
Dezoito mil toneladas de etano viajando a menos 90 graus Celsius dentro dos tanques. Um comandante alemão de 36 anos. Vinte tripulantes de cinco nacionalidades. Cento e oitenta e oito metros de comprimento – quase dois campos de futebol enfileirados. O Brilliant Future, o “Futuro Brilhante” em bom português, atracou no Porto de Aratu e atraiu olhares curiosos de quem passava pela Baía de Todos-os-Santos. Para a Braskem, é muito mais que um navio: é uma aposta estratégica em logística, competitividade e sustentabilidade num dos momentos mais duros da indústria petroquímica global.
Tive a oportunidade de visitar a embarcação esta semana, junto com outros quatro jornalistas, acompanhado pelo diretor industrial da Braskem na Bahia, Carlos Alfano, e outros executivos da empresa. Percorremos o navio de ponta a ponta – da sala de máquinas ao posto de comando. Conversamos com o comandante e com membros da tripulação, que explicaram como aquela estrutura monumental opera. Chegar à sala de controle e entender que tudo naquele navio – temperatura dos tanques, consumo de combustível, rota, propulsão – é monitorado com precisão cirúrgica impressiona qualquer um.
O Brilliant Future faz parte de uma iniciativa que a Braskem começou a desenhar em janeiro de 2024: a criação da Braskem Trading & Shipping (BT&S), sua companhia de navegação internacional, voltada ao transporte de matérias-primas e combustíveis em rotas globais. A lógica é simples e poderosa. “A logística tem cada vez mais participação relevante nos resultados”, explica Alfano. “Com a frota própria, a gente ganha em redução de custos com fretes, flexibilidade e competitividade.” O resultado já aparece nos números: a operação entrega uma economia superior a 30% nos custos logísticos.

O etano e a janela de oportunidade
A viagem do Texas, nos Estados Unidos, à Bahia durou 15 dias. A bordo, mais de 18 mil toneladas de etano – matéria-prima petroquímica que, até há pouco tempo, as unidades de Camaçari nem consumiam. As plantas da Braskem na Bahia operavam exclusivamente com nafta, derivada do petróleo. Mas o mundo mudou, e a empresa soube enxergar a janela.
O shale gas é um gás natural não convencional aprisionado em rochas sedimentares de baixa permeabilidade (folhelho) a grandes profundidades. Sua extração revolucionou a matriz energética, especialmente nos EUA
O avanço do shale gas – o gás de xisto – nos Estados Unidos transformou o mercado energético global e derrubou o preço do etano americano. “Com o advento do shale gas, o etano passou a ser ainda mais competitivo. Em alguns momentos, era mais vantajoso operar com etano do que com nafta, e a gente não podia fazer nada”, conta Alfano. A resposta da Braskem foi um investimento para tornar suas centrais de matérias-primas em Camaçari flex, ou seja, capaz de operar com até 30% de etano em substituição à nafta.
O cenário geopolítico jogou a favor da decisão. Com a guerra no Irã, a nafta, diretamente atrelada ao preço do petróleo, disparou. O etano, produzido nos EUA a partir do gás de xisto, subiu muito menos. “Enquanto a nafta quase dobrou de preço, o etano subiu 15%”, resume Carlos Alfano. A carga que chegou ao Porto de Aratu foi comprada assim que o conflito eclodiu, e o fato de a Braskem ter navio próprio disponível foi decisivo para a rapidez da operação.
O processo de descarga é sofisticado. O etano precisa ser mantido a menos 90 graus Celsius e é transferido do navio para um tanque criogênico em Aratu. De lá, é bombeado para as plantas de Camaçari. O navio descarrega, fundia na Baía de Todos-os-Santos enquanto o tanque é consumido e, quando há espaço, retorna para completar o ciclo. É uma dança logística cuidadosamente orquestrada.
“O etano é uma das matérias-primas mais competitivas da indústria petroquímica no momento e amplia nossas alternativas para aumentar competitividade e sustentabilidade”
Carlos Alfano, diretor industrial da Braskem na Bahia
Tecnologia de ponta no Atlântico
Construído no estaleiro Jiangsu YangziMitsui, na China, e entregue à Braskem em janeiro de 2025, o Brilliant Future acumula 13 viagens internacionais em pouco mais de um ano, conectando rotas entre os EUA, México, Ásia, Europa e agora o Brasil. O navio é equipado com tanques do tipo estrela-trilobado, um sistema semipressurizado que aumenta em quase 30% a capacidade de carga em relação aos tanques convencionais, além de melhorar a estabilidade da embarcação. Tem leme Twist-Flow para maior eficiência de propulsão, e hélices Kappel, com pontas curvas que reduzem o consumo energético em até 9%.
Mas o diferencial que mais chamou atenção durante a visita foi o motor flex: o navio pode operar com combustível convencional de navio (bunker) ou com o próprio etano. Quando usa etano como combustível, a embarcação reduz em 40% as emissões de CO₂ em comparação com a média dos navios do mercado.
Este é o primeiro de cinco navios previstos. Três novas embarcações chegarão ainda este ano e mais uma em 2027. Os próximos serão voltados ao transporte de nafta – e o primeiro deles está previsto para atracar na Bahia já em maio. O investimento total ultrapassa US$ 400 milhões. O Brilliant Future custou US$ 80 milhões.
“É um marco muito importante”, disse Carlos Alfano, com a convicção de quem sabe que, no meio de um ciclo adverso, cada vantagem competitiva conta. O Futuro Brilhante pareceu, naquele cais de Aratu, um nome bem escolhido.

