
Existe um lugar no litoral norte da Bahia onde o tempo parece ter esquecido de correr. Lagoas de água doce de cor impossível, dunas que avançam sobre a mata atlântica, uma capelinha branca no centro da vila, e pescadores que ainda saem de madrugada para o mar como seus avós faziam. Esse lugar se chama Baixio, um distrito do município de Esplanada, a 140 quilômetros de Salvador pela Linha Verde.
Mas o tempo, em Baixio, está acelerando. Em novembro de 2024, o Grupo Prima realizou a cerimônia da pedra fundamental que marcou o início da construção de um novo complexo turístico na vila. Com investimento de R$5,6 bilhões, o projeto foi apresentado como o maior investimento privado destinado ao desenvolvimento de um destino turístico no Brasil. O governador Jerônimo Rodrigues esteve presente. Veio também a embaixadora da Espanha.
Poucas vilas de pescadores na história do Nordeste receberam tanta atenção de uma só vez.
O arquiteto do plano
O Grupo Prima é formado por investidores da Catalunha, na Espanha, e atua no Brasil desde 2005 nos segmentos de hotelaria e incorporação imobiliária de alto padrão. A empresa não chegou a Baixio de surpresa: desde 2008, a Prima elaborou um masterplan de desenvolvimento turístico e imobiliário para a região, com aproveitamento de 30% da área total para construção e preservação ambiental de 70% do terreno. Em outras palavras, 17 anos de planejamento antes da primeira retroescavadeira entrar em campo.
A empresa controla área correspondente a 90% do balneário. É uma concentração de propriedade que não tem precedente no turismo baiano – e que explica tanto a escala do projeto quanto parte das tensões que ele gera.
Hoje, já funcionam em Baixio dois empreendimentos da Prima: o Hotel Boutique & Spa Ponta de Inhambupe e a Pousada de Charme Aldeola, ambos administrados pela Slaviero Hotéis, que foram incluídos na lista dos dez melhores do Brasil pelo prêmio Travellers’ Choice 2025 do TripAdvisor. Os números dizem que o produto funciona. Noventa por cento dos hóspedes dessas unidades são provenientes do turismo interno.

O que vem por aí
A fase seguinte é de outra escala. A primeira etapa do projeto, orçada em R$2,1 bilhões, inclui dois resorts de luxo – um da bandeira Fasano e outro da rede tailandesa Anantara – com previsão de entrega em 2028, somando 532 apartamentos. O projeto inclui ainda um aeroporto com capacidade para receber até 40 aeronaves, urbanização da Vila de Baixio e sistemas de energia renovável.
Uma segunda etapa deve incluir um resort all inclusive com 900 apartamentos, possivelmente com a bandeira Meliá ou Marriott. A previsão é de que mais de 10 mil empregos diretos e indiretos sejam gerados ao longo de dez anos.
O alcance internacional do projeto também já está sendo construído. A Embratur convidou agentes de turismo especializados em afroturismo dos Estados Unidos para conhecer Baixio, e um deles, Roger Lord, de Nova York, destacou o valor que o destino possui para o público afro-americano interessado em explorar locais de rica herança cultural africana e belezas naturais preservadas.
O Lado B: o que trava e o que preocupa
Todo destino tem sua sombra. E em Baixio ela é longa.
Uma dissertação de mestrado pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), defendida em 2024, mapeou com precisão o que a narrativa do luxo tende a deixar fora do frame. O modo de vida de Baixio vem sendo transformado pela urbanização e pelo desenvolvimento turístico, tendo como consequência a especulação imobiliária acompanhada de uma hipervalorização de terras, colocando em risco o meio ambiente, as identidades e tradições locais. O turismo em Baixio tem se voltado para os grandes empreendimentos, estimulando a especulação imobiliária e a marginalização da comunidade local.
A pergunta que o modelo levanta é simples e incômoda: numa vila onde um único grupo controla 90% do território e define o ritmo do desenvolvimento, quem decide o que se preserva – e de quem?
O próprio Grupo Prima reconhece o desafio. A empresa criou a Baixio Turismo para liderar e desenvolver todas as atividades de recreação turística dentro de padrões preestabelecidos que garantam a preservação do patrimônio existente. E o masterplan prevê infraestrutura integrada para moradores e visitantes. Mas integração, no papel, não é o mesmo que participação real.
A infraestrutura de acesso ao destino, por exemplo, ainda depende de estrada com trechos sem pavimentação adequada. O aeródromo prometido ainda não existe. E o visitante que chega de carro a Baixio hoje encontra um lugar de beleza rara, mas ainda frágil na cadeia de serviços que transforma um destino bonito em destino sustentável.
O que o leitor leva daqui
Baixio não é um destino que “deu certo” ainda. É um destino em construção, no sentido mais literal e mais ambíguo do termo. O que o Grupo Prima está construindo ali tem o potencial de ser um dos casos mais relevantes do turismo privado brasileiro: um destino criado do zero, com escala, infraestrutura e marcas internacionais, em território de altíssimo valor natural.
Mas o modelo que está sendo testado em Baixio também levanta perguntas que vão além da Bahia. O que acontece quando um único grupo privado controla quase integralmente o território de uma vila? Como garantir que os 10 mil empregos prometidos sejam absorvidos pela comunidade local – e não tragam apenas mão de obra de fora? Como preservar as lagoas, as dunas e a cultura pesqueira quando o ritmo do capital acelera?
R$ 5,6 bilhões compram muita coisa. Mas não compram, automaticamente, o equilíbrio entre o destino que atrai e o lugar que permanece vivo para quem sempre morou nele. Essa é a obra mais difícil de Baixio. E ela ainda está no começo.
O Lado B dos Destinos é uma coluna semanal do Indústria News que revela a economia, a indústria e as decisões que fazem um destino funcionar – ou entrar em tensão. Aqui, viagem não é fuga do noticiário. É outra forma de entender como cidades e regiões geram valor, emprego e identidade. A paisagem atrai. O modelo sustenta. O que você vai encontrar aqui? Análise leve, sem jargão; textos de fim de semana, com narrativa e contexto econômico; infraestrutura, investimentos, empregos, conflitos e oportunidades. Casos reais: o que deu certo, o que cobra seu preço e o que pode ser replicado.
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