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Capa Radar da Indústria

Calçados da Bahia: mais pares, menos dinheiro

Setor calçadista cresce em pares exportados, mas vê receita encolher

GERALDO BASTOS por GERALDO BASTOS
15/01/2026
em Radar da Indústria
Tempo de Leitura: 4 minutos
A A
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Radar da Indústria
A indústria de calçados da Bahia exportou 4.035.888 pares em 2025, alta de 8,8% sobre o ano anterior. À primeira vista, boa notícia. Mas o caixa contou outra história.

A receita caiu 11,6% e fechou pouco acima de US$72,2 milhões. Ou seja: vendeu mais, faturou menos. Um sinal clássico de pressão competitiva,  e de alerta ligado.

O principal fator está fora do estado e do país. Com o tarifaço americano e a concorrência dos países asiáticos,  as empresas baianas foram obrigadas a recalcular rota. Na busca por novos mercados, o preço virou arma. E o desconto, estratégia de sobrevivência.

O resultado aparece no ticket médio: o valor do par exportado caiu de US$22,04, em 2024, para US$17,91 em 2025, numa redução de quase 20%, segundo a Abicalçados. Volume garantido, margem comprimida.

calçados

E o futuro?

calçados
A indústria calçadista emprega mais de 45 mil pessoas na Bahia (Foto: Abicalçados)

Dezembro trouxe um sinal de inflexão. As exportações cresceram 35,8% em volume e 18,6% em faturamento, na comparação anual. Ainda assim, o preço médio recuou para US$16,85. O mercado respondeu, mas a rentabilidade segue no centro do debate.

O setor calçadista é intensivo em mão de obra, espalhado por vários municípios do interior e responsável por cerca de 45 mil empregos na Bahia. Não é detalhe: é política econômica regional na prática.

O desafio está posto. Exportar mais é importante. Exportar melhor é urgente.

Valor agregado, design, marca, diversificação de mercados e acordos comerciais não são mais agenda de médio prazo –  são condição de competitividade.

Nos bastidores, o diagnóstico é conhecido: falta uma política industrial e de comércio exterior conectada com a realidade de quem produz. Instrumentos existem. BNDES, Apex, linhas de crédito, programas federais e estaduais.

Mas o efeito prático ainda é limitado, pulverizado e pouco conectado à realidade de quem produz no interior do estado, gera emprego e sente o custo Brasil no dia a dia.

Boom sobre duas rodas

Quem acelerou forte em 2025 foi o mercado automotivo. A Bahia se destacou.  Foram 266,3 mil veículos emplacados no estado, alta de 18,65%, mais que o dobro do crescimento nacional (8,2%). Números de euforia.

Mas o detalhe que realmente importa está nas duas rodas.

As motocicletas somaram 154,2 mil unidades, avanço de 26,27%, respondendo por quase 58% de todas as vendas de veículos no estado.

Nos bastidores, ninguém trata isso como simples preferência do consumidor. A moto virou meio de trabalho, renda e sobrevivência, empurrada por crédito acessível, informalidade crescente e mobilidade urbana que deixa a desejar.

O efeito colateral já é conhecido. E incômodo. Explosão de acidentes, pressão sobre hospitais, custo social em alta. Vende-se muito hoje, transfere-se a conta para a saúde pública amanhã.

Automóveis e picapes cresceram 11,08%; ônibus dispararam 50,46%, enquanto caminhões e máquinas agrícolas ficaram para trás, outro sinal de que o crescimento tem mais cara de consumo imediato do que de investimento produtivo.

Para 2026, a grande incógnita não é a demanda. É o crédito.

Com juros ainda elevados, famílias mais endividadas e bancos recalibrando risco, o motor que sustentou o boom de 2025 pode perder fôlego. A indústria automotiva já faz contas mais conservadoras e revê projeções.

Menos parcela longa, mais seletividade. O volume pode até resistir, mas o ritmo não será o mesmo.

100.000

A Bahiagás alcançou a marca de 100 mil clientes e fechou 2025 com um número simbólico e relevante. O avanço do gás natural no estado é inegável e ganhou capilaridade, sobretudo no segmento residencial e no interior. O próximo passo, porém, é menos comemorativo e mais desafiador: converter escala em custo competitivo e serviço eficiente. Porque, para a indústria, energia não pode ser só alternativa, tem que ser vantagem.

R$ 90 milhões para manter a fila

O Sistema Ferryboat vai ganhar mais uma embarcação. O investimento: R$90,9 milhões.

Até aí, tudo certo,  não fosse um detalhe nada irrelevante.

Quem banca a conta é o governo da Bahia.

Quem explora o sistema é a Internacional Travessias.

Funciona assim: o setor público investe, o privado opera, arrecada e lucra. O bônus fica de um lado. O ônus, do outro. Dinheiro público, do contribuinte,  meu, seu.

E o passageiro? Segue pagando com tempo perdido, filas intermináveis e serviço precário, ruim. Um roteiro conhecido de quem depende da travessia Salvador–Itaparica.

E a Agerba? Nada faz.

Se o Estado financia o sistema, a pergunta é inevitável: qual é a contrapartida exigida da concessionária? Porque até aqui, o que se entrega ao usuário está longe de justificar novos aportes públicos.

Investir em mobilidade é necessário. Bancar ineficiência, não.

Sem metas claras, padrões de atendimento e cobrança real, o risco é simples: melhorar o ativo, manter o problema  e institucionalizar a fila.

No ferry, como sempre, quem paga atravessa esperando.


Radar da Indústria é uma coluna semanal sobre os movimentos que moldam a indústria e a economia da Bahia. Aqui, investimentos, negócios, energia, infraestrutura e política econômica são analisados sem maquiagem. O foco está no que muda o jogo – e no que trava o desenvolvimento. Com informação, bastidor e leitura crítica, o Radar aponta riscos, oportunidades e contradições. Porque entender a indústria é entender o futuro do estado.


Leia também: Chadler: a fábrica de chocolate que ‘perfumou’ a Cidade Baixa

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Tags: AbicalçadosAgerbaBahiacalçadosferryboatveículos
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