
Durante décadas, quem passava pela região dos Mares, na Cidade Baixa, em Salvador, sabia quando a fábrica da Chadler estava em plena produção. O cheiro de chocolate tomava conta do ar e virou marca registrada da região. A Chadler Industrial da Bahia, fundada em 1944 pelas famílias Chindler e Adler, transformou cacau baiano em chocolate e ajudou a consolidar Salvador como um polo industrial ligado à cadeia cacaueira.

A fábrica, localizada na Rua Conselheiro Zacarias, 103, não era apenas um endereço industrial. Virou também espaço de visitas escolares, onde crianças aprendiam como o cacau virava chocolate – uma experiência que ficou gravada na memória de gerações de soteropolitanos. Para muitos, era o primeiro contato com o mundo da indústria, da produção em escala e da economia real.
No auge, a Chadler foi uma das maiores processadoras de cacau do país, gerando milhares de empregos diretos e indiretos e estimulando uma ampla rede de fornecedores, do campo ao porto. Segundo reportagem do jornal Correio, a empresa chegou a faturar cerca de US$65 milhões na década de 1990, reflexo da força do cacau baiano no mercado global.
Mas nem tudo era doce. O mesmo cheiro que encantava visitantes também gerava reclamações de moradores, além de impactos ambientais típicos de uma indústria pesada instalada em área urbana. Os moradores da região chegaram a montar uma associação para lutar pela expulsão da fábrica do local. Em 1969 houve protestos da população, que chegou, inclusive, a invadir a unidade.
Ainda assim, a Chadler seguia como símbolo de um tempo em que Salvador industrializava, exportava e competia.

O fim
O começo do fim veio com a crise da vassoura-de-bruxa, que devastou as lavouras de cacau no sul da Bahia a partir dos anos 1990. A escassez da matéria-prima elevou custos, desmontou cadeias produtivas e enfraqueceu empresas históricas. Para complicar ainda mais tinha o chamado “Custo Brasil”: encargos trabalhistas e sociais bem acima dos concorrentes, infraestrutura deficiente e gastos absurdos com impostos e energia.
A Chadler não resistiu. Em 1995, todas as máquinas foram colocadas em um navio cargueiro e levadas a New Jersey, nos Estados Unidos, para equipar uma fábrica que se tornou a terceira maior processadora de cacau daquele país. Restou no Brasil apenas a fábrica de Ilhéus. Mais tarde, em 1999, as instalações fabris de Ilhéus e de New Jersey foram adquiridas pela multinacional suíça Barry Callebaut AG, líder mundial do setor.
A operação marcou o encerramento de um ciclo industrial tipicamente baiano. Mais do que uma fábrica que fechou, a Chadler deixou como legado o cheiro no ar, as lembranças de infância e o retrato de uma Salvador que já foi, literalmente, movida a chocolate.
Curiosidades de uma fábrica que marcou Salvador
- Fundada em 1944, a Chadler Industrial da Bahia se tornou uma das mais importantes processadoras de cacau do país, ajudando a consolidar a Bahia como polo estratégico da indústria chocolateira brasileira.
- Muito além da produção, a fábrica entrou para o imaginário popular pelo cheiro de chocolate que “perfumava” a Cidade Baixa, especialmente na região da Península de Itapagipe – uma lembrança recorrente entre ex-moradores e visitantes.
- A convivência com o entorno, porém, esteve longe de ser doce. Ao longo das décadas, a Chadler foi alvo de reclamações ambientais, envolvendo emissão de gases, ruídos industriais e impactos na vizinhança, segundo registros do Instituto Cultural Casa Via Magia.
- Em 1962, uma explosão de caldeira dentro da unidade aumentou a tensão com a comunidade local e reforçou o movimento pela retirada da fábrica da área urbana.
- No fim dos anos 1960, a pressão popular ganhou força: moradores organizaram uma associação e, em 1969, protestos chegaram a incluir a invasão da fábrica, um episódio marcante da história industrial e social de Salvador.
- Na tentativa de permanecer na capital, a Chadler chegou a investir cerca de US$3 milhões em adequações ambientais, segundo a Federação das Indústrias do Estado da Bahia (FIEB) – esforço que não foi suficiente para reverter o desgaste.
- A desativação definitiva da planta ocorreu em 1995. O maquinário foi transportado para os Estados Unidos para equipar uma fábrica montada em New Jersey, refletindo também a crise do cacau provocada pela vassoura-de-bruxa e pela queda da produção baiana, como registrou reportagem da Folha de S.Paulo.
- Nos anos seguintes, o antigo prédio industrial ganhou novos usos: em 2007, abrigou o Condomínio Tecnológico de Itapagipe e, em 2011, passou a sediar uma empresa de gestão documental, segundo levantamento da Flexor.
- Em 1999, a Chadler Industrial da Bahia foi adquirida pela Barry Callebaut AG, uma das maiores processadoras de cacau e chocolate do mundo, encerrando definitivamente um ciclo histórico iniciado em Salvador.
- Décadas depois, a Chadler segue viva na memória coletiva – dividida entre a nostalgia do aroma de chocolate no ar e a lembrança das batalhas urbanas e ambientais que marcaram sua saída da Cidade Baixa.
- MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo – mesmo depois do fechamento de suas portas. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.
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- Na próxima terça-feira (dia 20) vamos relembrar a história da Fratelli Vita. Até lá.
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