Os números recentes da Braskem não são um caso isolado. Eles se encaixam em um diagnóstico mais amplo apresentado pela Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim): a indústria química brasileira opera hoje com ociosidade superior a 35%, enfrenta crescimento acelerado das importações e convive com fechamento de unidades produtivas.
Quando a principal petroquímica da América Latina roda a 68% de utilização no Brasil e o setor como um todo trabalha com mais de um terço de capacidade parada, estamos diante de um fenômeno estrutural – não de uma simples oscilação de mercado.
A boa notícia é que o governo sinalizou reação.
O vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin, anunciou que o Regime Especial da Indústria Química (Reiq) contará com R$ 3 bilhões no orçamento de 2026, valor que se soma ao R$ 1 bilhão já previsto e antecipa efeitos do Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química (Presiq), cujos incentivos estruturais começam a valer apenas em 2027.
A pergunta central, porém, permanece: isso será suficiente para interromper um processo que já está em curso?
O risco real: perda permanente de capacidade
O setor químico brasileiro é o sexto maior do mundo, movimenta US$167,8 bilhões por ano e sustenta cerca de 2 milhões de empregos diretos e indiretos. Mas esses números escondem uma fragilidade crescente.
A combinação de:
- Importações em expansão,
- Pressão estrutural de custos (energia, gás natural, matérias-primas),
- Spreads globais comprimidos,
- E fechamento de fábricas em polos históricos como Cubatão,
desenha um cenário típico de desindustrialização progressiva.
Quando uma planta fecha, não se perde apenas produção. Perdem-se fornecedores, engenheiros, operadores especializados, arrecadação municipal e densidade tecnológica. Reconstruir essa base custa mais do que preservá-la.
A falsa sensação de normalidade
Há um erro recorrente na leitura desses números: tratá-los como parte do “ciclo natural” da petroquímica. O setor é, sim, cíclico. Mas ciclos pressupõem recuperação. O que se observa agora é algo diferente: uma compressão persistente de margens e uma substituição gradual da produção local por importados.
O Brasil é grande consumidor de resinas e químicos. O mercado existe. O que está em risco não é a demanda, é quem a atende.
Reiq e Presiq: ponte ou paliativo?
O anúncio de R$3 bilhões para 2026 é relevante. Ele evita um “vácuo” entre o cenário crítico atual e a entrada em vigor plena do Presiq em 2027. Funciona como instrumento de transição.
Mas é preciso franqueza: incentivo fiscal não substitui competitividade estrutural.
Se o custo de energia continua elevado, se o gás natural segue caro, se a logística permanece ineficiente e se o país convive com práticas desleais de comércio internacional, o incentivo tende a atuar como amortecedor temporário, não como solução definitiva.
A própria sinalização de que há 17 processos antidumping em curso revela a dimensão da pressão externa.
O que precisa mudar
Não há solução única, mas há caminhos claros:
- Isonomia competitiva frente aos importados, com monitoramento rigoroso de práticas desleais.
- Redução do custo estrutural de energia e gás natural, principal insumo da cadeia
- Ambiente regulatório previsível, especialmente na transição energética
- Fortalecimento da demanda industrial doméstica, via política industrial consistente
- Incentivo à agregação de valor e inovação, incluindo química verde e especialidades.
O que está em jogo
A indústria química e petroquímica é base da base industrial. Está na origem das cadeias de plástico, embalagens, construção civil, automotivo, saúde, agronegócio, bens de consumo. Quando esse setor encolhe, o efeito não é isolado. Ele se espalha por toda a economia.
O risco não é apenas econômico. É estratégico.
Num mundo marcado por disputas comerciais, reorganização de cadeias globais e transição energética, abrir mão da capacidade química nacional significa reduzir autonomia produtiva.
O ponto de inflexão é agora
Os números da Braskem mostram ajuste operacional. Os dados da Abiquim revelam um setor pressionado no limite. O governo responde com recursos emergenciais e instrumentos de defesa comercial.
A questão é de timing.
Desindustrialização não acontece de uma vez. Ela se consolida quando a ociosidade vira rotina, quando investimentos são adiados sucessivamente e quando empresas passam a considerar irreversível a perda de escala.
O aporte de R$3 bilhões em 2026 pode representar uma ponte para a reorganização do setor. Mas, sem agenda estruturante de custo, energia, gás e defesa comercial efetiva, corre o risco de ser apenas um adiamento do problema.
O Brasil ainda tem escala de mercado, parque produtivo instalado e base tecnológica relevante. O que está sendo testado agora não é apenas a resiliência das empresas, é a capacidade do país de decidir se quer manter uma indústria química forte ou aceitar, silenciosamente, sua erosão.
O sinal de alerta já foi dado. A resposta precisa ser mais profunda que emergencial.
A pergunta não é se a indústria química brasileira está sob pressão. Isso já é fato.
A pergunta é: o Brasil vai reagir antes que a perda de capacidade produtiva se torne irreversível?
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