
Era outubro de 2001. Camaçari, na Região Metropolitana de Salvador, recebia uma das maiores plantas industriais já construídas fora do eixo Sul-Sudeste do Brasil. Com um investimento de US$1,2 bilhão, a Ford inaugurava ali o que seria, por duas décadas, o maior orgulho da indústria baiana. Primeira fábrica de veículos instalada em um estado do Nordeste, a unidade de Camaçari tornou-se um marco na diversificação da indústria baiana, tradicionalmente voltada à fabricação de matérias-primas – caso das unidades do Polo Petroquímico – ou produtos de baixo valor agregado. Para a Bahia, era uma virada histórica. Para quem trabalhava lá, era, como muitos disseram anos depois, “uma segunda família”.
A história dessa conquista, porém, começa no Sul. Inicialmente previsto para ser instalado no Rio Grande do Sul, o projeto da nova fábrica da Ford foi suspenso em abril de 1999, quando o governador Olívio Dutra (PT) rompeu o contrato que havia assinado com a montadora no ano anterior. A recusa de Dutra gerou enorme polêmica. Na época, o petista foi vilipendiado como o governador que “expulsou” a Ford. Anos depois, sua profecia – “o dia que achar que o Brasil não serve mais, vai embora e não dá nem tchau” – se provaria certeira. Mas, naquele momento, a Bahia enxergou a janela e entrou de cabeça.
A sedução foi calculada e agressiva. Com um pacote robusto – terrenos, benefícios fiscais, qualificação de mão de obra, fornecimento de energia elétrica, água potável e gás natural, melhoria do sistema viário de acesso e estrutura logística, incluindo porto – o estado “seduziu” a montadora e mudou seu próprio destino industrial. Conforme registrou o jornal Folha de S.Paulo na época, o estado ofereceu um “porto seguro” para os bilhões de dólares que mudariam o PIB baiano.
No campo político, o então presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (ACM), usou todo o seu peso. Sob seu comando, foi aprovada uma lei ampliando o prazo para habilitação das montadoras ao regime automotivo especial para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. A emenda, que ficou conhecida como “emenda Ford”, possibilitava uma renúncia fiscal de R$700 milhões por ano. A pressão dos baianos acabou acirrando os atritos entre ACM e o então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que acabaria sendo representado pelo vice Marco Maciel na inauguração da fábrica. A política também foi parte da máquina.

Reportagem publicada pelo jornal Correio da Bahia no início das operações da Ford em Camaçari
Prodígio tecnológico
A fábrica que nasceu ali era, para os padrões da época, um prodígio tecnológico. O complexo operava com um modelo de produção sincronizado, sem estoques de peças, com 26 fornecedores instalados dentro do próprio complexo. Era o chamado regime de sistemistas, uma novidade no Brasil, em que dezenas de empresas parceiras produziam componentes em tempo real, integradas à linha de montagem principal.
A automação era igualmente impressionante: em seu auge, a planta produzia um carro a cada 80 segundos, em três turnos, com capacidade para até 250 mil unidades por ano – e era capaz de produzir até cinco modelos diferentes simultaneamente. Em 2014, viria ainda a inauguração de uma fábrica de motores, a primeira do Nordeste, completando o ecossistema industrial.
O primeiro carro a sair das linhas de Camaçari foi o Novo Fiesta, em 2002, batizado internamente como parte do “Projeto Amazon”. O lançamento estreou no segmento de compactos premium e vendeu 50.000 unidades em apenas seis meses. Logo depois viria o filho mais famoso da fábrica baiana: o EcoSport. Apresentado no Salão do Automóvel de 2002 e lançado em abril de 2003, o modelo chegou às concessionárias e teve fila de espera já no primeiro ano, com cerca de 30 mil unidades vendidas.
Curiosamente, o EcoSport nasceu de um rabisco feito num guardanapo de restaurante, em 1996, pelo engenheiro-chefe da Ford, Luc de Ferran, o mesmo responsável por conceber o sistema de produção de Camaçari. Na soma das duas gerações, o EcoSport chegou a mais de 1,2 milhão de unidades produzidas em Camaçari, sendo vendido em mais de 150 países. O SUV compacto que nasceu no Nordeste brasileiro conquistou o planeta.
