Pequenas fábricas são fundamentais para o desenvolvimento econômico brasileiro, afinal, representam quase 99% do setor industrial no país, segundo dados da Confederação Nacional das Indústrias (CNI). Dessa forma têm participação expressiva na geração de emprego e renda. Mas diante de tantas mudanças na era digital, os pequenos negócios esbarram em grandes desafios.
Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), já estamos vivendo a realidade da Indústria 4.0, o que amplia a necessidade de transformação tecnológica. Apesar de o Brasil estar entre os mais avançados no uso de meios digitais, conforme a instituição, esse processo ainda é marcado por receios e falta de conhecimento entre micro e pequenas indústrias.
Entre os principais entraves, o Sebrae aponta que a digitalização dos processos produtivos enfrenta resistência por parte dos empresários, que enxergam essa transformação como algo distante da própria realidade. Essa percepção se soma à falta de planejamento, que pode comprometer a linha de produção quando decisões são tomadas sem preparo adequado.
A estrutura também aparece como um desafio. Dependendo do tipo de indústria, a modernização exige adaptações no espaço físico e na conectividade, o que demanda organização e investimento. Além disso, a qualificação da mão de obra é destacada como um ponto de atenção, já que novas funções exigem conhecimentos que nem sempre estão disponíveis.
Por outro lado, investir em digitalização abre espaço para melhorar os processos produtivos. O uso de dados e indicadores permite maior controle sobre as operações, contribuindo para a redução de custos, para a melhoria da qualidade dos produtos, além de ampliar a competitividade.
Essa digitalização não começa, necessariamente, com mudanças muito complexas. Medidas mais simples já podem trazer ganhos importantes, como usar a planilha de controle de estoque, por exemplo, ajudando organizar entradas e saídas de produtos, reduzir desperdícios e melhorar o planejamento da produção
À medida que o negócio evolui, passa a ser necessário contar com soluções mais estruturadas, como os sistemas de gestão ERP, sigla para Enterprise Resource Planning, que integra todos os processos e departamentos de uma empresa em um único lugar. De acordo com o Sebrae, o seu principal objetivo é facilitar a gestão empresarial, permitindo que os gestores tomem decisões embasadas em dados precisos.
Um exemplo desse tipo de solução é o Start Industrial, voltado para micro e pequenas indústrias. A plataforma reúne áreas como engenharia, vendas, estoque e faturamento e compra, facilitando a organização dos processos e o acompanhamento das operações.
Para o engenheiro e sócio da Nomus, Thiago Leão, até mesmo para a pequena indústria o ERP deixou de ser uma ferramenta de organização e passou a ser um fator direto de sobrevivência, Sem controle sobre custos, produção, estoque e prazos, a empresa perde competitividade rapidamente em um mercado mais digital e exigente.
“Ao mesmo tempo, os sistemas de gestão atuais funcionam como uma ponte para a modernização, porque permitem começar com uma estrutura simples e evoluir gradualmente, integrando novas tecnologias conforme o crescimento do negócio. Isso possibilita que a indústria avance em eficiência e digitalização sem comprometer sua saúde financeira”, afirma.
O Sebrae também destaca que os sistemas ERP estão sendo otimizados com a introdução da Inteligência Artificial (IA), visando oferecer recursos avançados de análise de dados. Com o auxílio dessa tecnologia, a empresa consegue identificar tendências, tomar decisões mais precisas e prever demandas futuras.
IA, Big Data e IoT estão na base da Indústria 4.0
De acordo com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), tecnologias como IA, Big Data, serviços em nuvem (cloud) e internet das coisas (IoT) formam a base da Indústria 4.0. Esses recursos permitem maior nível de interconectividade entre pessoas, processos e produtos, através do compartilhamento de dados em tempo real.
A instituição destaca que a adoção dessas tecnologias contribui para ganhos em diferentes frentes, como aumento da eficiência produtiva, melhoria na gestão da manutenção e avanços na gestão energética. Além disso, elas permitem a análise de dados necessária para compreender e atacar as raízes dos problemas de produção das empresas.
Em relatório sobre “Demonstradores para a difusão tecnológica da Indústria 4.0”, a ABDI destacou impactos relacionados principalmente à adoção de IA, IoT e Analytics. Entre eles está o aumento de 3% na eficiência de máquinas com o uso dessas tecnologias em moldes, o crescimento de 10% no volume de produção na montagem de componentes, assim como diminuição de 6% nos custos operacionais na fabricação de embutidos.
Além disso, os ganhos chegaram a 50% no volume de produção para gestão da produção de máquinas de corte laser e 34% no volume de produção em máquinas CNC de longarinas.
Soluções simplificadas são necessárias para ampliar adoção
Apesar de concentrarem um dos maiores potenciais de ganho com a digitalização, pequenas e médias empresas ainda apresentam as menores taxas de adoção dessas tecnologias. A avaliação é da ABDI, que aponta um descompasso entre o avanço das soluções disponíveis no mercado e a capacidade de implementação por parte desses negócios.
Segundo a associação, um dos principais entraves está no formato dessas soluções, que ainda são, em grande parte, desenvolvidas de forma customizada e exigem acompanhamento técnico especializado. Esse modelo tende a elevar custos e alongar o tempo de implantação, o que acaba afastando pequenas indústrias, que operam com menos recursos.
A ABDI destaca que boa parte dos fornecedores de tecnologia no Brasil ainda direciona seus projetos para grandes empresas, o que limita a oferta de soluções adaptadas à realidade de negócios menores.
Diante desse cenário, a entidade defende o desenvolvimento de soluções mais padronizadas e acessíveis, que possam ser implementadas de forma simples e replicável. A ampliação desse tipo de oferta, aliada à atuação de agentes promotores de inovação, é vista como o caminho para reduzir barreiras e acelerar a adoção tecnológica entre pequenas e médias indústrias.
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