 6 horas de sol pico por dia, índice considerado excelente para geração fotovoltaica. Os dias de sol são permanentes durante o ano inteiro, eliminando a sazonalidade que afeta outras regiões.
A localização estratégica no Nordeste coloca a Bahia no radar de investidores internacionais. Gigantes como a Statkraft, maior geradora de energia renovável da Europa, aprovaram em 2023 a construção de dois projetos solares híbridos no estado, com capacidade de 228 MWac, utilizando de forma pioneira a tecnologia BESS (armazenamento por baterias).
748 mil empregos É o potencial de geração de postos de trabalho diretos e indiretos, na Bahia, até 2030
A cadeia produtiva também está se desenvolvendo. Nos últimos 12 meses, a Bahia atraiu a fábrica de seguidores fotovoltaicos da Trina Tracker, além de acordos com a Homerun Resources para produção de vidro fotovoltaico e com a Si&Mex Solutions para produção de módulos.
O arcabouço de incentivos fiscais também é robusto. A Bahia oferece isenção fiscal e zero alíquota para importação de equipamentos, tornando o estado competitivo na atração de grandes empreendimentos. O governador Jerônimo Rodrigues, em entrevista à Agência Eixos durante a COP30, em novembro, reforçou o compromisso: “Nós vamos, sim, montar um esforço para que a Bahia, onde tenha fonte de energia eólica, solar, biomassa, a gente possa ter também nossas indústrias”.
Gargalos e desafios
O principal obstáculo para a democratização da energia solar na Bahia é, paradoxalmente, econômico. O PIB per capita do estado ocupa apenas a 17ª posição entre as unidades da federação, o que limita drasticamente o acesso ao crédito e à capacidade de investimento das famílias e pequenos empresários.
Análises do setor apontam que o custo inicial de instalação de painéis solares, mesmo com a queda recente nos preços dos equipamentos, ainda representa uma barreira intransponível para grande parte da população baiana. Segundo o estudo Radar da Solfácil, a Bahia registrou preço médio de R$ 3,66/Wp no segundo semestre de 2023, acima da média nacional.
A infraestrutura de transmissão é outro ponto crítico. Marcos Rêgo, presidente da ABS, destacou ao site Bahia Econômica em janeiro de 2025 que “a expansão da energia solar reforça a necessidade de ampliação da infraestrutura de transmissão, a fim de acompanhar o ritmo de crescimento da geração solar e evitar o desperdício de energia”.
A qualificação de mão de obra também preocupa. De acordo com a Associação Baiana de Energia Solar, a carência de profissionais especializados, especialmente em instalação e manutenção de sistemas fotovoltaicos, pode limitar o potencial de expansão. A ABS tem promovido cursos de capacitação, já formando mais de 100 instaladores até 2024, mas o déficit ainda é significativo.
O acesso ao financiamento é outra barreira relevante. Embora o Banco do Nordeste ofereça o Programa FNE SOL, com recursos do Fundo Constitucional do Nordeste, e linhas de crédito de bancos privados estejam disponíveis, a burocracia e as exigências impedem que boa parte dos interessados acesse esses recursos.
O abismo que precisa ser superado
A comparação com Minas Gerais é reveladora. O estado mineiro não apenas lidera na geração centralizada com 5 GW, mas também é o segundo em geração distribuída, com 3 GW e mais de 249,5 mil conexões, segundo dados da Aneel compilados pelo Canal Solar. São Paulo, mesmo com menor irradiação solar que a Bahia, possui 4,45 GW em geração distribuída.
A diferença está na renda per capita e no acesso ao crédito. Minas Gerais conta com linhas de crédito específicas através do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), que ampliou seus desembolsos de R$37,3 milhões em 2019 para R$250,9 milhões em 2023 – um crescimento de mais de 500%. Entre 2019 e agosto de 2024, foram financiados 215 projetos, totalizando R$620 milhões em créditos liberados.
18% É a participação da Bahia no mercado nacional de energia solar centralizada (2ª posição)
São Paulo, por sua vez, se beneficia da combinação entre alto poder aquisitivo e tarifas de energia elevadas, que tornam o payback dos sistemas fotovoltaicos mais atrativo. Estudos indicam que, em São Paulo, o tempo de retorno do investimento pode ser de 4 a 6 anos, enquanto na Bahia, apesar da melhor irradiação, a menor renda familiar prolonga esse período.
