
Em 14 de março de 1891, nascia em Salvador a Companhia Empório Industrial do Norte (CEIN), idealizada por Luiz Tarquínio – um homem de origem humilde que ascendeu como comerciante de tecidos. Instalado na Boa Viagem, então área periférica e alagadiça da cidade, o complexo industrial exigiu saneamento prévio, canalização de nascentes e a construção de um cais próprio de 240 metros, ligado à fábrica por trilhos. Era mais que uma tecelagem: era um projeto de modernidade.
Com 899 teares e 697 operários nos primeiros anos – maioria mulheres – a Empório tornou-se a maior indústria têxtil da Bahia e, segundo Almico, Baiardi e Saraiva (2008), a maior do Norte-Nordeste no início do século XX. Em 1913, já operava com 1.300 teares e 1.600 trabalhadores.
A fábrica, que também ficou conhecida como fábrica da Boa Viagem ou fábrica de Luiz Tarquínio, produzia brins, cassinetas e zephyrs, tecidos até então não fabricados no Brasil, com fios importados. A unidade contava com seu próprio ancoradouro e uma ponte de 150 metros de extensão para o escoamento da produção. Era a modernidade tocando as águas da Baía de Todos-os-Santos.

A primeira vila operária do Brasil
O grande diferencial da Empório não estava apenas nas máquinas importadas, mas no olhar de Luiz Tarquínio para quem as operava. Antes mesmo da Vila Maria Zélia em São Paulo, Salvador já abrigava o que muitos consideram a primeira vila operária do país.
Eram 258 casas distribuídas em oito blocos paralelos. Mas a Vila de Luiz Tarquínio ia muito além da moradia:
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Educação e Cultura: A Escola Rui Barbosa oferecia desde jardim de infância até cursos noturnos e aulas de artes, inspirada em modelos pedagógicos europeus e americanos.
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Saúde e Bem-estar: O complexo dispunha de gabinete médico, farmácia e até creche.
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Lazer: Uma praça central de 1.500 m² com coretos onde bandas formadas pelos próprios operários se apresentavam.
Havia uma política de fidelidade impressionante para a época: após cinco anos, o operário ficava isento do aluguel; após dez anos de bons serviços, ganhava a propriedade de uma casa fora da vila. Como destaca o portal LEHMT (Laboratório de Estudos de História do Mundo do Trabalho), criou-se ali uma imagem de “Cidade do Trabalho”, uma ilha de ordem e progresso social em meio à pobreza urbana da virada do século.
Nem tudo era harmonia. Havia rígido controle moral, vigilância na entrada e saída e participação em greves, como a de 1907. A memória idílica convivia com tensões sociais.
O auge e os sinais de crise

Em 1910, a CEIN figurava entre as três maiores do Nordeste e as 11 maiores do Brasil. O auge veio acompanhado de lucros elevados até 1928.
No entanto, o fim da Primeira Guerra Mundial trouxe o primeiro grande revés: a queda brusca nos preços das matérias-primas e a estagnação do mercado têxtil.
A partir da década de 1950, o cenário tornou-se hostil. Os altos custos de modernização e a concorrência acirrada com as indústrias do Sul e Sudeste começaram a asfixiar o negócio. Em 1963, a crise tornou-se permanente.
O fechamento e o legado de pedra
A agonia final durou uma década. Em 1973, a companhia foi vendida ao grupo Atlântico Sul, que tentou saneá-la sem sucesso. A falência definitiva veio em 1977.

O encerramento das atividades deixou um rastro de incertezas para os 1.500 moradores da vila. Foi apenas em 1982 que o então governador Antônio Carlos Magalhães adquiriu a massa falida e repassou as escrituras das casas para os antigos operários e seus descendentes, garantindo que o legado de moradia de Tarquínio não fosse demolido pela burocracia.
Hoje, a antiga fábrica abriga armazéns alfandegados. A Vila Operária, embora descaracterizada por reformas e anexações, ainda respira. A estátua de Luiz Tarquínio na praça central continua observando o bairro que ele ajudou a criar, lembrando Salvador de uma época em que a indústria não gerava apenas tecidos, mas cidadania.
A utopia industrial de Luiz Tarquínio não resistiu ao tempo, mas moldou a Boa Viagem e deixou uma pergunta incômoda: quando a Bahia deixou de liderar para começar a resistir?
CURIOSIDADES E NÚMEROS
- Fundação: 14 de março de 1891
- Localização: Boa Viagem (atual Av. Luiz Tarquínio), Cidade Baixa, Salvador
- Área do prédio principal: 21.600 m², de frente para o mar
Capacidade produtiva
- 899 teares nos primeiros anos
- 1.300 teares em 1913
- Uma das 10 maiores indústrias têxteis do Brasil no início do século XX
Força de trabalho
- 697 operários nos primeiros anos (526 mulheres)
- 1.600 trabalhadores no auge
- Predominância feminina ao longo das décadas
Estrutura logística própria
- Cais de 240 metros
- Ponte de madeira de lei com 150 metros
- Linha férrea interna ligando o ancoradouro à fábrica
MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo – mesmo depois do fechamento de suas portas. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.
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