A indústria de calçados da Bahia exportou 4.035.888 pares em 2025, alta de 8,8% sobre o ano anterior. À primeira vista, boa notícia. Mas o caixa contou outra história.
A receita caiu 11,6% e fechou pouco acima de US$72,2 milhões. Ou seja: vendeu mais, faturou menos. Um sinal clássico de pressão competitiva, e de alerta ligado.
O principal fator está fora do estado e do país. Com o tarifaço americano e a concorrência dos países asiáticos, as empresas baianas foram obrigadas a recalcular rota. Na busca por novos mercados, o preço virou arma. E o desconto, estratégia de sobrevivência.
O resultado aparece no ticket médio: o valor do par exportado caiu de US$22,04, em 2024, para US$17,91 em 2025, numa redução de quase 20%, segundo a Abicalçados. Volume garantido, margem comprimida.

E o futuro?
Dezembro trouxe um sinal de inflexão. As exportações cresceram 35,8% em volume e 18,6% em faturamento, na comparação anual. Ainda assim, o preço médio recuou para US$16,85. O mercado respondeu, mas a rentabilidade segue no centro do debate.
O setor calçadista é intensivo em mão de obra, espalhado por vários municípios do interior e responsável por cerca de 45 mil empregos na Bahia. Não é detalhe: é política econômica regional na prática.
O desafio está posto. Exportar mais é importante. Exportar melhor é urgente.
Valor agregado, design, marca, diversificação de mercados e acordos comerciais não são mais agenda de médio prazo – são condição de competitividade.
Nos bastidores, o diagnóstico é conhecido: falta uma política industrial e de comércio exterior conectada com a realidade de quem produz. Instrumentos existem. BNDES, Apex, linhas de crédito, programas federais e estaduais.
Mas o efeito prático ainda é limitado, pulverizado e pouco conectado à realidade de quem produz no interior do estado, gera emprego e sente o custo Brasil no dia a dia.
Boom sobre duas rodas
Quem acelerou forte em 2025 foi o mercado automotivo. A Bahia se destacou. Foram 266,3 mil veículos emplacados no estado, alta de 18,65%, mais que o dobro do crescimento nacional (8,2%). Números de euforia.
Mas o detalhe que realmente importa está nas duas rodas.
As motocicletas somaram 154,2 mil unidades, avanço de 26,27%, respondendo por quase 58% de todas as vendas de veículos no estado.
Nos bastidores, ninguém trata isso como simples preferência do consumidor. A moto virou meio de trabalho, renda e sobrevivência, empurrada por crédito acessível, informalidade crescente e mobilidade urbana que deixa a desejar.
O efeito colateral já é conhecido. E incômodo. Explosão de acidentes, pressão sobre hospitais, custo social em alta. Vende-se muito hoje, transfere-se a conta para a saúde pública amanhã.
Automóveis e picapes cresceram 11,08%; ônibus dispararam 50,46%, enquanto caminhões e máquinas agrícolas ficaram para trás, outro sinal de que o crescimento tem mais cara de consumo imediato do que de investimento produtivo.
Para 2026, a grande incógnita não é a demanda. É o crédito.
Com juros ainda elevados, famílias mais endividadas e bancos recalibrando risco, o motor que sustentou o boom de 2025 pode perder fôlego. A indústria automotiva já faz contas mais conservadoras e revê projeções.
Menos parcela longa, mais seletividade. O volume pode até resistir, mas o ritmo não será o mesmo.
100.000
A Bahiagás alcançou a marca de 100 mil clientes e fechou 2025 com um número simbólico e relevante. O avanço do gás natural no estado é inegável e ganhou capilaridade, sobretudo no segmento residencial e no interior. O próximo passo, porém, é menos comemorativo e mais desafiador: converter escala em custo competitivo e serviço eficiente. Porque, para a indústria, energia não pode ser só alternativa, tem que ser vantagem.
R$ 90 milhões para manter a fila
O Sistema Ferryboat vai ganhar mais uma embarcação. O investimento: R$90,9 milhões.
Até aí, tudo certo, não fosse um detalhe nada irrelevante.
Quem banca a conta é o governo da Bahia.
Quem explora o sistema é a Internacional Travessias.
Funciona assim: o setor público investe, o privado opera, arrecada e lucra. O bônus fica de um lado. O ônus, do outro. Dinheiro público, do contribuinte, meu, seu.
E o passageiro? Segue pagando com tempo perdido, filas intermináveis e serviço precário, ruim. Um roteiro conhecido de quem depende da travessia Salvador–Itaparica.
E a Agerba? Nada faz.
Se o Estado financia o sistema, a pergunta é inevitável: qual é a contrapartida exigida da concessionária? Porque até aqui, o que se entrega ao usuário está longe de justificar novos aportes públicos.
Investir em mobilidade é necessário. Bancar ineficiência, não.
Sem metas claras, padrões de atendimento e cobrança real, o risco é simples: melhorar o ativo, manter o problema e institucionalizar a fila.
No ferry, como sempre, quem paga atravessa esperando.
Radar da Indústria é uma coluna semanal sobre os movimentos que moldam a indústria e a economia da Bahia. Aqui, investimentos, negócios, energia, infraestrutura e política econômica são analisados sem maquiagem. O foco está no que muda o jogo – e no que trava o desenvolvimento. Com informação, bastidor e leitura crítica, o Radar aponta riscos, oportunidades e contradições. Porque entender a indústria é entender o futuro do estado.
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