
Ótima notícia. A partir de 2026, quem estiver parado num buraco da BR-324, esperando o guincho, ou pior, o socorro, vai poder pedir ajuda com muito mais facilidade. Afinal, vai ter sinal de celular.
O leilão de frequências da faixa de 700 MHz, realizado segunda-feira (4/5) pela Anatel e pelo Ministério das Comunicações, vai gerar R$2 bilhões em investimentos para conectar rodovias e áreas remotas do país.
No Nordeste, incluindo a Bahia, a responsável será a Brisanet, que arrematou dois lotes regionais e assumiu compromissos ousados: 4G ou superior em mais de 2.600 km de rodovias federais e cobertura de 280 localidades até 2030.
A BR-101 será a primeira a receber o serviço, com 100% de cobertura prometida ainda em 2026. As BRs 116, 242 e 324 também estão no roteiro.
A BR-324, em especial, merece atenção redobrada. Conhecida por buracos, sinalização precária e acidentes que se repetem com dolorosa regularidade, a rodovia já testou a paciência – e a sorte – de gerações de motoristas baianos. Agora, ao menos, quem cair num buraco vai poder registrar um vídeo com boa conexão e mandar para as autoridades.
Se as autoridades vão assistir, isso é outra história.
A iniciativa é bem-vinda. A medida melhora a comunicação, reduz áreas de sombra e pode dar mais previsibilidade a operações de transporte. Em tese, favorece rastreamento, gestão de frota e resposta a emergências
Conectividade salva vidas, especialmente em estradas que insistem em colocar essas vidas em risco, como as da Bahia. Mas, cá entre nós, seria ainda mais animador se, junto com o sinal de 4G, viesse um pouco de asfalto.
Quem puxa — e quem trava — o mercado de veículos
O mercado de veículos na Bahia acelerou em abril, mas não foi para todos. Segundo a Fenabrave, foram 25.516 unidades emplacadas no estado, alta de 17,6% na comparação anual. No papel, um desempenho robusto. Na prática, um retrato desigual.
O motor desse crescimento continua sendo o consumo pulverizado. As motos lideram com folga (15.677 unidades, +19,1%), seguidas pelos automóveis de passeio, que avançaram 23,3%. Ou seja: o varejo segue vivo, puxado pelo crédito e pela necessidade de mobilidade.
Do outro lado da pista, o sinal é amarelo ou até vermelho. Caminhões (-1,08%), ônibus (-39,2%) e máquinas agrícolas (-17,6%) recuaram. Não é detalhe. São segmentos diretamente ligados à atividade produtiva, ao investimento e à logística.
O contraste escancara uma economia em duas marchas: consumo reagindo, mas produção patinando. A indústria e o agro, que puxam carga, renda e escala, ainda sentem o peso dos juros altos e da incerteza.
No acumulado do ano, o crescimento de 13,1% reforça que há demanda. Mas a pergunta que fica é outra: até quando o consumo sozinho sustenta esse ritmo sem o investimento acompanhando?
Porque, no fim das contas, vender mais motos não resolve o problema de quem precisa escoar produção.
Rede elétrica mata fauna em destino turístico
A rede elétrica em Praia do Forte virou uma armadilha e não é de hoje. Após sucessivos registros de animais mortos por eletrocussão, a Justiça determinou que a Neoenergia Coelba apresente, em até 30 dias, um plano para conter um problema que já deveria estar resolvido.
O Ministério Público da Bahia aponta um cenário de dano ambiental contínuo. Não é falha pontual, é falha de gestão. Desde 2024, há registros, alertas, recomendações e reuniões. Ainda assim, os episódios se repetem, inclusive em estruturas que já passaram por “adequações” que, na prática, não funcionaram.
A conta começou a chegar. Além do plano, a concessionária terá que desembolsar mais de R$ 61 mil por mês para mitigar os impactos que ela própria não evitou. É o preço da omissão técnica transformada em passivo ambiental.
O caso escancara um problema maior: a desconexão entre operação e território. Em uma área que vive da preservação ambiental, a rede elétrica segue operando como se estivesse em qualquer outro lugar, ignorando risco, contexto e consequência.
No fim, sobra uma pergunta incômoda: o que falhou: o projeto, a execução ou a prioridade? Porque quando o erro se repete, deixa de ser acidente e passa a ser escolha.
Radar da Indústria é uma coluna semanal sobre os movimentos que moldam a indústria e a economia da Bahia. Aqui, investimentos, negócios, energia, infraestrutura e política econômica são analisados sem maquiagem. O foco está no que muda o jogo – e no que trava o desenvolvimento. Com informação, bastidor e leitura crítica, o Radar aponta riscos, oportunidades e contradições. Porque entender a indústria é entender o futuro do estado.
Leia também: Copene: entre vapor, empregos e um modelo que ficou no passado

















