
Na memória industrial da Bahia, a Papaiz deixou mais do que uma marca. Deixou um som – o clique seco do cadeado fechando -, um hábito doméstico e um marco urbano. Durante décadas, a unidade instalada no bairro de Pirajá foi parte da paisagem econômica de Salvador e referência para milhares de famílias que viam na fábrica um raro passaporte para o emprego formal na indústria.
Fundada em 1952 pelo imigrante italiano Luigi Papaiz, a companhia nasceu em São Paulo e ganhou projeção nacional ao transformar um produto funcional em item de consumo com identidade própria. Segundo o portal institucional da própria empresa, a marca foi pioneira ao introduzir design e estilo no mercado de cadeados e fechaduras residenciais no Brasil.
A chegada da Papaiz à Bahia ocorreu em 2000, com a inauguração da chamada Papaiz Nordeste, em Salvador. O movimento ganharia dimensão maior em 2008, quando a companhia decidiu concentrar praticamente toda a produção baiana. Na época, como registrou o Valor Online, o plano previa investimento de R$12 milhões para ampliar a unidade em 10 mil metros quadrados, modernizar equipamentos e reduzir em até 30% os custos operacionais. A Bahia, naquele momento, oferecia mão de obra mais barata, um mercado imobiliário em expansão e condições competitivas para uma indústria de acabamento voltada à construção civil.
Foi o auge da operação baiana. A transferência de parte relevante da produção que estava em Diadema trouxe novos postos de trabalho para Salvador. Enquanto cerca de 400 vagas eram fechadas em São Paulo, a estimativa era de contratação de aproximadamente 500 trabalhadores na capital baiana, conforme noticiou o Valor Online. Em pouco tempo, a planta de Pirajá se consolidou como uma engrenagem importante na economia do bairro e de regiões vizinhas.
Concorrência chinesa
A Papaiz viveu também um capítulo curioso naquele período. Ao mesmo tempo em que crescia apoiada no boom da construção civil, tentava se diferenciar da concorrência chinesa com inovação de produto. Em 2008, lançou cadeados coloridos e linhas com apelo de design – um detalhe aparentemente pequeno, mas simbólico de uma indústria tradicional tentando agregar valor num mercado cada vez mais pressionado por escala e preço. Esse movimento foi destacado pelo Valor Online ao tratar da estratégia de diversificação da empresa.

Os primeiros sinais de mudança estrutural vieram de fora. A competição global, especialmente com produtos asiáticos, passou a apertar as margens. Em 2015, o grupo familiar vendeu a operação para a multinacional sueca Assa Abloy. Em entrevista ao Diário do Grande ABC, Sandra Papaiz resumiu o ambiente daquele momento ao afirmar que as empresas familiares do setor estavam ficando pequenas demais diante da consolidação internacional. “Resistimos muito contra os chineses, mas a coisa começa a ficar desigual. Começávamos a ficar muito pequenos, como um barquinho no oceano”, disse ela. As fábricas da Papaiz e da Udinese somavam, então, faturamento líquido anual de R$ 220 milhões.
Quando a venda foi anunciada, o discurso era de expansão. O Jornal Correio* registrou, à época, a expectativa de transformar Salvador em um polo exportador e ampliar o portfólio produzido na Bahia. Mas o roteiro mudou. Em fevereiro de 2024, a Papaiz e a marca La Fonte anunciaram a transferência das operações de Salvador para Porto Feliz, em São Paulo. Segundo a empresa, “a decisão estava alinhada à estratégia de concentrar a produção mais próxima da cadeia de suprimentos e facilitar o escoamento nacional”.
O paradoxo não passou despercebido: a mesma lógica que em 2008 havia levado a Papaiz para a Bahia – eficiência operacional – era agora o argumento para tirá-la de lá. As negociações com o Sindicato dos Metalúrgicos foram tensas, mas produziram resultados. A entidade garantiu demissões graduais, pagamento integral das rescisões, manutenção do plano de saúde até o final de 2024, cesta básica por seis meses após a dispensa e suporte para recolocação profissional.
Trabalhadores que aceitaram a transferência para São Paulo receberam adicional de 25% e passagens mensais para visitar as famílias. Foi o mínimo possível diante de um impacto que não se mede só em contracheques. Com o fechamento, o comércio local também sentiu os efeitos. Restaurantes, padarias e pequenas lojas que dependiam do movimento diário dos trabalhadores perderam boa parte de sua clientela.
O fechamento da unidade de Pirajá teve impacto imediato. O perfil comunitário da fábrica sempre foi forte: muitos moradores de Pirajá, de bairros vizinhos e até de outras áreas de Salvador passaram por seus portões em algum momento da vida profissional.
Novos rumos
Mas a história da Papaiz com a Bahia não terminou no fechamento industrial. Em março de 2026, o Grupo Papaiz anunciou novo investimento em Salvador: R$50 milhões em um empreendimento logístico, em consórcio com a Log Commercial Properties, justamente na área da antiga fábrica de Pirajá. A previsão é de 500 empregos diretos.
Segundo a Secretaria de Desenvolvimento Econômico da Bahia (SDE), o grupo manteve a propriedade do imóvel e decidiu reaproveitar o ativo numa nova vocação econômica. É um desfecho revelador: onde antes saíam cadeados e fechaduras, deve entrar e sair mercadoria. A indústria se foi, mas o endereço, de alguma forma, continua produzindo valor para a Bahia. A história, como os bons cadeados, encontrou uma nova chave.
MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo – mesmo depois do fechamento de suas portas. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.
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