
A indústria baiana entrou em estado de alerta após o governo dos Estados Unidos ampliar as barreiras comerciais contra produtos brasileiros. A nova tarifa adicional de 12,5%, anunciada nesta semana pelo presidente Donald Trump, será acumulada à sobretaxa de 25% que entrou em vigor no último dia 22, aumentando a pressão sobre setores estratégicos da economia estadual.
Os efeitos das medidas foram discutidos nesta sexta-feira (24), em Salvador, durante reunião entre representantes do Governo da Bahia, da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb) e lideranças empresariais. Participaram do encontro o governador Jerônimo Rodrigues, o presidente da Fieb, Carlos Henrique de Oliveira Passos; o CEO da Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip), Rodrigo Navarro; o presidente do Sindpacel, Fernando Guimarães; o presidente do Sinpeq e vice-presidente da Fieb, Carlos Alfano; do presidente do Sindifibras, Wilson Andrade; e o superintendente da Fieb em exercício, Marcus Verhine.
Mais do que uma manifestação política, o encontro consolidou uma avaliação técnica sobre os segmentos mais expostos e definiu as prioridades que serão levadas às negociações com o governo federal.
Os números mostram a dimensão do problema. Com base na pauta exportadora de 2025, US$273,1 milhões em produtos baianos continuam sujeitos às tarifas americanas, o equivalente a 33,2% de tudo o que a Bahia exportou para os Estados Unidos no ano passado. Dependendo da aplicação das exceções previstas pela legislação americana, essa parcela pode alcançar 40,4%.
Na prática, a maior parte do impacto se concentra sobre a indústria de transformação. Papel e celulose, borracha e plásticos e produtos químicos respondem por quase 90% do valor das exportações atingidas, segundo levantamento apresentado pela Fieb e pelo governo estadual.
Outro setor que preocupa é a cadeia de calçados e couro, uma das maiores empregadoras do interior baiano. Embora represente uma parcela menor das exportações, o segmento pode sofrer perda de competitividade justamente em um momento em que buscava recuperar parte da produção e das vendas.
Celulose lidera lista de prioridades
Entre os pedidos que serão defendidos nas negociações com Brasília está a reinclusão da celulose solúvel na lista de produtos isentos das tarifas americanas. O segmento ocupa posição estratégica na pauta exportadora baiana e, segundo a indústria, perdeu competitividade ao ficar de fora das exceções concedidas para outros tipos de celulose.
Também estão entre as prioridades a inclusão dos produtos petroquímicos do Polo Industrial de Camaçari e dos pneumáticos em futuras listas de exceções negociadas com os Estados Unidos.
Além das negociações internacionais, empresários defendem medidas para proteger o mercado brasileiro diante do risco de redirecionamento do comércio global. Entre elas estão a aplicação de mecanismos antidumping para produtos petroquímicos, revisão das alíquotas de importação e a criação de preços de referência para pneus importados.
Monitoramento dos impactos
Outro encaminhamento definido durante o encontro prevê o levantamento contínuo dos efeitos do tarifaço sobre a economia baiana. Empresas exportadoras serão convidadas a informar eventuais cancelamentos de pedidos, suspensão de contratos, redução da produção ou impactos sobre o emprego.
Essas informações deverão subsidiar as negociações conduzidas pelo governo federal e servir de base para eventuais medidas de apoio à indústria.
Análise
A reunião desta sexta-feira produziu um diagnóstico mais preciso sobre o tamanho da exposição da Bahia ao tarifaço americano. A novidade não está na crítica às medidas adotadas por Washington, mas na identificação das cadeias produtivas mais vulneráveis e na definição de uma agenda de prioridades.
Os números reforçam que a disputa comercial deixou de ser um tema restrito à diplomacia. Ela passa a influenciar diretamente decisões de investimento, produção e geração de empregos em alguns dos principais polos industriais do estado, especialmente em segmentos exportadores de maior valor agregado.
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