
O cheiro da nafta no ar. As chamas das tochas iluminando a noite. A sirene anunciando a troca de turno. Os ônibus lotados cruzando a Estrada do Coco ainda de madrugada. Para quem viveu a Bahia entre os anos 1980 e 2000, essas lembranças fazem parte da memória coletiva de uma geração. Durante décadas, o Polo Petroquímico de Camaçari não foi apenas um conjunto de fábricas. Foi um símbolo de progresso, estabilidade e ascensão profissional para milhares de famílias baianas.
O projeto nasceu de um sonho maior do que a Bahia. Quando foi inaugurado, há 48 anos, o Polo Petroquímico de Camaçari estava inserido num projeto nacional de desenvolvimento. A Bahia perdera para Pernambuco a liderança industrial do Nordeste ainda na década de 1930, e esse espaço só começou a ser recuperado a partir dos anos 1950, com a descoberta de petróleo e a instalação da Refinaria Landulpho Alves, em Mataripe.
A ideia do complexo foi concebida pelo economista baiano Rômulo Almeida, mas levou décadas para sair do papel. Antes, foi preciso vencer uma disputa com o Rio Grande do Sul para sediar aquele que seria o primeiro polo petroquímico planejado e integrado do Brasil. A escolha levou em conta fatores decisivos: a proximidade dos campos de petróleo do Recôncavo baiano, a infraestrutura do Porto de Aratu, a disponibilidade de áreas para expansão e a posição logística privilegiada no Nordeste. Historiadores e pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (Ufba) consideram essa decisão um divisor de águas para a economia baiana.
A inauguração aconteceu em 29 de junho de 1978, com a presença do então presidente Ernesto Geisel, que enxergava a petroquímica como um setor estratégico para reduzir a dependência brasileira de produtos importados e impulsionar a industrialização nacional. O complexo entrou em atividade com o título de primeiro polo petroquímico planejado do País, localizado a 50 quilômetros de Salvador. O modelo adotado foi tripartite, reunindo Estado, capital privado nacional e investimento estrangeiro numa arquitetura inédita para o Nordeste.
Nascia ali uma verdadeira “cidade da indústria”, planejada para funcionar 24 horas por dia, sete dias por semana, com empresas compartilhando matérias-primas, infraestrutura e tecnologia em um modelo que mais tarde seria estudado por universidades brasileiras e estrangeiras.
A Copene
No centro dessa engrenagem estava a Copene. A empresa, uma espécie de coração do sistema, fornecia as matérias-primas básicas – etileno, propeno, butadieno – para as indústrias de segunda e terceira geração instaladas ao redor. Era uma cadeia produtiva integrada, pensada do começo ao fim.
Ao seu redor surgiram empresas como Politeno, Nitrocarbono, Nitroclor, Acrinor, Deten, Companhia Petroquímica de Camaçari (CPC), Dow Química e Caraíba Metais. Das unidades industriais saíam resinas plásticas, fertilizantes, fibras sintéticas, solventes, detergentes, PVC e diversos insumos que abasteciam fábricas espalhadas por todo o Brasil.
O Polo transformou completamente Camaçari. Em poucos anos, a cidade deixou de ter perfil predominantemente agrícola para se tornar um dos maiores centros industriais do país. Vieram novos bairros, hotéis, restaurantes, escolas técnicas, transportadoras e empresas de engenharia, manutenção e montagem industrial. O mercado imobiliário da Região Metropolitana de Salvador também acompanhou esse movimento, impulsionado pela chegada de engenheiros, químicos e técnicos especializados vindos de diferentes estados.
“Conseguir um emprego no Polo virou sinônimo de sucesso profissional. Os salários eram superiores à média da época, havia planos de carreira, assistência médica, transporte, alimentação e intenso investimento em qualificação”, lembra o engenheiro mecânico Rafael Dantas, que trabalhoiu no Polo por mais de 25 anos. Assim como ele, ,muitos trabalhadores passaram toda a vida profissional dentro do complexo.
A Escola Técnica Federal da Bahia, no Barbalho, formou milhares de trabalhadores para o conglomerado industrial. O Senai ampliou cursos voltados para operação industrial, instrumentação, mecânica e química, enquanto a Ufba passou a formar uma geração de engenheiros que encontrava no Polo um dos principais mercados de trabalho do Nordeste.
A força do complexo
No auge, nos meados dos anos 1980, a força do complexo era impressionante. Segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), as empresas do Polo chegaram a empregar 25 mil trabalhadores diretos, numa relação de um efetivo para três terceirizados ou subcontratados.
Um veterano daquela época, o professor José Afonso Baltazar da Silveira, registrou em depoimento publicado pelo portal Movimento Cidade Sustentável que “trabalhar no Polo Petroquímico de Camaçari era um sinal de progresso e sucesso profissional” — e que, décadas depois, ao retornar ao complexo, ficou “assustado com a decadência” de parte daquele espaço que guardava memórias de uma “época áurea”. A frase captura com precisão o que o Polo representou para uma geração inteira de baianos.