Impacto social e econômico
O impacto social e econômico era proporcional à grandiosidade da fábrica. No seu auge, a Ford era uma cidade dentro da cidade. O Sindicato dos Metalúrgicos de Camaçari estimava que a fábrica gerava 12 mil empregos diretos – 5 mil da própria Ford e 7 mil nas sistemistas – e outros 60 mil postos indiretos. Ao longo de duas décadas, a Ford puxou para a Bahia fábricas de pneus como Bridgestone e Continental, além de centenas de fornecedores de médio e pequeno porte. O município de Camaçari, o estado da Bahia e dezenas de famílias construíram seus projetos de vida à sombra daquela chaminé.
O impacto econômico era brutal: a montadora chegou a representar uma fatia de dois dígitos no Valor de Transformação Industrial (VTI) da Bahia. Era o orgulho de uma mão de obra qualificada em centros técnicos criados especificamente para atender à precisão exigida pela engenharia americana.
Pandemia e fechamento
Os primeiros sinais de problema, porém, vieram antes da pandemia. A crise da indústria automotiva global, a queda nas vendas no mercado brasileiro após 2014, o encolhimento da capacidade produtiva e os sucessivos anos de prejuízo já colocavam a viabilidade da operação em xeque. Em 2019, a Ford já havia encerrado sua fábrica em São Bernardo do Campo.
A pandemia de Covid-19, em 2020, foi o golpe final: ampliou a capacidade ociosa e derrubou ainda mais as vendas. No dia 11 de janeiro de 2021, a montadora anunciou o encerramento de todas as suas operações fabris no Brasil. As instalações, antes pulsantes, tornaram-se monumentos de silêncio da noite para o dia. A empresa previu despesas decorrentes da decisão na ordem de US$4,1 bilhões, dos quais aproximadamente US$1,6 bilhão relacionado ao impacto contábil de créditos fiscais, depreciação e amortização de ativos, incluindo incentivos concedidos pelo governo da Bahia.
O setor produtivo baiano entrou em estado de choque. Em frente à fábrica, metalúrgicos choraram. Na imprensa, a pergunta era uma só: como um projeto tão grande pôde terminar assim? O pós-Ford foi, inicialmente, de incerteza. O complexo, que já havia sido um símbolo de modernidade, tornou-se um vazio. Trabalhadores precisaram se reinventar, fornecedores buscaram novos mercados e o governo correu para evitar um colapso mais amplo.
Conta salgada
A conta do adeus foi salgada para o estado. Calcula-se que a Bahia renunciou cerca de R$20 bilhões em incentivos fiscais ao longo das duas décadas de operação da Ford. O impacto imediato da saída foi estimado em cerca de R$5 bilhões na economia estadual. Críticos lembraram que o ex-governador gaúcho Olívio Dutra – atacado por anos por ter recusado as exigências da montadora – havia previsto exatamente aquele desfecho. A história, enfim, o absolveu.
O epílogo, porém, tem ares de renascimento. Em outubro de 2023, Ford e governo da Bahia assinaram o contrato de transação para reversão da fábrica ao Estado, permitindo a utilização imediata do imóvel. O espaço que um dia abrigou o Fiesta e o EcoSport passou a receber a BYD, montadora chinesa líder global em veículos elétricos, e a primeira do segmento a se instalar no Brasil.
Pouco mais de dois anos após comprar as instalações, a BYD inaugurou sua fábrica em Camaçari, de onde saem carros puramente elétricos e híbridos. O mesmo chão que conheceu a revolução dos compactos nacionais nos anos 2000 agora protagoniza a revolução elétrica.
A Ford na Bahia deixa uma lição sobre a volatilidade das cadeias globais, mas também sobre a capacidade do estado em se posicionar no xadrez econômico. O “azul” da Ford deu lugar ao “verde” da BYD, mas a história de Camaçari como coração industrial do Nordeste permanece viva, escrita em cada chapa de aço que cruzou aquele portão.
MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo – mesmo depois do fechamento de suas portas. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.
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