
Quem chega ao terminal de São Joaquim, em Salvador, em uma sexta-feira de Verão, não encontra apenas turistas. Encontra uma multidão que transformou o ato de atravessar o mar em uma prova de resistência. O sistema de ferryboat, operado pela concessionária Internacional Travessias, tornou-se o principal personagem de uma trama de ineficiência que dita o ritmo da economia da Ilha de Itaparica.
Lá do outro lado, a maior ilha marítima do Brasil vive uma dualidade: o brilho dos novos empreendimentos imobiliários de luxo, como o Village Itaparica (no antigo Club Med), versus o cotidiano de quem convive com a precariedade dos serviços e a sombra da violência.
Muito além do veraneio
Itaparica não é um destino qualquer. Dividida entre os municípios de Itaparica e Vera Cruz, ela é o pulmão de lazer da capital. Mas, economicamente, ela sobrevive de um turismo de “fim de semana” que sobrecarrega a infraestrutura sem deixar a contrapartida necessária para o desenvolvimento urbano.
O IDH da região, segundo dados históricos, ainda luta para sair da faixa média, evidenciando que o dinheiro que circula nas casas de veraneio nem sempre chega às comunidades locais.
A crise do acesso
A economia de uma ilha depende da sua conexão com o continente. E é aqui que o modelo trava:
- O gargalo do ferry: O serviço da Internacional Travessias é alvo constante de críticas por atrasos, embarcações em condições precárias e um sistema de agendamento (Hora Marcada) que muitas vezes falha em momentos críticos, como o Carnaval ou feriados prolongados. Como noticiou o portal InfoSaj, a discrepância entre o que o app mostra e a realidade das filas gera revolta e espanta o investidor que busca previsibilidade.
- Segurança na berlinda: O Lado B mais sombrio de Itaparica é a segurança pública. De acordo com o jornal Correio, a ilha tornou-se território de disputa entre facções criminosas (como o BDM e o CV), que avançam sobre localidades como Mar Grande e Cacha Pregos. A posição estratégica da ilha, ótima para o turismo, também atrai a logística do crime, impactando diretamente a sensação de liberdade do visitante e a paz do morador.
A ponte da esperança (ou da incerteza)
A grande aposta para “salvar” a economia da ilha é a Ponte Salvador-Itaparica. O projeto, com investimento estimado em R$10,6 bilhões e participação de consórcios chineses, promete transformar a viagem de 1 hora de ferry em uma travessia de 15 minutos de carro.
- Impacto econômico: A expectativa é a geração de 7 mil empregos e o desenvolvimento de um novo vetor industrial e imobiliário.
- O contraditório: Especialistas alertam que, sem um plano de ordenamento urbano rígido, a ponte pode trazer para a ilha os problemas da capital: especulação imobiliária agressiva, favelização e pressão ambiental sobre os manguezais. A ponte encurta a distância, mas não resolve, por si só, a questão da segurança ou da desigualdade.

O que o leitor leva dessa história
Itaparica é o caso clássico de um destino que parou no tempo por falta de mobilidade. Para o empresário, a ilha representa um mercado reprimido gigantesco. Há demanda para serviços, hotelaria e lazer, mas o risco logístico (o ferry) e o risco social (segurança) ainda elevam o custo local.
A lição aqui é que ponte não é milagre. Se a gestão pública não organizar a casa antes da chegada do cimento, o “Lado B” de Itaparica pode passar de um isolamento bucólico para um caos metropolitano. O destino está em uma encruzilhada: ou se profissionaliza agora, ou verá sua identidade ser engolida pela própria facilidade do acesso.
Guia rápido
Localização e geografia
- A Ilha de Itaparica é a maior ilha marítima do Brasil, situada na Baía de Todos-os-Santos. É dividida em dois municípios: Itaparica (ao norte) e Vera Cruz (que ocupa 87% do território da ilha).
Como chegar
- Ferry-Boat: Travessia de veículos e passageiros (Terminal São Joaquim/ Bom Despacho). Tempo médio: 1h. Operado pela Internacional Travessias.
- Lanchas rápidas: Apenas passageiros (Terminal Turístico/Mar Grande). Tempo médio: 40 min.
- Via Terrestre: Pela BR-101 e Ponte do Funil (extremo sul da ilha)
O que a Ilha oferece
- Principais Praias: Mar Grande, Barra do Gil, Coroa, Aratuba, Berlinque e Cacha Pregos.
- Patrimônio: Centro Histórico de Itaparica, Forte de São Lourenço e a Fonte da Bica (conhecida pela água mineral com propriedades medicinais).
- Perfil Turístico: Predomínio de turismo de veraneio (casas de segunda residência) e náutico.
Itaparica em números (Censo 2022/dados 2026)
- População total: Aproximadamente 65 mil habitantes fixos (somando Itaparica e Vera Cruz), mas que chega a triplicar na alta temporada.
- Economia: Mais de 60% do PIB local depende direta ou indiretamente do turismo e serviços.
- A Grande obra: A Ponte Salvador-Itaparica tem investimento previsto de R$11 bilhões e extensão de 12,4 km, sendo a maior da América Latina.
- Empregos: A expectativa é que a construção da ponte gere até 7 mil empregos diretos no pico das obras.
O Lado B dos Destinos é uma coluna semanal do Indústria News que revela a economia, a indústria e as decisões que fazem um destino funcionar – ou entrar em tensão. Aqui, viagem não é fuga do noticiário. É outra forma de entender como cidades e regiões geram valor, emprego e identidade. A paisagem atrai. O modelo sustenta. O que você vai encontrar aqui? Análise leve, sem jargão; textos de fim de semana, com narrativa e contexto econômico; infraestrutura, investimentos, empregos, conflitos e oportunidades. Casos reais: o que deu certo, o que cobra seu preço e o que pode ser replicado.
Leia também: Índia quer produzir jato da Embraer
















