
A Petrobras decidiu pisar no acelerador do refino. Em meio à disparada internacional do petróleo provocada pela guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel, a estatal revelou que suas refinarias operam no maior nível dos últimos dez anos e que já trabalha para atingir a autossuficiência nacional em diesel e gasolina até 2030.
Durante coletiva sobre os resultados do primeiro trimestre de 2026, a presidente Magda Chambriard afirmou que as refinarias da companhia chegaram a operar acima de 100% da capacidade de referência em abril e maio. O fator de utilização atingiu 97,6% no trimestre, o melhor resultado desde 2014.
Segundo a estatal, o aumento da carga das refinarias ocorre em paralelo à expansão da produção de diesel S10, biocombustíveis e combustíveis renováveis, incluindo SAF e HVO. A Petrobras projeta ampliar em até 500 mil barris por dia a capacidade de produção de diesel nos próximos anos.
A estratégia ganhou força após o agravamento das tensões geopolíticas no Oriente Médio. A avaliação interna da empresa é que reduzir a dependência externa de derivados virou questão de segurança energética nacional.
A Petrobras também destacou que o avanço operacional do refino mudou completamente a lógica econômica das refinarias brasileiras. No passado, operar com carga elevada podia gerar prejuízo devido ao excesso de óleo combustível de baixo valor agregado. Agora, com maior conversão para diesel e gasolina, o refino passou a capturar margens mais elevadas.
Por que isso importa?
A fala de Magda Chambriard sinaliza uma mudança relevante no papel da Petrobras dentro da política energética brasileira. A companhia volta a tratar o refino como ativo estratégico e não apenas como um elo secundário da cadeia do petróleo.
A mensagem é clara: o Brasil quer reduzir vulnerabilidades externas justamente num momento em que guerras e disputas geopolíticas voltaram a pressionar preços e cadeias globais de energia.
O discurso também reforça a reindustrialização do parque de refino nacional. Ao operar refinarias no limite e ampliar unidades já existentes, a Petrobras tenta evitar importações caras de diesel, ampliar margens e fortalecer a indústria nacional de combustíveis.
Para a Bahia, o tema tem peso ainda maior. O desempenho do refino recoloca o Nordeste no centro da estratégia industrial da estatal, especialmente diante das discussões sobre a Refinaria de Mataripe e novos investimentos ligados ao downstream.
Quando a Petrobras performa bem, a Petrobras ganha, o governo federal ganha, estados e municípios ganham, ganha a sociedade em geral. Nossos investimentos se convertem em mais produção, mais receita, mais tributos para a sociedade, além é claro de financiar novos projetos da companhia
Magda Chambriard, presidente da Petrobras
Estatal amplia influência na Braskem e mantém Mataripe no radar
A Petrobras aproveitou a divulgação dos resultados trimestrais para deixar um recado ao mercado: a companhia voltou ao modo expansão. A presidente Magda Chambriard confirmou a aprovação ampliada do projeto Sergipe Águas Profundas, que agora contará com duas plataformas e um gasoduto marítimo. O empreendimento adicionará capacidade de produção de 240 mil barris de petróleo por dia e 22 milhões de metros cúbicos diários de gás natural.
Segundo Magda, a melhora da geração de caixa da Petrobras permitiu ampliar a financiabilidade do projeto, considerado um dos principais vetores de expansão do gás natural no país.
Na mesma coletiva, a Petrobras voltou a comentar a possível recompra da Refinaria de Mataripe, na Bahia. A direção afirmou que as negociações seguem em avaliação, sem novos desdobramentos desde o comunicado divulgado ao mercado em março.
A estatal também endureceu o discurso sobre sua posição na Braskem. Magda afirmou que a atual gestão “não gosta de vender” e pretende ampliar a atuação dentro da petroquímica, da qual a Petrobras possui mais de 46% das ações com direito a voto.
A declaração ocorre em meio às dificuldades enfrentadas pela Braskem-Idesa, no México, e sinaliza uma Petrobras mais ativa na condução estratégica da petroquímica.
O que tudo isso revela?
Os três temas revelam uma Petrobras menos focada em desinvestimentos e mais interessada em ampliar presença industrial em segmentos considerados estratégicos. O projeto Sergipe Águas Profundas(Seap) pode transformar o Nordeste em um dos principais polos de gás natural do país, abrindo espaço para fertilizantes, petroquímica, térmicas e novos investimentos industriais.
Já Mataripe possui peso simbólico e econômico enorme para a Bahia. Uma eventual recompra recolocaria a Petrobras diretamente no controle do principal ativo de refino do estado e um dos maiores do país e mudaria novamente o tabuleiro do mercado regional de combustíveis.
No caso da Braskem, a sinalização é ainda mais relevante. Ao defender maior protagonismo na petroquímica, a Petrobras reforça uma visão integrada entre petróleo, refino, química e indústria de transformação, justamente uma discussão que ganhou força mundial após as crises recentes nas cadeias globais.
Magda enterra era dos desinvestimentos
Mais do que divulgar números robustos no primeiro trimestre de 2026, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, usou a coletiva desta terça-feira para consolidar publicamente a nova estratégia da estatal. Em diversos momentos, Magda associou o desempenho financeiro da companhia à ampliação de investimentos, geração de empregos e fortalecimento da indústria nacional.
A frase mais emblemática veio ao comentar a atuação da Petrobras na Braskem: “Essa administração da Petrobras não gosta de vender. Essa administração só gosta de comprar”.
O discurso representa um contraponto direto ao ciclo anterior da companhia, marcado por venda de refinarias, ativos logísticos e redução da presença em segmentos petroquímicos e de fertilizantes.
Na prática, a gestão atual aposta em expansão do refino, crescimento do gás natural, retomada de fertilizantes, fortalecimento da petroquímica e ampliação da integração industrial da estatal.
Magda também reforçou o papel da Petrobras como instrumento de estabilidade de preços no mercado brasileiro, defendendo uma política que evita repassar imediatamente ao consumidor toda a volatilidade internacional do petróleo.
Uma nova empresa?
O mercado passou anos enxergando a Petrobras prioritariamente como exportadora de petróleo bruto. A atual gestão tenta reconstruir uma Petrobras integrada – da produção ao refino, passando pela petroquímica, fertilizantes, gás e energia.
Isso tem impacto direto sobre investimentos industriais, cadeia de fornecedores, geração de empregos e arrecadação em estados produtores como a Bahia.
Ao reforçar segurança energética, ampliação do refino e redução da dependência externa, Magda também reposiciona a estatal no centro da política industrial brasileira.
O discurso mostra que a Petrobras quer voltar a atuar não apenas como empresa de petróleo, mas como motor de desenvolvimento industrial e energético do país.

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