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Capa Análise

A desindustrialização química pode ser freada, mas o tempo é curto

Com ociosidade acima de 35% e avanço das importações, setor químico reage com apoio de R$3 bi, mas o desafio estrutural vai além do incentivo fiscal

MARCELO SAMPAIO por MARCELO SAMPAIO
01/03/2026
em Análise
Tempo de Leitura: 4 minutos
A A
indústria química

A queda de julho foi concentrada na indústria de transformação, cuja produção recuou 4,7% frente a julho de 2025

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Os números recentes da Braskem não são um caso isolado. Eles se encaixam em um diagnóstico mais amplo apresentado pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim): a indústria química brasileira opera hoje com ociosidade superior a 35%, enfrenta crescimento acelerado das importações e convive com fechamento de unidades produtivas.

Quando a principal petroquímica da América Latina roda a 68% de utilização no Brasil e o setor como um todo trabalha com mais de um terço de capacidade parada, estamos diante de um fenômeno estrutural – não de uma simples oscilação de mercado.

A boa notícia é que o governo sinalizou reação.

O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, anunciou que o Regime Especial da Indústria Química (Reiq) contará com R$ 3 bilhões no orçamento de 2026, valor que se soma ao R$ 1 bilhão já previsto e antecipa efeitos do Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química (Presiq), cujos incentivos estruturais começam a valer apenas em 2027.

A pergunta central, porém, permanece: isso será suficiente para interromper um processo que já está em curso?

O risco real: perda permanente de capacidade

O setor químico brasileiro é o sexto maior do mundo, movimenta US$167,8 bilhões por ano e sustenta cerca de 2 milhões de empregos diretos e indiretos. Mas esses números escondem uma fragilidade crescente.

A combinação de:

  • Importações em expansão,
  • Pressão estrutural de custos (energia, gás natural, matérias-primas),
  • Spreads globais comprimidos,
  • E fechamento de fábricas em polos históricos como Cubatão,

desenha um cenário típico de desindustrialização progressiva.

Quando uma planta fecha, não se perde apenas produção. Perdem-se fornecedores, engenheiros, operadores especializados, arrecadação municipal e densidade tecnológica. Reconstruir essa base custa mais do que preservá-la.

A falsa sensação de normalidade

Há um erro recorrente na leitura desses números: tratá-los como parte do “ciclo natural” da petroquímica. O setor é, sim, cíclico. Mas ciclos pressupõem recuperação. O que se observa agora é algo diferente: uma compressão persistente de margens e uma substituição gradual da produção local por importados.

O Brasil é grande consumidor de resinas e químicos. O mercado existe. O que está em risco não é a demanda,  é quem a atende.

Reiq e Presiq: ponte ou paliativo?

O anúncio de R$3 bilhões para 2026 é relevante. Ele evita um “vácuo” entre o cenário crítico atual e a entrada em vigor plena do Presiq em 2027. Funciona como instrumento de transição.

Mas é preciso franqueza: incentivo fiscal não substitui competitividade estrutural.

Se o custo de energia continua elevado, se o gás natural segue caro, se a logística permanece ineficiente e se o país convive com práticas desleais de comércio internacional, o incentivo tende a atuar como amortecedor temporário,  não como solução definitiva.

A própria sinalização de que há 17 processos antidumping em curso revela a dimensão da pressão externa.

O que precisa mudar

Não há solução única, mas há caminhos claros:

  • Isonomia competitiva frente aos importados, com monitoramento rigoroso de práticas desleais.
  • Redução do custo estrutural de energia e gás natural, principal insumo da cadeia
  • Ambiente regulatório previsível, especialmente na transição energética
  • Fortalecimento da demanda industrial doméstica, via política industrial consistente
  • Incentivo à agregação de valor e inovação, incluindo química verde e especialidades.

O que está em jogo

A indústria química e petroquímica é base da base industrial. Está na origem das cadeias de plástico, embalagens, construção civil, automotivo, saúde, agronegócio, bens de consumo. Quando esse setor encolhe, o efeito não é isolado. Ele se espalha por toda a economia.

O risco não é apenas econômico. É estratégico.

Num mundo marcado por disputas comerciais, reorganização de cadeias globais e transição energética, abrir mão da capacidade química nacional significa reduzir autonomia produtiva.

O ponto de inflexão é agora

Os números da Braskem mostram ajuste operacional. Os dados da Abiquim revelam um setor pressionado no limite. O governo responde com recursos emergenciais e instrumentos de defesa comercial.

A questão é de timing.

Desindustrialização não acontece de uma vez. Ela se consolida quando a ociosidade vira rotina, quando investimentos são adiados sucessivamente e quando empresas passam a considerar irreversível a perda de escala.

O aporte de R$3 bilhões em 2026 pode representar uma ponte para a reorganização do setor. Mas, sem agenda estruturante de custo, energia, gás e defesa comercial efetiva, corre o risco de ser apenas um adiamento do problema.

O Brasil ainda tem escala de mercado, parque produtivo instalado e base tecnológica relevante. O que está sendo testado agora não é apenas a resiliência das empresas,  é a capacidade do país de decidir se quer manter uma indústria química forte ou aceitar, silenciosamente, sua erosão.

O sinal de alerta já foi dado. A resposta precisa ser mais profunda que emergencial.

A pergunta não é se a indústria química brasileira está sob pressão. Isso já é fato.

A pergunta é: o Brasil vai reagir antes que a perda de capacidade produtiva se torne irreversível?


Leia também: Rota dos Sertões: concessão bilionária testa a memória recente da BA

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Tags: AbiquimAssociação Brasileira da Indústria QuímicaBraskemfármacosfertilizantesgás naturalindústria químicaplásticosReiqtintas
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