
O balanço da Neoenergia Coelba referente ao segundo trimestre de 2026, divulgado nesta terça-feira (21/7), traz uma fotografia que, isoladamente, poderia ser interpretada como positiva. A receita cresceu, a empresa ganhou novos clientes, ampliou investimentos e manteve indicadores operacionais importantes dentro dos parâmetros regulatórios. O lucro, é verdade, caiu – 53% no trimestre e 38% no semestre -, mas continua robusto: R$747 milhões apenas nos primeiros seis meses do ano.
O problema é que, para boa parte dos baianos, o desempenho da distribuidora não é medido pelo lucro nem pela receita. É medido pela frequência das interrupções no fornecimento, pela demora nas novas ligações, pelas oscilações de tensão que queimam equipamentos e pela dificuldade de atender uma economia que cresce mais rápido do que a infraestrutura elétrica consegue acompanhar.
Esse contraste ajuda a explicar por que a Neoenergia Coelba continua no centro do debate público, mesmo apresentando um faturamento crescente. A receita líquida alcançou R$9,03 bilhões no primeiro semestre, alta de 11%, impulsionada pelo aumento do consumo e pela expansão da base de clientes, que já se aproxima de sete milhões de unidades consumidoras em 415 municípios baianos.
Os números mostram também uma Bahia em expansão. O consumo industrial avançou 3,8% no segundo trimestre, puxado pelos segmentos químico e de embalagens. O consumo residencial cresceu 2,1%, reflexo da ampliação da base de consumidores. A energia injetada no sistema aumentou quase 5% no período.
Em outras palavras, a demanda existe. A economia está consumindo mais energia. O desafio é garantir que essa energia chegue com qualidade, estabilidade e velocidade suficientes para sustentar o crescimento econômico.
E a confiança no sistema?
O principal ativo de uma distribuidora de energia não é o lucro. É a confiança.
E é justamente aí que a Neoenergia Coelba ainda enfrenta seu maior passivo.
Nos últimos anos, a empresa acumulou críticas de consumidores, empresários, produtores rurais, prefeitos, parlamentares e do próprio Governo da Bahia. As reclamações vão muito além das interrupções ocasionais. Há casos emblemáticos de escolas públicas concluídas que permaneceram fechadas por falta de ligação elétrica. Empreendimentos industriais aguardaram meses por aumento de carga. Projetos agrícolas tiveram expansão retardada pela insuficiência da infraestrutura disponível.
A renovação da concessão elimina incertezas e aumenta a responsabilidade da distribuidora diante dos desafios energéticos da Bahia
No Oeste baiano, uma das regiões que mais crescem no agronegócio brasileiro, empresários frequentemente apontam a limitação da rede elétrica como um dos principais gargalos para novos investimentos. Energia deixou de ser apenas um serviço essencial. Tornou-se um fator de competitividade.
Nenhum investidor decide instalar uma indústria, um centro logístico ou ampliar uma planta produtiva sem segurança de que haverá fornecimento confiável.
A Bahia disputa investimentos diariamente com Pernambuco, Ceará, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. Quando a infraestrutura elétrica não acompanha esse movimento, quem perde não é apenas a distribuidora. Perde o Estado.
Investimentos
É verdade que a empresa tem ampliado investimentos. Apenas no primeiro semestre foram aplicados R$1,9 bilhão, sendo R$1,4 bilhão destinados à expansão da rede. Também merece registro o combate às perdas, com mais de 20 mil inspeções, substituição de 88 mil medidores e regularização de milhares de ligações clandestinas.
São iniciativas relevantes.
Mas existe uma diferença importante entre investir e fazer o consumidor perceber que houve investimento.
Distribuidora amplia investimentos e mantém expansão da rede, mas segue pressionada por falhas que afetam consumidores e empresas
A percepção da sociedade continua sendo construída muito mais pelas experiências do dia a dia do que pelos indicadores apresentados em apresentações corporativas.
É justamente nesse ponto que o plano de investimentos de R$24,7 bilhões entre 2026 e 2030 ganha enorme importância.
Os recursos previstos – destinados à construção e ampliação de 126 subestações, implantação de quase 45 mil quilômetros de novas linhas e aumento de 37% da capacidade do sistema – representam talvez o maior compromisso já anunciado pela empresa desde a privatização.
Se executado integralmente, o programa poderá reduzir um dos principais gargalos ao desenvolvimento econômico baiano.
Sem desculpa
Mas há um detalhe fundamental.
Agora não existe mais a desculpa da falta de planejamento de longo prazo.
A renovação antecipada da concessão, assinada em maio deste ano e válida até 2057, oferece previsibilidade regulatória suficiente para que a companhia faça investimentos estruturantes. A segurança jurídica que a empresa buscava veio. Em troca, a sociedade naturalmente passará a cobrar resultados compatíveis com esse novo horizonte.
Também chama atenção a mudança recente na liderança da concessionária. A chegada de Fabiana Lopes à presidência ocorre justamente em um momento de inflexão. Mais do que administrar indicadores financeiros, sua missão será recuperar um ativo intangível que não aparece no balanço: a credibilidade da distribuidora perante consumidores, empresas e poder público.
O que fica dessa história
A Neoenergia Coelba já garantiu tempo, recursos e segurança regulatória para transformar a distribuição de energia na Bahia. A partir de agora, o principal indicador não será o lucro da empresa, mas a qualidade do serviço entregue aos baianos.
No fim das contas, o balanço mostra uma companhia financeiramente sólida, com receita crescente, quase sete milhões de clientes e um plano bilionário de expansão.
Mas mostra também uma empresa diante do maior teste desde a privatização.
Porque energia elétrica não é apenas mais um serviço público. É a infraestrutura que sustenta fábricas, hospitais, escolas, hotéis, fazendas, centros de dados e toda a economia digital que a Bahia pretende atrair nos próximos anos.
O sucesso da Neoenergia Coelba, daqui para frente, não será medido apenas pelos resultados apresentados aos acionistas. Será medido pela capacidade de impedir que uma indústria deixe de investir, que uma escola permaneça fechada ou que um produtor rural adie sua expansão por falta de energia.
A pergunta que fica é simples: o plano de R$ 24,7 bilhões conseguirá finalmente aproximar a qualidade do serviço das necessidades de uma Bahia que cresce, ou continuaremos convivendo com um dos principais gargalos à competitividade do Estado?
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