As exportações de calçados da Bahia aprofundaram a trajetória de queda em abril e reforçaram o cenário de perda de competitividade enfrentado pelo setor no estado. Enquanto o mercado nacional ensaiou sinais de recuperação nos embarques, puxado principalmente pelos Estados Unidos e países da América Latina, a indústria calçadista baiana seguiu em forte retração tanto em volume quanto em receita.
Dados divulgados pela Abicalçados (Associação Brasileira das Indústrias de Calçados) mostram que, em abril, partiram das fábricas baianas 284,7 mil pares de calçados, que geraram pouco mais de US$ 4,9 milhões. O resultado representa quedas de 33,5% em volume e de 32,1% em receita na comparação com o mesmo mês do ano passado.
O desempenho negativo também se manteve no acumulado do primeiro quadrimestre. Entre janeiro e abril, a Bahia exportou 1,09 milhão de pares, com faturamento de US$18,95 milhões – retrações de 28% e 34,2%, respectivamente, frente ao mesmo período de 2025.

Reação nacional
O recuo baiano ocorre em um momento em que parte da indústria nacional começa a mostrar reação no mercado externo. No mês de abril, as exportações brasileiras de calçados somaram 8,2 milhões de pares e US$73,5 milhões, alta de 9% em volume, embora ainda com queda de 7,3% em receita na comparação anual.
No acumulado do quadrimestre, porém, o setor ainda opera no vermelho. O Brasil exportou 34,5 milhões de pares e US$ 284,4 milhões, quedas de 11,7% em volume e 18,5% em faturamento.
Segundo o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, abril trouxe sinais de recomposição em mercados estratégicos, especialmente nos Estados Unidos, após mudanças tarifárias que voltaram a colocar o produto brasileiro em condições mais competitivas.
Os embarques para os Estados Unidos cresceram 16,5% em volume e 40,5% em receita no mês. Já os países latino-americanos, excluindo a Argentina, também ajudaram a sustentar o resultado nacional, com crescimento de 53% no volume embarcado.
Por outro lado, a forte retração das vendas para a Argentina continua pressionando o setor. As exportações brasileiras para o país vizinho despencaram mais de 55% em abril, refletindo a desaceleração econômica e o enfraquecimento do consumo argentino.
No ranking nacional de exportadores, o Rio Grande do Sul segue na liderança, seguido pelo Ceará e São Paulo.
Análise
Embora a Bahia não apareça entre os maiores exportadores nacionais, o desempenho do estado chama atenção pela intensidade da queda, especialmente em um momento em que outras regiões começam a mostrar sinais de estabilização.
O resultado evidencia os desafios enfrentados pela indústria calçadista baiana, que opera sob forte concorrência internacional, pressão de custos e perda de dinamismo em mercados tradicionais.
Mais do que uma oscilação pontual, os números acendem um alerta para a cadeia produtiva local. A queda nas exportações afeta diretamente empregos, produção industrial e geração de renda em um setor historicamente relevante para diversas regiões do estado.
Além disso, a retração da receita em ritmo superior ao volume exportado mostra que os calçados baianos estão sendo vendidos a preços médios menores, reflexo de um ambiente internacional mais competitivo e de menor poder de barganha.
O contraste com o desempenho de mercados como Ceará e Estados Unidos também revela um movimento importante no setor: empresas mais competitivas e com maior escala começam a aproveitar melhor a retomada parcial da demanda internacional, enquanto polos menores ou mais dependentes de mercados específicos enfrentam maior dificuldade para reagir.
A expectativa do setor agora se concentra no segundo semestre e na realização da BFSHOW, considerada a maior feira calçadista da América Latina, que acontece em São Paulo neste mês e deve reunir mais de 1,2 mil compradores internacionais.
Para a indústria brasileira, o desafio segue sendo recuperar mercados perdidos sem comprometer margens. Para a Bahia, o cenário é ainda mais delicado: além de reconquistar espaço no comércio exterior, o estado precisará recuperar competitividade em um mercado global cada vez mais pressionado por preço, escala e eficiência logística.
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