
Nesta quinta-feira (26), os Correios tentam, pela 19ª vez, o que tem se mostrado uma missão hercúlea: livrar-se de seu maior ativo imobiliário na Bahia. O complexo da Avenida Paulo VI, na Pituba, vai a leilão sob o estigma de sucessivos fracassos e uma desvalorização que agride a lógica de mercado.
O que vemos na Pituba é um estudo de caso sobre como a burocracia estatal destrói valor. Em 2019, o lance mínimo era de R$248 milhões. Hoje, o certame abre com R$130,3 milhões. Em menos de sete anos, o imóvel “derreteu” quase 50% de seu valor facial em termos nominais – sem contar a inflação do período, o que torna o prejuízo real ainda mais dramático.
O terreno soma 34,6 mil m², com cerca de 41,9 mil m² de área construída, incluindo edifício de 17 andares, centro de triagem, auditório e estruturas de apoio. No papel, um ativo robusto. Na prática, um passivo difícil de digerir.
O modelo de venda também não ajuda: pagamento à vista, entrada imediata, comissão de 5% ao leiloeiro e quitação total em até 60 dias. Pouco espaço para estruturação financeira – e muito risco concentrado.
Mas o principal entrave está no próprio ativo. Parte da área segue ocupada, com processo de reintegração de posse em andamento – custo e dor de cabeça que ficam integralmente com o comprador. No mercado imobiliário profissional, ninguém gosta de comprar briga judicial de terceiros.
Soma-se a isso um edifício típico dos anos 80: grande, rígido e caro de adaptar.
Retrofit? Complexo e caro para tentar modernizar uma planta ineficiente.
Demolição? Logística delicada e custo elevado em uma área densamente urbanizada.
O mercado já deu o recado nas tentativas anteriores: preço não é o único problema. Liquidez exige previsibilidade e esse ativo entrega justamente o oposto.
Enquanto tenta vender prédios, a estatal sangra internamente. O documento da Diretoria Econômico-Financeira (DIEFI) é um balde de água gelada: após projetar um déficit de R$ 6 bilhões em 2025, a estimativa para 2026 já escala para um rombo de R$ 9,1 bilhões.
Vender o prédio da Pituba não salvará o balanço dos Correios, mas mantê-lo é o símbolo máximo de uma gestão que assiste seus ativos apodrecerem enquanto as contas públicas sustentam a conta da ineficiência.
Amanhã saberemos se o mercado finalmente aceitará o risco ou se a “torre da Pituba” continuará sendo apenas um monumento ao desperdício no coração de Salvador.
Ouro sob disputa na Bahia
OTribunal de Justiça da Bahia derrubou a decisão que havia suspendido parcialmente a venda de ativos da Equinox Gold para a CMOC Brasil, em uma transação estimada em US$290 milhões. A disputa envolve o projeto Santaluz, na Bahia, onde a Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM) questiona não ter sido comunicada sobre a operação, apesar de deter direitos minerários.
O negócio também inclui ativos no Maranhão e em Minas Gerais.
Na decisão, o desembargador Cláudio Césare Braga Pereira entendeu que não houve mudança direta no controle da operação, mas sim na holding controladora – argumento central das empresas. Enquanto isso, os ativos seguem operando, e uma nova audiência está marcada para o fim do mês.
Por que importa?
O caso escancara um ponto sensível do ambiente de negócios: a insegurança jurídica em operações com ativos estratégicos. Mesmo com contratos vigentes, mudanças societárias podem gerar disputas prolongadas, especialmente quando envolvem entes públicos.
Para a Bahia, o episódio acende alerta. O estado busca atrair investimentos em mineração, mas ruídos regulatórios e conflitos sobre direitos minerários elevam o risco percebido por investidores.
No pano de fundo, está uma questão maior: governança e previsibilidade. Em setores intensivos em capital, como mineração, qualquer incerteza pode travar decisões bilionárias.
O recado do mercado é claro: sem clareza nas regras e alinhamento entre as partes, até ativos em operação viram disputa – e investimento vira cautela.
Mataripe no radar, mas sem pressa
A Petrobras respondeu a ofício da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva envolvendo a possível recompra da Refinaria de Mataripe (ex-Rlam), na Bahia.
A estatal afirmou que avalia continuamente oportunidades de investimento, incluindo a eventual aquisição do ativo hoje controlado pela Acelen, mas ressaltou que não há qualquer fato novo relevante a ser divulgado ao mercado. Segundo a companhia, o tema já foi mencionado em comunicações anteriores e segue no campo de análise.
O que observar?
A resposta é protocolar, mas o tema está longe de ser trivial. A Refinaria de Mataripe virou símbolo da política de desinvestimentos da Petrobras – e sua possível recompra carrega forte peso político e econômico.
Para o mercado, o ponto central é previsibilidade. Sinais de revisão de ativos vendidos no passado levantam dúvidas sobre segurança jurídica e diretrizes de longo prazo da companhia.
Na prática, a Petrobras mantém a porta aberta, mas sem compromisso. O recado implícito: há interesse estratégico, mas qualquer movimento dependerá de condições econômicas, governança e alinhamento político.
Para a Bahia, o tema é ainda mais sensível. A refinaria impacta diretamente preços de combustíveis, arrecadação e dinâmica industrial do estado. Mais do que uma operação, trata-se de um ativo-chave e de uma decisão que pode redesenhar o setor de refino no Brasil.
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