O gás natural produzido e processado em Sergipe deu um passo relevante na integração energética do Nordeste. A Eneva, operadora do Hub Sergipe, assinou contrato com a Cerbras, uma das maiores fabricantes de revestimentos cerâmicos do Brasil, para o fornecimento de 10,95 milhões de metros cúbicos de gás natural. O suprimento já está em operação.
Com o acordo, a Cerbras torna-se o primeiro consumidor livre de gás natural do Ceará, marco importante no processo de abertura do mercado no estado. O fornecimento parte do terminal de GNL da Eneva, localizado em Barra dos Coqueiros (SE).
O terminal está conectado à malha nacional de transporte por meio do gasoduto da Transportadora Associada de Gás (TAG). O complexo do Hub Sergipe integra uma usina termelétrica com capacidade instalada de 1,6 GW e uma Unidade Flutuante de Armazenamento e Regaseificação (FSRU), capaz de processar até 21 milhões de metros cúbicos de gás por dia.
Além do contrato comercial, a operação reforça o reposicionamento de Sergipe como polo energético regional. O avanço do Hub Sergipe contou com articulação direta do Governo do Estado, por meio da Secretaria de Desenvolvimento Econômico e da Ciência e Tecnologia (Sedetec), que viabilizou a conexão do terminal à malha nacional.
A infraestrutura inclui um gasoduto de 25 quilômetros de extensão, com investimento superior a R$ 350 milhões. A obra recebeu incentivos fiscais do Programa Sergipano de Desenvolvimento Industrial (PSDI), que permitiram a aquisição de mais de 2,4 mil tubos utilizados no projeto.
Em 2026, o governador Fábio Mitidieri e a Sedetec se reuniram com executivos da Eneva para discutir a expansão do Hub Sergipe e novas oportunidades ligadas à cadeia do gás natural. Segundo o secretário Valmor Barbosa, o movimento fortalece a competitividade industrial e consolida Sergipe como eixo estratégico da integração energética regional.
Por que isso importa
A operação vai além de um contrato bilateral de fornecimento. Ela sinaliza que o mercado livre de gás começa a sair do papel no Nordeste, com impacto direto sobre custos industriais, competitividade e decisões de investimento. A combinação entre infraestrutura de GNL, conexão à malha nacional e articulação institucional cria um novo arranjo logístico para o energético.
Este movimento será analisado a partir de três dimensões: integração regional, abertura do mercado de gás e competitividade industrial. A pergunta central é: o Nordeste está, de fato, criando um novo corredor energético capaz de atrair indústria e reduzir assimetrias regionais?
O que está por trás do movimento
Por que isso está acontecendo?
- Infraestrutura finalmente conectada
A ligação do terminal de GNL de Sergipe à malha da TAG removeu um gargalo histórico: a falta de acesso físico ao sistema nacional de transporte. Sem essa conexão, o gás ficava restrito ao consumo local ou à geração térmica. - Avanço regulatório do mercado livre
O contrato com a Cerbras mostra que a abertura do mercado de gás começa a gerar efeitos práticos. O Ceará passa a ter, na prática, um consumidor industrial fora do modelo tradicional de distribuição. - Busca industrial por previsibilidade de custos
Setores intensivos em energia, como o cerâmico, são altamente sensíveis ao preço do gás. O mercado livre oferece maior previsibilidade contratual e potencial de redução de custos no médio prazo. - Reposicionamento estratégico de Sergipe
O estado deixa de ser apenas sede de geração térmica e passa a atuar como hub logístico e energético, conectando oferta, infraestrutura e demanda regional. - Integração energética como política econômica
A atuação da Sedetec indica que o gás é tratado como vetor de desenvolvimento industrial, não apenas como insumo energético.
O que isso significa na prática
a) Para empresários
O movimento abre oportunidades de acesso a gás fora dos mercados tradicionais, especialmente para indústrias do Nordeste. Há potencial de redução de custos energéticos e maior poder de negociação contratual. A recomendação é avaliar a viabilidade de migração para o mercado livre e acompanhar a expansão da infraestrutura de transporte e regaseificação.
b) Para profissionais
Para engenheiros, gestores industriais e especialistas em energia, trata-se de uma boa notícia. A abertura do mercado tende a ampliar a demanda por profissionais com conhecimento em contratos de gás, regulação e gestão energética. A ação recomendada é investir em capacitação técnica ligada ao mercado livre e à cadeia do gás natural.
c) Para o setor
Três tendências estruturais se destacam:
- Interiorização e regionalização do gás, com novos polos fora do eixo Sudeste.
- Integração entre GNL e malha de transporte, aumentando a flexibilidade do sistema.
- Uso do gás como alavanca industrial, e não apenas como fonte para geração elétrica.
Em conjunto, o contrato entre Eneva e Cerbras sinaliza que o gás natural começa a cumprir, no Nordeste, um papel estratégico semelhante ao que já exerce em regiões mais maduras do país.

















