
Por volta de 1850, José Joaquim de Azevedo herdou uma fazenda chamada Capoeira da Cana, no sul da Chapada Diamantina, e fez o que qualquer herdeiro sensato faria numa região tomada por garimpeiros: abriu uma venda. Ali, entre Piatã e Mucugê, ele servia a cachaça produzida na própria fazenda para os mineradores que cruzavam a estrada aberta décadas antes para ligar Rio de Contas a Jacobina. O ponto de parada virou povoado. O povoado, batizado Tabocas, virou cidade. E a cidade, hoje, se chama Abaíra e ainda vive, em boa parte, do mesmo produto que fez nascer aquela venda.
Enquanto muitos municípios disputam turistas apostando apenas na beleza natural, Abaíra encontrou um caminho próprio. Fez da cachaça artesanal um produto de identidade, organizou pequenos produtores em torno de uma cooperativa e transformou uma tradição familiar em um dos principais motores da economia local.
É uma estratégia rara no turismo brasileiro: em vez de vender apenas a paisagem, a cidade vende sua história.
Localizada no centro-sul da Chapada Diamantina, Abaíra nasceu em um território marcado pelo ciclo do ouro. Conforme relata o Bahia Terra Turismo e Eventos, a região ganhou importância a partir da abertura da antiga Estrada Real, no século XVIII, ligando Rio de Contas às áreas de mineração de Jacobina. O movimento de tropeiros, comerciantes e garimpeiros favoreceu o surgimento de pequenos povoados, entre eles Tabocas, núcleo que daria origem ao município.

História
Foi justamente nesse cenário que começou outra história.
Segundo o Bahia Terra Turismo e Eventos, no século XIX o comerciante José Joaquim de Azevedo instalou uma venda para atender viajantes e garimpeiros que cruzavam a região. A bebida servida aos clientes ganhou fama rapidamente e acabou se tornando um dos principais produtos locais. Décadas depois, aquela produção artesanal evoluiria para a marca que hoje identifica o município dentro e fora da Bahia.
A relação entre Abaíra e a cachaça deixou de ser apenas cultural para se tornar econômica.
A produção continua baseada em pequenas propriedades rurais, onde a cana é cultivada sem queimadas e a destilação ocorre em alambiques de cobre, preservando técnicas transmitidas entre gerações. Em 1998, a criação da Cooperativa dos Produtores de Cana e Seus Derivados da Microrregião de Abaíra (Coopama) representou um divisor de águas. A organização passou a padronizar a produção, ampliar a capacidade de comercialização e fortalecer a imagem da Cachaça Abaíra no mercado nacional.
Mais recentemente, o reconhecimento da Indicação Geográfica consolidou esse processo, garantindo proteção à origem do produto e agregando valor a uma cadeia produtiva formada, em grande parte, por agricultores familiares.
É exatamente aí que Abaíra oferece uma lição que vai além do turismo.
“Em vez de depender exclusivamente do fluxo de visitantes, o município construiu uma economia em que turismo, agricultura, agroindústria artesanal e cultura caminham juntos. Quem visita a cidade não encontra apenas cachoeiras ou trilhas. Conhece uma cadeia produtiva que movimenta produtores rurais, cooperativas, pequenos comerciantes, pousadas, restaurantes, artesãos e guias locais”, diz o empresário Joaquim Savarino Dias., que costuma visitar o município pelo menos duas vezes ao ano.
O Festival da Cachaça, realizado desde a década de 1980, traduz bem essa lógica. O evento movimenta hotéis, bares, restaurantes e o comércio, além de projetar nacionalmente a principal marca do município. Mais do que uma festa, tornou-se uma vitrine econômica.

O Lado B de Abaíra
Mas Abaíra também revela que potencial turístico não basta.
O acesso continua sendo um dos principais desafios. Distante cerca de 530 quilômetros de Salvador e sem ligação direta por transporte rodoviário regular a partir da capital, o município permanece fora dos roteiros convencionais da Chapada Diamantina. Muitos visitantes chegam a Lençóis, Mucugê ou Vale do Capão sem sequer considerar Abaíra no itinerário.
A rede de hospedagem também não acompanhou a fama do produto. As opções listadas na cidade – Pousada Souza, Hotel Miranda, Pousada Tropical – são descritas como simples. Em Catolés, ponto de partida para o Barbado, há praticamente uma referência de peso, a Pousada Serra do Barbado. É estrutura suficiente para quem já decidiu ir. Insuficiente para captar demanda de quem ainda está escolhendo entre Abaíra e destinos vizinhos com mais leitos e mais alternativas de conforto.
Há ainda a fragilidade natural das próprias atrações. Cachoeiras como a Subterrânea exigem passagem por fendas estreitas entre rochas; a orientação do próprio material de turismo é taxativa: contratar guia local é recomendável para praticamente todo roteiro. Ecoturismo desse tipo cresce apoiado em poucas pessoas qualificadas e não escala rápido sem investimento em formação e sem risco de degradar o que atrai o visitante.
Outro desafio é evitar que a fama da cachaça ofusque outras riquezas do município.
Pouca gente sabe que Abaíra abriga o distrito de Catolés, porta de entrada para algumas das paisagens mais impressionantes da Chapada Diamantina. É dali que partem trilhas para o Pico do Barbado, o ponto mais alto do Nordeste, além de cachoeiras praticamente intocadas, como Guarda-Mor, Samambaia, Michilania e a curiosa Cachoeira Subterrânea. São atrativos capazes de ampliar o tempo de permanência dos visitantes e reduzir a dependência do turismo de eventos.
Talvez esse seja o próximo passo da cidade: transformar a cachaça em porta de entrada para uma experiência mais completa.
O que fica desta história
Abaíra demonstra que destinos turísticos não nascem apenas da natureza. Eles podem ser construídos a partir de uma vocação econômica bem definida.
Enquanto muitos municípios tentam criar uma identidade para atrair visitantes, Abaíra fez o caminho inverso. Primeiro consolidou um produto reconhecido pela qualidade. Depois organizou seus produtores, fortaleceu sua cultura e transformou tudo isso em turismo.
No fim das contas, quem visita Abaíra leva na bagagem muito mais do que uma garrafa de cachaça. Leva um exemplo de como tradição, cooperação e identidade territorial podem gerar desenvolvimento sem que uma pequena cidade precise abrir mão daquilo que a tornou única.
Análise
Abaíra ensina que destinos turísticos competitivos não dependem apenas de grandes investimentos. Quando um município consegue transformar um produto local em marca territorial, como aconteceu com a cachaça, cria um diferencial difícil de copiar. O próximo desafio é ampliar a permanência dos visitantes, conectando essa vocação produtiva ao ecoturismo, à gastronomia e ao patrimônio histórico. É nessa etapa que muitos destinos deixam de crescer. Abaíra ainda tem a oportunidade de fazer diferente.
O Lado B dos Destinos é uma coluna quinzenal do Indústria News que revela a economia, a indústria e as decisões que fazem um destino funcionar – ou entrar em tensão. Aqui, viagem não é fuga do noticiário. É outra forma de entender como cidades e regiões geram valor, emprego e identidade. A paisagem atrai. O modelo sustenta. O que você vai encontrar aqui? Análise leve, sem jargão; textos de fim de semana, com narrativa e contexto econômico; infraestrutura, investimentos, empregos, conflitos e oportunidades. Casos reais: o que deu certo, o que cobra seu preço e o que pode ser replicado.
Leia também: A fábrica que pode mudar o jogo dos fertilizantes no Brasil está sendo retomada















