
Quem trabalhou no Polo Petroquímico de Camaçari nos anos 1980 e 1990 sabe bem do que se trata quando alguém menciona o nome Politeno. Era uma das empresas mais respeitadas do complexo industrial – e uma das mais premiadas do Brasil. Produtora de polietileno, a resina termoplástica que dá origem a sacolas de supermercado, embalagens, solados de calçado e dezenas de outros produtos do cotidiano, a Politeno foi durante três décadas um dos pilares silenciosos da industrialização baiana. Não fazia barulho no noticiário, mas movimentava bilhões e deixava sua marca em praticamente tudo que o consumidor tocava.
Fundada em 1974, a Politeno Indústria e Comércio S.A. nasceu com uma missão clara: produzir polietileno de baixa densidade para abastecer a nascente indústria petroquímica brasileira. Instalou-se estrategicamente no Polo de Camaçari, que iniciou as operações em 29 de junho de 1978, tornando-se o primeiro complexo petroquímico planejado do país.
A Politeno estava ali desde o começo, como parte da segunda geração petroquímica – aquela que transforma matérias-primas básicas, como o eteno, em resinas para a indústria de transformação. A partir de 1982, passou a produzir também copolímeros de Etileno Acetato de Vinila (EVA) e, em 1989, implantou uma unidade para fabricar polietileno linear de baixa densidade e polietileno de alta densidade. Com o tempo, tornou-se uma das empresas mais diversificadas do setor no país.
Seu portfólio cresceu junto com o mercado. Com capacidade instalada de 340 mil toneladas por ano, a Politeno chegou a produzir 56 produtos diferentes, muitos desenvolvidos sob medida para atender às especificações de clientes específicos Mas a história da Politeno não é só de escala – é também de superação.
No início dos anos 1990, a empresa enfrentou uma crise severa. Endividada em cerca de US$100 milhões e operando no vermelho, esteve próxima da bancarrota. A virada veio sob a gestão do executivo Jaime Sartori, que promoveu um ajuste rigoroso e reposicionou a companhia. Em 2004, o cenário já era outro: lucro operacional de R$145,3 milhões e geração de caixa superior a R$170 milhões, segundo reportagem da revista IstoÉ Dinheiro publicada em 25 de maio de 2005.
O auge técnico da companhia foi coroado em 2002, quando a Politeno recebeu o Prêmio Nacional da Qualidade (PNQ). Como destacou José Carlos Grubisich, então presidente da Braskem, em comunicado de 2006, a empresa aportou uma “bem-sucedida experiência em gestão com foco em qualidade e eficiência”. Essa herança nipônica de disciplina e melhoria contínua fez da Politeno uma das unidades mais cobiçadas do setor petroquímico brasileiro.
Se em 1994 a empresa registrava um prejuízo operacional de R$1,6 milhão, em 2004 o lucro da operação chegou a R$145,3 milhões. A geração de caixa, que não passava de R$37 milhões dez anos antes, escalou para R$170,1 milhões. A receita anual havia chegado a R$1,4 bilhão. Para uma empresa de médio porte num polo regional, era uma performance de respeito
Contradição
Mas havia uma contradição estrutural que corroía o futuro da Politeno por dentro, como uma rachadura invisível na fundação de um edifício. A Braskem era, ao mesmo tempo, a principal acionista da Politeno – com 35% do capital – e seu único fornecedor de eteno na Bahia. E a Braskem havia avisado que não podia garantir o fornecimento ininterrupto do insumo, exatamente o que a Politeno precisava para crescer.
A empresa tinha planos de expansão e dinheiro para investir. Sartori havia reservado US$25 milhões para ampliar a produção, mas não conseguia a matéria-prima para viabilizar o projeto. Sartori lamentava: “Mas sem a confirmação da Braskem, não posso fazer o investimento.” Era uma armadilha elegante: a Politeno estava saudável, mas presa. Esse impasse foi registrado pela revista IstoÉ Dinheiro em maio de 2005, numa reportagem de título certeiro: “Politeno estaciona”.
O desfecho viria em 2006. Em 5 de abril daquele ano, a Braskem anunciou a aquisição do controle total da empresa, comprando as participações da Suzano Petroquímica e dos grupos japoneses Sumitomo Chemical e Itochu. O negócio foi fechado por cerca de US$ 111,3 milhões, conforme divulgado em comunicado oficial da companhia e repercutido por veículos como a Reuters e o jornal A Tarde na mesma data.
Segundo a própria Braskem, a operação representava “um passo relevante na consolidação da petroquímica brasileira”, permitindo ganhos de escala e sinergias estimadas em US$110 milhões. A Politeno deixava de existir como empresa independente para ser absorvida em um projeto maior de integração industrial. Sua planta, em Camaçari, continuou operando – agora sob outra bandeira.
O fim
A história da Politeno é, no fundo, a história de uma empresa que venceu seus próprios demônios – saiu da beira da falência, conquistou prêmio nacional de qualidade e construiu uma gestão admirada -, mas não conseguiu sobreviver ao jogo de xadrez dos grandes grupos petroquímicos.
Não foi a concorrência que a derrubou, nem a má gestão, nem a crise. Foi a lógica da consolidação industrial globalizada: quando o sócio é também o seu único fornecedor, e decide que quer tudo, a negociação já começa com o resultado definido. A Politeno não fechou. Foi comprada. Mas, para quem viveu aquela era, é quase a mesma coisa.
Notas de pesquisa para o editor
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Fontes citadas: IstoÉ Dinheiro (maio/2005), Agência Reuters, Jornal A Tarde e Comunicados Oficiais Braskem (abril/2006).
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Dados-chave: Valor da venda (US$ 111,3 milhões), Prêmio Nacional da Qualidade (2002), Capacidade produtiva (360-400 mil toneladas).
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Por conta do feriado em homenagem a Tiradentes, não iremos publicar a coluna “Memória da Indústria” na próxima terça-feira, dia 21. Retornamos no dia 28. Até lá.
MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo – mesmo depois do fechamento de suas portas. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.
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