A cultura criada pelo complexo ultrapassava os portões das fábricas. Clubes recreativos das empresas reuniam milhares de famílias em campeonatos esportivos, festas e confraternizações. As Semanas Internas de Prevenção de Acidentes (Sipat) mobilizavam trabalhadores durante vários dias.
Os rígidos protocolos de segurança fizeram do uso de equipamentos de proteção um padrão muito antes de essa preocupação ganhar força em outros setores da economia. E havia um detalhe que todo morador da Região Metropolitana conhecia: quando o vento mudava de direção, o característico cheiro da nafta denunciava que o Polo seguia operando a pleno vapor.
A reestruturação
Entre os anos 1980 e 1990, o complexo viveu seu auge. Segundo dados do Comitê de Fomento Industrial de Camaçari (Cofic), o Polo chegou a reunir mais de 90 empresas e responder por aproximadamente 20% do Produto Interno Bruto (PIB) da Bahia, além de representar parcela expressiva das exportações estaduais. Não era exagero dizer que, quando o Polo acelerava a produção, praticamente toda a economia baiana sentia os efeitos positivos.
Os anos 2000 marcaram uma profunda reestruturação. A Copene foi incorporada ao processo que culminou na criação da Braskem, consolidando a petroquímica brasileira em uma empresa de escala global. Pouco depois, chegou a Ford.
O Complexo Industrial Ford Nordeste representava o maior e mais recente investimento da montadora em todo o mundo, estimado em US$ 1,2 bilhão, com capacidade para produzir 250 mil veículos por ano. A chegada da montadora americana foi tão transformadora que mudou até o nome do lugar: o antigo Polo Petroquímico passou a se chamar, oficialmente, Polo Industrial de Camaçari. Junto com a Ford vieram fabricantes de pneus, autopeças e fornecedores de toda a cadeia automotiva. A diversificação era um fato consumado.
Mas o capítulo da Ford também seria o mais doloroso. Em janeiro de 2021, a montadora encerrou todas as operações industriais no Brasil. A saída deixou cerca de 9 mil trabalhadores diretos e 3 mil indiretos desempregados, além de retirar R$ 20 milhões mensais em salários da economia local.
Uma pesquisa publicada pela Revista Econômica do Nordeste identificou forte dependência do mercado de trabalho de Camaçari em relação à montadora, com trabalhadores especializados concentrados na indústria de transformação, o que dificultou sua realocação no mercado regional.
A esperança voltou com sotaque chinês. A BYD assumiu o complexo em outubro de 2023 e comprometeu investimentos de R$ 5,5 bilhões. Com capacidade inicial de 150 mil carros por ano e plano de dobrar esse volume na segunda fase, a unidade baiana torna-se o principal polo de produção da marca fora da China.
A transição, contudo, não é livre de turbulências: a empresa enfrentou uma crise em dezembro de 2024, quando auditores do Ministério do Trabalho resgataram trabalhadores chineses em condições análogas à escravidão nas obras da fábrica, o que levou ao rompimento do contrato com a construtora terceirizada.
Análise Indústria News
Aos 48 anos, o Polo Industrial de Camaçari não é uma memória, é um organismo vivo e em mutação. O complexo fatura anualmente de US$ 15 bilhões, responde por 15% do total exportado pela Bahia e gera mais de R$4 bilhões anuais em ICMS para o estado. Sua área física mais que dobrou, passando de 13,4 mil para 29,3 mil hectares. O que nasceu como polo petroquímico tornou-se um conglomerado que vai de resinas plásticas a energia eólica, de fármacos a veículos elétricos.
Para o Indústria News, a lição que o Polo ensina ao longo de quase cinco décadas é precisa: nenhuma indústria sobrevive sem reinvenção. Camaçari reinventou-se da Copene para a Braskem, da Ford para a BYD — e cada transição custou sacrifícios reais a trabalhadores reais. O cheiro ainda existe. Mudou um pouco. Mas continua sendo o cheiro do futuro.
O Polo continua sendo o maior patrimônio industrial da Bahia e um dos principais exemplos de como infraestrutura, inovação e capacidade de adaptação podem moldar o desenvolvimento econômico de um estado por várias gerações.
O POLO HOJE
- Início de Atividades: 29.06.1978
- Empresas em operação: mais de 80
- Principais segmentos:
Químico – Petroquímico
Química Fina (fármacos)
Celulose
Têxtil
Metalurgia do Cobre
Fertilizantes
Pneus
Automotivo
Energia Eólica
Bebidas
Serviços
- Empregos: 10 mil diretos / 40 mil indiretos
- Faturamento: US$ 15 bilhões/ano
- Exportações: mais de 15% do total exportado pelo Estado da Bahia
- Impostos: mais de R$ 4 bilhões/ano em ICMS para o Estado da Bahia/mais de 90% da receita tributária de Camaçari e Dias D’Ávila
- Participação no PIB da Indústria de Transformação/Bahia: 22%
MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo – mesmo depois do fechamento de suas portas. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.
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