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Capa Análises

Polo automotivo da Bahia: BYD reescreve o futuro de Camaçari

A chegada da gigante chinesa transforma antigas cicatrizes em promessas de revolução industrial no Nordeste

MARCELO SAMPAIO por MARCELO SAMPAIO
15/12/2025
em Análises
Tempo de Leitura: 8 minutos
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BYD

O complexo industrial da BYD em Camaçari ultrapassou a marca de 2 mil trabalhadores

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Quatro anos após o fechamento traumático da fábrica da Ford em Camaçari, que deixou um rastro de desemprego e desindustrialização na região metropolitana de Salvador, o polo automotivo baiano experimenta uma provável ressurreição. A protagonista dessa reviravolta é a BYD, gigante chinesa de veículos elétricos e híbridos, que está transformando a antiga planta da montadora americana no maior complexo industrial da empresa fora da Ásia.

Em novembro de 2025, a BYD iniciou o segundo turno de produção em Camaçari, sinalizando a aceleração de um projeto que já mobilizou investimentos de R$5,5 bilhões, um valor 83% superior aos R$3 bilhões anunciados inicialmente. A fábrica, que já emprega mais de 2 mil trabalhadores diretos, começou a montagem do primeiro modelo nacional, o Dolphin Mini, em sistema SKD (semi knocked down), utilizando peças importadas da China.

A mudança de paisagem é emblemática. Onde antes trafegavam EcoSport e Ka, agora circulam protótipos elétricos e híbridos que prometem posicionar a Bahia como protagonista na transição energética do setor automotivo brasileiro. Mais do que números, o projeto representa uma aposta audaciosa na reindustrialização de uma região que havia perdido sua vocação automotiva após o trauma de 2021.

Panorama atual: da devastação à reconstrução

Quando a Ford anunciou o encerramento das operações em janeiro de 2021, Camaçari viu evaporar cerca de 12 mil empregos diretos e indiretos. A decisão da montadora americana, que operava no complexo desde 2001 com investimento inicial de US$1,2 bilhão, deixou uma ferida profunda na economia local. Lojas fecharam, serviços públicos foram reduzidos e famílias inteiras migraram em busca de oportunidades.

20 MIL é o total de empregos diretos e indiretos previstos no auge da operação da BYD, superando os 12 mil postos perdidos com a saída da Ford

A chegada da BYD, anunciada oficialmente em outubro de 2023, trouxe renovação de esperanças. O complexo de 4,6 milhões de metros quadrados,  adquirido pelo Governo da Bahia da Ford em agosto de 2023 e posteriormente cedido à montadora chinesa,  está sendo transformado em um hub estratégico para a América Latina.

Atualmente, a fábrica opera em fase de montagem SKD, com previsão de nacionalização progressiva da produção. A expectativa é que até 2026 os veículos produzidos em Camaçari já contem com 25% de componentes nacionais, evoluindo para produção completa incluindo estamparia, soldagem e pintura.

Os números impressionam: capacidade instalada inicial de 150 mil veículos por ano, podendo atingir 300 mil na segunda fase. O projeto prevê a geração de até 20 mil empregos diretos e indiretos, superando largamente os postos perdidos com a saída da Ford.

Fatores positivos: mais que uma fábrica

A estratégia da BYD para a Bahia transcende a simples produção de veículos. A vice-presidente global da empresa, Stella Li, não esconde a ambição: transformar Camaçari no que chama de “Vale do Silício da América do Sul”.

O complexo abrigará três unidades fabris distintas. A primeira, já em operação, foca na montagem de veículos de passeio. A segunda produzirá chassis de ônibus e caminhões elétricos. A terceira, ainda em fase de planejamento, dedicar-se-á ao processamento de lítio e fosfato de ferro, matérias-primas essenciais para baterias.

Além da produção, a BYD instalará em Salvador um Centro de Pesquisa e Desenvolvimento, voltado especialmente para a criação de tecnologia híbrida flex – combinando etanol e energia elétrica -, uma inovação pensada exclusivamente para o mercado brasileiro.

150 MIL  é a apacidade inicial de produção anual de veículos, podendo chegar a 300 mil na segunda fase de expansão

A localização estratégica de Camaçari, próxima ao Porto de Salvador e com infraestrutura já consolidada, confere à fábrica potencial exportador. O Brasil mantém acordos comerciais com o México e outros países latino-americanos que podem facilitar a expansão regional da BYD, especialmente num contexto de barreiras tarifárias impostas pelos Estados Unidos e Europa aos produtos chineses.

