A Braskem divulgou seu Relatório de Produção e Vendas do quarto trimestre e do acumulado de 2025 confirmando um ano de retração operacional no Brasil, em um cenário marcado pela crise da indústria química e petroquímica nacional e pelo avanço de produtos importados no mercado doméstico. No segmento Brasil/América do Sul, a taxa média de utilização das centrais petroquímicas ficou em 68% em 2025, redução de 4 pontos percentuais frente a 2024. A queda foi explicada principalmente pela adequação da produção à menor demanda interna e pela parada programada de manutenção na central petroquímica da Bahia, concluída apenas em janeiro passado.
O volume de vendas de resinas recuou 5% no comparativo anual. A retração foi puxada pelas vendas de polipropileno (PP), que caíram 8%, PVC (-7%) e polietileno (PE) (-3%). Segundo a companhia, o desempenho reflete a estratégia de priorização de vendas com maior valor agregado e, sobretudo, a menor demanda no mercado brasileiro, que encolheu 3%.
Em contrapartida, as exportações de resinas cresceram 7% em 2025, impulsionadas pelo aumento das vendas de PE (+11%) e PP (+10%) para a América do Sul. O avanço foi favorecido pela maior disponibilidade de produto diante da retração do consumo doméstico.
No segmento de químicos básicos, o volume de vendas caiu 5% em relação a 2024, impactado pela menor demanda por propeno, cumeno, eteno e paraxileno, em um contexto de otimização operacional por parte dos clientes industriais. Já as exportações desses produtos recuaram 27%, afetadas principalmente pela priorização do mercado interno no caso da gasolina, pelas tarifas de importação dos Estados Unidos sobre o benzeno e pela menor demanda por tolueno.
Outro ponto relevante foi a redução de 11 pontos percentuais na taxa média de utilização do eteno verde, impactada por uma parada não programada decorrente de falha elétrica na subestação do Rio Grande do Sul no primeiro trimestre e pela estratégia de ajuste de estoques de PE Verde.
Nos Estados Unidos e Europa, a taxa média de utilização das plantas de PP permaneceu estável em 74% no acumulado do ano, embora o quarto trimestre tenha sido marcado por pressão nos spreads internacionais diante do excesso de oferta global e da intensificação das incertezas geopolíticas.

Análise
O que aconteceu
O desempenho de 2025 mostra três movimentos centrais:
- Redução da atividade no Brasil, com menor utilização das centrais e queda nas vendas domésticas.
- Redirecionamento para exportações, como válvula de escape diante da retração interna.
- Pressão estrutural de spreads, causada pelo excesso de oferta global e pelo avanço das importações no mercado brasileiro.
A parada programada na Bahia agravou pontualmente os números, mas o cenário de fundo é mais amplo: a indústria química e petroquímica brasileira operou abaixo do potencial ao longo do ano.
Por que isso importa
A taxa de utilização de 68% é um indicador crítico. A petroquímica é uma indústria de alta intensidade de capital e depende de elevada ocupação das plantas para diluir custos fixos. Operar abaixo de 70% compromete margens, competitividade e capacidade de reinvestimento.
Além disso:
- A queda da demanda doméstica revela enfraquecimento da cadeia de transformação.
- O avanço das importações pressiona preços e desloca produção nacional.
- A redução nas exportações de químicos básicos indica perda de competitividade em determinados mercados estratégicos.
O resultado da companhia reflete um problema sistêmico da indústria química brasileira, que enfrenta concorrência internacional com custos energéticos mais baixos, subsídios indiretos e políticas industriais agressivas em outros países.
O que fazer com essa informação
Para a indústria e formuladores de política pública, o relatório reforça alguns alertas:
- Necessidade de medidas de defesa comercial e isonomia competitiva, especialmente frente à entrada de produtos importados com preços depreciados.
- Agenda de redução de custos estruturais, incluindo energia, gás natural e logística.
- Estímulo à demanda interna, fortalecendo setores consumidores de resinas e químicos.
- Aceleração da transição para produtos de maior valor agregado e menor pegada de carbono, como o eteno verde, reduzindo exposição a commodities de baixa margem.
Para investidores e empresas da cadeia, o sinal é claro: 2025 foi um ano de ajuste e sobrevivência operacional, não de expansão. A recuperação dependerá menos de eventos pontuais – como a parada na Bahia – e mais da recomposição estrutural da competitividade da indústria nacional.
Em síntese, o desempenho da Braskem em 2025 não é apenas um balanço corporativo: é um retrato fiel das tensões que atravessam a base industrial brasileira.
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