A Bahia também fica para trás em incentivos municipais. Salvador oferece 10% de desconto no IPTU para imóveis com energia solar, mas cidades paulistas e mineiras vão além, com isenções totais do imposto em alguns casos.
Impacto na economia local
O impacto da indústria solar na economia baiana vai muito além dos R$9,5 bilhões investidos desde 2012. Segundo estimativas da Associação Baiana de Energia Solar, para cada MW instalado são gerados entre 25 a 30 empregos, abrangendo desde a construção até a operação e manutenção dos parques solares.
Até 2030, a Bahia pode atrair R$ 89 bilhões de investimentos acumulados em energia solar e gerar 748 mil empregos diretos e indiretos, considerando estimativas da Aneel e da Absolar.
No interior do estado, os impactos são ainda mais profundos. Alan Miranda Simões, gerente de planta dos Complexos Eólicos de Morro do Chapéu, relatou ao Bahia Notícias que os empreendimentos evitaram o êxodo rural: “Os pequenos agricultores que não utilizavam as suas terras também ganharam uma renda extra com o aluguel ou venda dos seus terrenos para a empresa. Manter a família no campo foi um dos maiores benefícios”.
O caso do Complexo Solar Irecê 1, financiado pelo BNDES com R$ 418,5 milhões, ilustra bem esse impacto. O projeto criou 530 empregos e abastecerá a Refinaria de Mataripe, a segunda maior do país.
A energia solar também tem papel de inclusão social. O Programa Luz para Todos, que instalou uma usina solar com 616 painéis fotovoltaicos na vila Xique-Xique, em Remanso, transformou a vida de aproximadamente 400 moradores que não tinham acesso à energia elétrica durante todo o dia.
Tendências: O que está por vir
As projeções para o setor são extraordinariamente otimistas. A Associação Baiana de Energia Solar estima que a capacidade de energia fotovoltaica na Bahia vai passar dos atuais 2,0 GW para 27 GW até 2030, consolidando o estado como um dos principais polos de energia solar do Brasil e do mundo.
O governo estadual prepara um Plano Estadual de Fomento à Geração e Aproveitamento de Energia Solar, conforme antecipou o secretário Angelo Almeida em julho de 2024. Uma comissão especial trabalha na elaboração do documento, que deve trazer medidas concretas para destravar a geração distribuída.
A tecnologia de armazenamento por baterias, já implementada nos projetos híbridos da Statkraft, deve se expandir. O governador Jerônimo Rodrigues informou que a Bahia acompanha iniciativas federais para desenvolver tecnologia nacional de armazenamento, conforme declarações à agência eixos em novembro de 2025.
A industrialização é outra aposta estratégica. O governo quer evitar “exportar vento e sol” e busca atrair indústrias para regiões com forte geração renovável, criando ecossistemas produtivos que agreguem valor localmente.
O hidrogênio verde surge como fronteira promissora. A Bahia está na vanguarda da inovação tecnológica, explorando essa nova fronteira energética, o que pode atrair novos bilhões em investimentos, segundo análise da Associação Baiana de Energia Solar.
O despertar do gigante passa pela democratização
A Bahia tem tudo para se tornar uma potência global em energia solar. A irradiação privilegiada, os incentivos fiscais robustos e a crescente atração da cadeia produtiva formam um tripé sólido. Mas o verdadeiro salto de qualidade só virá quando a revolução solar chegar aos telhados das casas, comércios e pequenas indústrias baianas.
Os próximos 12 meses serão decisivos. A implementação do Plano Estadual de Fomento, a ampliação das linhas de crédito acessíveis e os investimentos em qualificação profissional são as chaves para transformar potencial em realidade. A meta de 27 GW até 2030 é ousada, mas alcançável – desde que o estado não repita o erro histórico de concentrar riqueza e deixar a população de fora da festa.
O que acompanhar nos próximos meses:
• Detalhamento do Plano Estadual de Fomento à Energia Solar
• Entrada em operação do Complexo Solar Irecê 1
• Novos editais e leilões de energia solar da Aneel
• Expansão das linhas de crédito do Banco do Nordeste e bancos privados
• Evolução da cadeia produtiva local (fábricas de módulos e componentes)
• Políticas municipais de incentivo à geração distribuída
Números que importam:
2,0 GW – Capacidade instalada atual de energia solar na Bahia (centralizada + distribuída)
27 GW – Meta de capacidade instalada até 2030, segundo a Associação Baiana de Energia Solar
109,3 mil sistemas – Total de micro e minigeração distribuída instalados na Bahia (8ª posição nacional)
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