A RD Saúde, dona das farmácias Raia e Drogasil, anunciou nesta terça-feira (3/3) a alienação de 100% de sua participação na 4Bio Medicamentos para o Grupo Profarma. O negócio, avaliado em R$ 600 milhões, marca um reposicionamento estratégico da gigante do varejo farmacêutico, que busca simplificar sua estrutura e concentrar esforços em sua operação principal de farmácias físicas e digitais.
O valor base da transação inclui a manutenção de um caixa líquido de R$ 80 milhões na 4Bio. O cronograma de pagamento foi estruturado em seis parcelas:
- R$ 100 milhões à vista no fechamento da operação
- Cinco parcelas anuais subsequentes de R$ 100 milhões, corrigidas pelo CDI
Além do valor de venda, a RD Saúde mantém o direito a créditos tributários (Difal) estimados em R$120 milhões, com decisão favorável já proferida pelo STF. A transação deve gerar ainda um ganho de capital com impacto fiscal positivo de aproximadamente R$ 60 milhões para a companhia.
Desde 2005, a 4BIO atua no mercado de medicamentos especiais de alto custo. Produzidos com alta tecnologia, os medicamentos controlados não são encontrados facilmente em farmácias ou drogarias comuns. A razão disso é a necessidade de uma ampla infraestrutura que garanta as propriedades terapêuticas do medicamento, com excelência na conservação, armazenamento e transporte.
Esses medicamentos excepcionais são usados para tratamentos mais complexos, que exigem um maior cuidado de diferentes áreas, como reprodução humana (tratamento de infertilidade com inseminação artificial e fertilização in vitro), oncologia, endocrinologia, pediatria, neurologia, oftalmologia, urologia, transplante, reumatologia e infectologia, entre outras.
De R$125 milhões a R$3,4 bilhões: O ciclo da 4Bio
A venda encerra um ciclo de forte crescimento sob gestão da RD Saúde. Desde que foi adquirida em 2015, a 4Bio saltou de um faturamento anual de R$125 milhões para R$3,4 bilhões (LTM 3T25). Com um lucro líquido de R$236,6 milhões no último período de 12 meses encerrado em setembro de 2025, a empresa se consolidou como líder no varejo de medicamentos especiais e alta complexidade.
A decisão de venda, no entanto, passa pela mudança na dinâmica do setor. Segundo Flávio de Moraes Correia, diretor de de Relação com Investidores da RD Saúde, o mercado de medicamentos especiais aproximou-se mais da lógica de distribuição farmacêutica do que do varejo tradicional, com margens e retornos sob nova pressão.
“Nesse contexto, a RD Saúde avalia que deixou de ser a proprietária natural do ativo”, afirmou o executivo, destacando que o movimento reforça a disciplina de capital e deve incrementar o Roic (retorno sobre capital investido) do grupo.
O triunfo estratégico da Profarma
Para o Grupo Profarma, a aquisição é o “bilhete de volta” para um dos segmentos mais resilientes e de alta expansão do setor. O mercado institucional (Non Retail) movimentou R$ 94 bilhões em 2025, uma alta de 13% sobre o ano anterior, segundo dados da IQVIA.
Maximiliano Fischer, diretor vice-presidente Financeiro de Relações com Investidores da Profarma, classifica a compra como um marco. “Consolida nosso retorno ao mercado de especialidades, o segmento farmacêutico de maior crescimento no Brasil e globalmente”, destacou. O grupo aposta no envelhecimento populacional e no maior acesso a terapias de alta complexidade para sustentar o crescimento de dois dígitos previsto para os próximos anos.
“Esta integração permitirá ao Grupo oferecer soluções inovadoras, diferenciadas e integradas para
laboratórios farmacêuticos, hospitais, clínicas, operadoras de saúde, médicos e pacientes, posicionandoo competitivamente em um segmento estratégico de alto valor agregado e crescimento sustentável”, afirmou.
Análise: O que isso sinaliza ao mercado?
O movimento é um “ganha-ganha” de manuais de finanças corporativas:
Para a RD Saúde: Reduz a complexidade operacional, limpa o balanço e permite focar na expansão das bandeiras Raia e Drogasil, que exigem alto investimento em logística e capilaridade.
Para a Profarma: Absorve uma operação já madura e líder de mercado, ganhando escala imediata em um canal que hoje já representa 60% do mercado institucional de medicamentos.
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