
OBrasil acelera no biogás. A Bahia…ainda engatinha. O novo “Panorama do Biogás 2025, do CIBiogás, escancara um setor que deixou de ser promessa e virou negócio. O país já soma 1.727 plantas em operação, com crescimento consistente e mais 76 unidades no pipeline até 2029, o que pode elevar a produção em quase 30%.
É escala. É eficiência. É mercado. Mas quando o recorte chega à Bahia, o contraste chama atenção – e não é positivo.
Enquanto estados como São Paulo, Paraná e Minas Gerais avançam com ritmo industrial, a Bahia aparece com apenas 9 plantas de biogás. Fica atrás, inclusive, de Pernambuco e Ceará.
Em volume, são modestos 230 mil Nm³/dia, praticamente irrelevante diante do potencial do estado.
O paradoxo baiano
E aqui está o ponto mais incômodo: não é falta de recurso. A Bahia tem tudo. Resíduo agropecuário, indústria forte, saneamento deficitário (que, neste caso, também vira oportunidade) e um setor sucroenergético relevante. Ou seja: matéria-prima abundante para biogás e biometano.
O próprio Panorama reforça que o setor cresce justamente onde há integração entre resíduos, energia e mercado. Exatamente o cenário baiano. Mas isso ainda não virou escala.
Atlas: o mapa existe, falta sair do papel
A boa notícia – ou promessa – veio no mês passado. O governo do estado lançou o Atlas Bioenergia Bahia, um mapeamento detalhado do potencial energético em todos os 417 municípios. O número impressiona: quase 4 bilhões de Nm³/ano de biogás e mais de 2,1 bilhões de Nm³/ano de biometano.
A professora doutora Suani Coelho, do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (IEA-USP), foi uma das responsáveis pela elaboração do atlas.
“Os números são impressionantes. O estado tem um potencial enorme de aproveitamento da matéria orgânica. A Bahia tem o que há de melhor: sol, água e solo para produzir uma biomassa de qualidade para gerar energia”, afirmou.
Segundo ela, o atlas oferece uma base técnica inédita, capaz de orientar políticas públicas, reduzir incertezas e atrair investidores. “A Bahia está saindo na frente”, completou.
É um divisor de águas? Pode ser.
O estudo organiza dados, reduz incertezas e aponta onde investir. Em outras palavras: entrega o mapa. Mas mapa não constrói usina.
Entre o discurso e o investimento
O setor de biogás no Brasil avançou porque virou agenda econômica – não apenas ambiental. Tem regulação, mercado, demanda (especialmente no transporte) e integração com a transição energética. A Bahia, por enquanto, ainda está mais no diagnóstico do que na execução.
E o tempo corre. Enquanto o Sul e o Sudeste ganham escala, atraem capital e consolidam cadeias produtivas, o risco é o estado repetir um velho padrão: ter potencial sobrando… e protagonismo faltando.
O Atlas é um passo importante. Mas o mercado não espera planejamento – responde a oportunidade, segurança jurídica e retorno.
A pergunta que fica é simples: a Bahia vai entrar no jogo do biogás ou assistir de fora?
SAIBA MAIS
Biogás e biometano são combustíveis renováveis produzidos a partir da decomposição de resíduos orgânicos, como restos agropecuários, lixo urbano e esgoto. O biogás é a mistura bruta resultante desse processo, rica em metano e já utilizada para geração de energia elétrica e térmica. Já o biometano é o biogás purificado, com alta concentração de metano, o que permite seu uso como substituto do gás natural, especialmente no transporte e na indústria
Etanol de milho: Oeste vira fronteira quente
A engrenagem começou a girar. A Inpasa iniciou, há poucos dias, a produção em sua unidade em Luís Eduardo Magalhães, marco relevante para um setor que ganha tração rápida no Brasil: o etanol de milho.
Com investimento de R$1,3 bilhão, a planta tem capacidade para processar 1 milhão de toneladas de grãos e produzir até 500 milhões de litros por ano, além de gerar 245 mil toneladas de DDGS, 23 mil toneladas de óleo vegetal e 132 GWh de energia elétrica.
É escala. E é só o começo.
A expectativa agora se volta para o Projeto Farol, em Jaborandi.
Com investimento estimado em R$3 bilhões, o empreendimento da Biocombustíveis do Oeste mira inauguração em 2027 e chega com ambição industrial: produção de etanol, geração de energia, fabricação de DDGS para ração animal e até óleo refinado.
Não é apenas uma usina. É uma biorrefinaria.
Bahia entra no mapa. Agora é pra valer?
O avanço dos dois projetos não é isolado. Ambos foram habilitados no ProBahia, programa que tenta corrigir uma lacuna histórica: a ausência do estado no mapa do etanol de milho.
E o timing ajuda.
A produção nacional deve dobrar até 2032, impulsionada pela demanda por combustíveis mais limpos e pela integração com cadeias como ração animal e bioenergia.
O Oeste baiano começa a dar sinais claros de mudança de perfil: sai do grão in natura e entra na industrialização pesada.
Se os projetos entregarem o que prometem, a região pode se consolidar como novo polo de bioenergia do país.
A dúvida é outra: a Bahia vai conseguir sustentar esse ritmo… ou será mais um voo curto?
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