Os incentivos fiscais também pesaram na decisão. O Governo da Bahia concedeu benefícios dos programas Proauto e Desenvolve, além de desoneração do IPVA para veículos elétricos de até R$300 mil.

Desafios e gargalos: o caminho nem sempre é liso

Apesar do otimismo, o projeto enfrenta obstáculos significativos. A polêmica envolvendo trabalho análogo à escravidão no canteiro de obras, revelada em dezembro de 2024, expôs fragilidades no controle sobre empreiteiras terceirizadas. O resgate de 163 trabalhadores chineses em condições precárias gerou embargos parciais e obrigou a BYD a rescindir contrato com a construtora Jinjiang, substituindo-a por uma empresa brasileira.

O incidente, embora não tenha comprometido o cronograma oficial de produção, levantou questionamentos sobre práticas trabalhistas e supervisão de fornecedores, obrigando a empresa a criar um comitê de compliance e reforçar fiscalização.

Outro desafio diz respeito à nacionalização da cadeia de fornecimento. Embora a BYD tenha apresentado demandas para componentes como para-choques, pneus e baterias a entidades empresariais baianas, a formação de uma rede robusta de fornecedores locais levará tempo. A Continental já sinalizou interesse, mas o ecossistema ainda está em construção.

A dependência inicial de peças importadas também torna a operação vulnerável a flutuações cambiais e gargalos logísticos. A estratégia de nacionalização progressiva é crucial não apenas para competitividade de custos, mas para atender requisitos do programa federal Mover (Mobilidade Verde e Inovação), que oferece incentivos fiscais em troca de investimentos em P&D e conteúdo local.

Bahia x outros estados: a disputa pela liderança

A escolha da Bahia pela BYD não foi casual, mas resultado de intensa disputa interestadual. Estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais e São Paulo disputaram o investimento, oferecendo pacotes variados de incentivos.

A Bahia levou vantagem pela combinação de três fatores: terreno pronto (a antiga fábrica da Ford), incentivos fiscais generosos e compromisso político do governo estadual com a atração de investimentos. A proximidade com o Porto de Salvador, porta de entrada natural para veículos importados que abastecem o mercado nordestino, também pesou.

Em comparação, São Paulo já abriga operações da BYD focadas em painéis solares e ônibus elétricos, além de sediar a principal rival chinesa no segmento automotivo, a GWM, que inaugurou fábrica em Iracemápolis com capacidade para 50 mil veículos anuais. A GWM investirá R$10 bilhões até 2032, valor superior aos R$5,5 bilhões da BYD na Bahia, mas com cronograma já consolidado.

O Amazonas possui uma unidade da BYD dedicada à produção de baterias de fosfato de ferro-lítio desde 2020, reforçando a estratégia nacional da empresa de verticalizar operações.

A diferença fundamental é que Camaçari se posiciona como hub de exportação para a América Latina, enquanto as operações paulistas e amazonenses focam primordialmente no mercado doméstico. A escala do projeto baiano, potencialmente o maior da BYD fora da China, confere à Bahia protagonismo inédito no setor automotivo nacional.

Impacto na economia local: além dos portões da fábrica

A chegada da BYD já produz efeitos multiplicadores na economia de Camaçari e região. O setor imobiliário aqueceu, com a empresa construindo cinco edifícios residenciais capazes de abrigar 4.230 funcionários, a 3,5 km do complexo industrial.

O comércio local registra recuperação gradual. Estabelecimentos que fecharam após a saída da Ford reabrem, e novos negócios surgem para atender a demanda crescente. O sindicato dos metalúrgicos de Camaçari projeta que a BYD não apenas reponha os empregos perdidos, mas supere o pico de contratações da era Ford.

A formação de mão de obra especializada ganha impulso. A BYD estabeleceu parceria com o Senai Cimatec, que já havia trabalhado com a Ford, para treinar trabalhadores em tecnologias de eletrificação e manufatura avançada. O investimento em capacitação é crucial num setor que exige competências diferentes daquelas da indústria automotiva tradicional.

A movimentação portuária também se beneficia. Em maio de 2024, o Porto de Suape, em Pernambuco, recebeu 5.459 veículos BYD em um único navio. Com a produção local, a tendência é que o Porto de Salvador ganhe relevância na logística de exportação para mercados latino-americanos.

