
As exportações da Bahia até tentam contar uma história de força, mas os números de fevereiro mostram outra realidade. O estado vendeu US$730,9 milhões, uma queda expressiva de 23,2% na comparação anual – suficiente para derrubar a Bahia para a 10ª posição no ranking nacional, atrás de estados como Santa Catarina e Mato Grosso do Sul.
Ainda assim, o protagonismo regional permanece: a Bahia responde por quase metade (48,7%) das exportações do Nordeste. Lidera com folga, mas sem avançar.
O problema está na composição.
Os dados analisados pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) escancaram uma pauta cada vez mais concentrada e, em alguns casos, pouco eficiente em valor agregado.
A soja segue dominante: foram 446 mil toneladas exportadas no mês passado, gerando cerca de US$173 milhões.
Volume alto, receita nem tanto.
Agora o dado que chama atenção: a Bahia exportou apenas 32 toneladas de ouro, mas faturou US$116,6 milhões – mais do que todo o segmento de papel e celulose, que embarcou 238 mil toneladas e gerou US$111,6 milhões.
Em outras palavras: menos volume, mais valor. Um contraste direto com a lógica predominante da pauta baiana.
Geograficamente, o mapa também diz muito.
São Francisco do Conde lidera com folga (28,4%), puxado pela Refinaria de Mataripe. Luís Eduardo Magalhães aparece na sequência (17,9%), com a força do agronegócio.
Já Jacobina surge como destaque silencioso (6,7%). Graças a quem? Ao ouro.
Enquanto isso, Salvador participa com apenas 0,65% das exportações, o mesmo percentual de Candeias e abaixo de Feira de Santana e Vitória da Conquista.
A capital econômica do estado é apenas um discreto figurante no comércio exterior.
Nos destinos, a dependência também é clara. A China segue como principal parceiro, com US$192,7 milhões, seguida por Canadá (US$149,6 milhões) – impulsionado justamente pelos metais preciosos.
O retrato final é incômodo: a Bahia exporta muito, mas ainda depende de poucos produtos, poucos territórios e poucos mercados.
- Cai no ranking
- Mantém volume
- Mas ainda patina em valor
A pergunta que fica é direta: até quando o estado vai crescer exportando mais do mesmo?
Safra recorde, mas nem tudo cresce
O IBGE projeta uma safra recorde de grãos na Bahia em 2026, com 12,9 milhões de toneladas – alta tímida de 0,4% sobre 2025. O motor segue sendo a soja, que deve atingir 8,7 milhões de toneladas (+1,2%), puxada pela expansão da área plantada. Hoje, o grão já responde por quase 70% da produção agrícola do estado.
Mas o retrato não é homogêneo.
A cana-de-açúcar deve recuar forte (-13,6%), enquanto o algodão, apesar de ajuste positivo na última estimativa, também cai no comparativo anual (-13,6%).
O resultado expõe uma tendência clara: a Bahia aprofunda sua dependência da soja, enquanto outras cadeias relevantes perdem fôlego.
No curto prazo, o recorde sustenta o bom momento do agro.
No médio prazo, acende o alerta para concentração produtiva e maior exposição a riscos climáticos e de mercado.
Mineração avança no interior
O Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) concedeu licença prévia à Bafer Mineração para exploração de minério de ferro em Barra da Estiva, na Chapada Diamantina.
O aval, válido por cinco anos, libera a operação nas fazendas Taquari e Barro Vermelho, com capacidade estimada em 295 mil toneladas por ano em uma área de 18,5 hectares.
O movimento reforça o avanço da mineração no interior da Bahia – um setor que ganha tração com a demanda global por minério, mas que segue sob pressão quando o tema é licenciamento ambiental e impacto local.
Radar da Indústria é uma coluna semanal sobre os movimentos que moldam a indústria e a economia da Bahia. Aqui, investimentos, negócios, energia, infraestrutura e política econômica são analisados sem maquiagem. O foco está no que muda o jogo – e no que trava o desenvolvimento. Com informação, bastidor e leitura crítica, o Radar aponta riscos, oportunidades e contradições. Porque entender a indústria é entender o futuro do estado.
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