A luta contra o ciclo de baixa
Nem tudo são águas calmas. A indústria petroquímica global atravessa um dos ciclos de baixa mais intensos das últimas décadas – e ele está longe de acabar. Segundo Carlos Alfano, o setor vive um ajuste estrutural que já dura cerca de dez anos e ainda deve se estender por mais dois ou três anos. O excesso de capacidade, puxado principalmente por investimentos massivos nos Estados Unidos e na China durante e após a pandemia, mudou completamente a dinâmica do mercado.

Na prática, isso se traduz em ociosidade. Hoje, a Braskem – assim como boa parte do setor – opera entre 60% e 65% de sua capacidade.
Operar abaixo de 65% é, além de financeiramente custoso, tecnicamente ineficiente: as plantas foram projetadas para funcionar a partir de 83% de carga, patamar em que se atingem as condições ótimas de rendimento de matéria-prima e eficiência energética.
“Quando a gente traz o etano, conseguimos, dentro desse cenário desafiador, melhorar a nossa competitividade um pouquinho”, resume Carlos Alfano. No atual momento da petroquímica, esse “pouquinho” vale muito.
O peso da Braskem na Bahia
Apesar do cenário global nervoso, a Braskem segue como um dos pilares industriais da Bahia. A empresa é responsável pela geração de 7.500 empregos diretos e indiretos na Bahia. Quando analisado o efeito de renda na cadeia produtiva, esse número salta para mais de 20 mil postos de trabalho.
A operação baiana inclui 8 unidades industriais no Polo de Camaçari, entre centrais de matérias-primas, plantas de aromáticos, utilidades, polietileno e PVC, além do terminal de gases e líquidos e do terminal de matérias-primas no Porto de Aratu, que garantem o abastecimento e o escoamento da produção. Um duto de 475 km conecta Camaçari ao complexo petroquímico de Marechal Deodoro, em Alagoas.
Em termos de investimentos, a empresa mantém um patamar de aproximadamente R$ 700 milhões por ano na Bahia. Em 2023 e 2024, o volume foi ainda maior – R$ 1,1 bilhão anuais – período que incluiu a parada geral da central de matérias-primas II para modernização profunda, com troca de equipamentos, novos sistemas de controle e otimização de ativos.
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