O efeito mais significativo, contudo, pode estar na reconfiguração da vocação industrial da região. Camaçari, conhecida historicamente pelo Polo Petroquímico,  que atravessa prolongada crise, agora diversifica sua matriz produtiva incorporando tecnologia de ponta no setor automotivo eletrificado.

Tendências: o futuro é híbrido flex

O mercado brasileiro de veículos eletrificados vive momento de expansão acelerada. Em 2024, foram comercializadas 160 mil unidades entre elétricos e híbridos, crescimento de 80% em relação ao ano anterior. A BYD detém liderança absoluta: oito em cada dez carros 100% elétricos vendidos no país são da marca.

A tendência para 2025 aponta crescimento adicional de 5,6% nas vendas totais de veículos, puxado pela maior oferta de modelos eletrificados de produção nacional. A entrada em vigor de alíquotas mais altas para importados – elevação progressiva do imposto de importação de 18% para 35% entre julho de 2025 e julho de 2026 – tornará a produção local ainda mais competitiva.

80% foi a participação da BYD nas vendas de carros 100% elétricos no Brasil em 2024, consolidando liderança absoluta no segmento

A inovação que pode diferenciar a BYD é a tecnologia híbrida flex, combinando motor elétrico, combustão e etanol. O desenvolvimento dessa solução em Camaçari atende às especificidades do mercado brasileiro, onde o etanol é abundante e competitivo. O lançamento está previsto para 2026, com uma picape baseada no SUV Song Plus como carro-chefe.

O setor automotivo brasileiro registrou em 2024 o maior ciclo de investimentos de sua história: R$180 bilhões anunciados por montadoras e autopeças. A BYD é parte central dessa onda, junto com Stellantis (R$32 bilhões até 2030), Toyota (R$11 bilhões até 2030) e Volkswagen (R$16 bilhões até 2028).

O programa federal Mover, com previsão de R$19,3 bilhões em incentivos até 2028, cria ambiente favorável para investimentos em descarbonização e eficiência energética. A BYD, ao produzir localmente e investir em P&D, posiciona-se para capturar parte significativa desses benefícios.

Conclusão: recomeço com riscos calculados

O polo automotivo de Camaçari está sendo reescrito por mãos chinesas, mas com sotaque baiano. A BYD não apenas preenche o vazio deixado pela Ford. Ela propõe um modelo diferente, voltado para o futuro da mobilidade e alinhado com tendências globais de eletrificação.

Os desafios são reais: construir cadeia de fornecedores, garantir compliance trabalhista, nacionalizar produção, competir em mercado cada vez mais acirrado. Mas as perspectivas animam. Se o plano sair conforme projetado, Camaçari pode efetivamente se tornar referência latino-americana em produção de veículos eletrificados.

Para a Bahia, está em jogo mais que empregos e arrecadação. Trata-se de reposicionar o estado no mapa industrial brasileiro, diversificando para além do petroquímico e agregando valor em setor de alta tecnologia.

O que acompanhar

Nos próximos 12 meses, alguns marcos definirão o sucesso do projeto:

  • Licenciamento ambiental: A concessão da licença de operação pelo Inema, prevista para dezembro de 2025, permitirá ampliar a produção além da montagem SKD.
  • Nacionalização: O cumprimento da meta de 25% de conteúdo local até 2026 testará a capacidade de formar cadeia de fornecedores e ativará benefícios do programa Mover.
  • Expansão de empregos: O cronograma prevê contratação de mais trabalhadores entre janeiro e agosto de 2026, especialmente nas áreas de estamparia e soldagem quando iniciarem.
  • Lançamento de novos modelos: A chegada da picape híbrida flex em 2026 e de outros modelos definirá a competitividade da produção local.
  • Exportações: O volume de veículos destinados a mercados latino-americanos indicará se Camaçari consolida-se como hub regional.
  • Desempenho de vendas: A manutenção da liderança da BYD no segmento eletrificado, mesmo com aumento de tarifas para importados e chegada de novos concorrentes, será termômetro crucial.

O polo automotivo de Camaçari renasceu com a chegada da BYD. Agora vamos torcer para que o bebê cresca saudável.


Leia também: Inflação baixa e mercado aquecido: a fórmula que mantém a construção avançando

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