A A mineradora brasileira Serra Verde Group anunciou nesta segunda-feira (20) um acordo de combinação com a USA Rare Earth, em uma transação avaliada em aproximadamente US$2,8 bilhões. O movimento cria uma nova companhia global integrada na cadeia de terras raras — da mineração à fabricação de ímãs. A operação coloca o Brasil no centro de uma estratégia internacional para reduzir a dependência da Ásia no fornecimento desses minerais críticos, essenciais para setores como veículos elétricos, energia renovável, defesa e tecnologia avançada.
Com a combinação, a nova empresa passa a atuar em toda a cadeia produtiva, incluindo mineração, processamento, separação, metalização e produção de ímãs, com operações distribuídas entre Brasil, Estados Unidos, Europa e aliados estratégicos.
As operações da Serra Verde em Minaçu (GO) seguem como peça-chave do negócio e continuarão em expansão sob a gestão atual. A companhia brasileira é hoje a única produtora em escala relevante fora da Ásia de terras raras pesadas, especialmente disprósio e térbio, considerados críticos para a indústria global.
Além da fusão, a empresa firmou um acordo de fornecimento de longo prazo: um contrato de 15 anos para venda de 100% da produção da Fase I a uma empresa estruturada com apoio do governo dos EUA e capital privado. O contrato inclui preços mínimos garantidos, assegurando previsibilidade de receita e redução de riscos para a operação brasileira.
A Serra Verde também já conta com financiamento de US$565 milhões da Corporação Internacional de Desenvolvimento dos EUA (DFC), reforçando o interesse estratégico americano no ativo brasileiro.
Thras Moraitis, CEO do Grupo Serra Verde, comentou: “Estamos entusiasmados em unir forças com a USA Rare Earth para criar uma empresa maior e mais diversificada, abrangendo a cadeia de suprimentos de ETRs no Brasil, EUA e os seus aliados. A combinação permitirá investimentos sustentados e crescimento da operação, criando empregos, contribuições fiscais e investimentos que beneficiarão funcionários, a comunidade e o Brasil.
A Serra Verde é pioneira em uma nova indústria no Brasil, e agora temos a certeza de poder continuar investindo e desenvolvendo nossa operação ao longo do ciclo, garantindo empregos, futuros pagamentos de impostos e desenvolvimento econômico para Minaçu, Goiás e Brasil. Em parceria com a USAR, esperamos servir de inspiração para outros projetos semelhantes no Brasil, demonstrando o vasto potencial do nosso país como um polo de minerais críticos
Ricardo Grossi, presidente da Serra Verde Pesquisa e Mineração e COO do Grupo Serra Verde
O que está por trás do negócio
O acordo vai muito além de uma simples aquisição. Ele escancara uma disputa geopolítica silenciosa: o controle da cadeia global de terras raras. Hoje, a China domina amplamente esse mercado, especialmente nas etapas mais críticas, como refino e fabricação de ímãs. O movimento envolvendo Serra Verde e USA Rare Earth é, na prática, uma tentativa clara dos Estados Unidos de construir uma cadeia alternativa, segura e alinhada ao Ocidente.
E aqui entra o Brasil.
O país deixa de ser apenas fornecedor de minério bruto e passa a ocupar uma posição mais estratégica, integrando uma cadeia global de maior valor agregado. A mina de Pela Ema, em Goiás, vira um ativo geopolítico relevante – não apenas econômico.
Outro ponto-chave é o modelo do contrato de fornecimento com preços mínimos garantidos. Isso resolve um dos principais gargalos do setor: a volatilidade de preços, que historicamente desestimula investimentos em novos projetos. Na prática, cria-se um “colchão” financeiro que viabiliza expansão, reduz risco e acelera o crescimento da produção.
Mas há um alerta.
Apesar do avanço, o Brasil ainda entra como elo produtivo dentro de uma cadeia liderada por capital e tecnologia estrangeiros. Ou seja: o país ganha relevância, mas ainda não controla o jogo.
No fim das contas, o negócio sinaliza três movimentos claros:
- a corrida global por minerais críticos está acelerando;
- o Brasil começa a ser visto como peça-chave nesse tabuleiro;
- e a transição energética está cada vez mais ligada à geopolítica – não apenas à sustentabilidade.
Traduzindo: não é só mineração. É estratégia global em estado puro.
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