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Capa Memória da Indústria

Ciquine: a história da gigante que moldou a química baiana

A empresa que apostou em Camaçari antes da consolidação do Polo atravessou crises, mudanças de controle e redefiniu seu papel na cadeia petroquímica nacional

GERALDO BASTOS por GERALDO BASTOS
24/02/2026
em Memória da Indústria
Tempo de Leitura: 6 minutos
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Memória da Indústria

Hoje, a Via Parafuso é um tapete de asfalto que conecta Salvador ao maior complexo industrial integrado do Hemisfério Sul em menos de uma hora. Mas, para entender a grandeza do Polo Industrial de Camaçari, é preciso voltar a 1968, quando o cenário era de mato, estradas de barro e uma incerteza que desafiava a lógica empresarial. Foi nesse cenário que nasceu a  Ciquine Cia. Petroquímica, uma das verdadeiras “mães” da industrialização baiana.

Em um depoimento histórico concedido à revista Manchete em 1978, o então diretor da Ciquine, Ricardo Gutierrez, relembrou os tempos heróicos. A fábrica começou “pequena e modesta”, produzindo anidrido ftálico. Naquela época, o otimismo era a principal matéria-prima: faltava luz por cinco horas seguidas, o transporte era precário e, como o próprio Gutierrez brincava, “todo mundo achava longe trabalhar em Camaçari”.

A Ciquine não apenas ficou, como cresceu. Se em 1968 a produção era de 5 mil toneladas/ano, dez anos depois ela já mirava as 45 mil toneladas. Quando o mercado interno travava, a empresa não recuava; exportava para o Chile e Peru, provando que a química feita na Bahia tinha fôlego global.

Mais do que números, a Ciquine era o elo vital de uma corrente. Seus álcoois e plastificantes eram a base para tudo o que a sociedade moderna consumia: de tintas e vernizes a solados de sapatos, tecidos e derivados de plástico. Ela ajudou a transformar Camaçari em um dos municípios de maior renda do Brasil, exatamente como Gutierrez previu em seus dias de pioneiro.

Transições e o “nó” petroquímico

A trajetória da Ciquine também reflete as mudanças no tabuleiro do capitalismo brasileiro. Após décadas como um ativo importante do Grupo Econômico, a empresa viveu momentos de incerteza com a liquidação extrajudicial do banco nos anos 90.

Em 2002, um novo capítulo: a Elekeiroz (na época sob o braço da Itaúsa) arrematou o controle da companhia em um leilão movimentado, vencendo a concorrência da Petrom. Ali, a Ciquine, maior produtora nacional de álcoois sintéticos e plastificantes,   passava a integrar um gigante nacional, recebendo investimentos em modernização e automação que a planta, após anos de “vacas magras”, tanto necessitava.

ciquine
A história da Ciquine é, em essência, a história do próprio Polo

Justiça  

Nenhuma história industrial está completa sem o reconhecimento de quem operou as máquinas. Recentemente, em agosto de 2024, a memória da Ciquine voltou às manchetes com um desfecho histórico na Justiça do Trabalho: um acordo de mais de R$ 21 milhões beneficiou cerca de 930 trabalhadores, encerrando uma disputa de décadas sobre reajustes salariais da década de 80. Foi o fechamento digno de um ciclo para uma geração de operários e técnicos que construíram o Polo com as próprias mãos.

 Renovação no Grupo OCQ

A marca Ciquine pode ter sido absorvida pela identidade da Elekeiroz, mas o DNA daquela planta de 1968 continua pulsando. Em 2023, o Grupo OCQ adquiriu a Elekeiroz, trazendo novos planos de expansão e um faturamento que hoje ultrapassa os R$4,6 bilhões.

A história da Ciquine é, em essência, a história do próprio Polo: pioneirismo privado em ambiente adverso, dependência de escala, disputas por controle, ciclos de investimento e períodos de estagnação. A Ciquine nos ensina que a indústria é um organismo vivo. Ela nasce da audácia, cresce na dificuldade, adapta-se às crises e, acima de tudo, deixa um legado que transcende suas paredes de concreto. É, sem dúvida, um capítulo de ouro na nossa Memória da Indústria.

LINHA DO TEMPO

1968 — A origem em ambiente adverso

  • Instalada antes mesmo da consolidação do Polo de Camaçari, a Ciquine iniciou operações com capacidade de 5 mil toneladas/ano de anidrido ftálico.
  • Infraestrutura precária, energia instável e ausência de cadeia produtiva estruturada marcaram o início. Seis meses sem vendas levaram a empresa a exportar para Chile e Peru para manter o fluxo de caixa.

1978 — Expansão e aposta no Polo

  • Reportagem da Revista Manchete registrava o otimismo empresarial: a produção já havia saltado para 24 mil t/ano, com projeto para atingir 45 mil t/ano.
  • A expectativa era que a petroquímica induzisse uma cadeia de transformação — plásticos, resinas, artefatos industriais — elevando a renda regional.

2001 — Disputa por escala

Segundo a Folha de S.Paulo, a Ciquine detinha:

  • 38% do mercado brasileiro de anidrido ftálico

  • 33% do mercado de plastificantes
    Capacidade instalada:

  • 40 mil t/ano de anidrido

  • 100 mil t/ano de plastificantes

O controle da empresa tornava-se estratégico. Dobrar escala significava reduzir custo unitário e ampliar competitividade externa. A venda envolveu estrutura societária complexa via Esae e Conepar.

2002 — Nova controladora e modernização

  • A aquisição pela Elekeiroz marcou fase de reorganização operacional, conforme detalhado pela Química e Derivados.
  • Plano inicial: R$ 50 milhões em modernização, foco em automação, qualidade (ISO 9000) e racionalização logística.

Produção de álcoois estratégicos:

  • ~40 mil t/ano de butanol

  • ~80 mil t/ano de etilexanol

A empresa buscava recuperar competitividade após anos sem investimentos significativos.

2023 — Consolidação

A Elekeiroz foi adquirida pelo Grupo OCQ, que passou a operar com:

  • +615 mil toneladas/ano de capacidade produtiva

  • R$ 4,6 bilhões em faturamento consolidado

O ativo baiano permaneceu estratégico, inclusive com anúncio de novos plastificantes (como o DOTP).

2024 — Ajuste trabalhista

Acordo homologado na Justiça do Trabalho da Bahia garantiu R$ 21 milhões a 934 trabalhadores, encerrando disputa referente à Convenção Coletiva de 1989/1990. A história industrial também carrega passivos acumulados.


MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo – mesmo depois do fechamento de suas portas. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.

Tem informações e imagens sobre fábricas antigas de Salvador e de outros municípios da Bahia? Compartilhe com a gente: redacao@industrianews.com.br


Leia também: Braskem: a cautela da Petrobras e o destino do Polo de Camaçari


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Tags: BahiaGrupo OCQPolo Industrial de Camaçari
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