O megaempreendimento da Brazil Iron no interior da Bahia segue avançando para se tornar um dos projetos mais inovadores da mineração mundial. Em entrevista ao programa Mapa da Mina, da CNN Brasil Money, o vice-presidente de Relações Institucionais da companhia, Emerson Souza, revelou detalhes sobre o estágio atual do licenciamento ambiental, a estrutura dos investimentos, a questão logística e o cronograma de implantação, que prevê início das obras no final deste ano e produção de ferro verde a partir de 2030.
Segundo o executivo, o projeto prevê investimentos de aproximadamente US$5,7 bilhões, contemplando mineração, beneficiamento mineral, infraestrutura ferroviária e unidades industriais para produção de HBI (Hot Briquetted Iron), considerado um insumo estratégico para a fabricação de aço de baixo carbono. “O nosso projeto é o primeiro das Américas com mineração e fabricação de ferro verde integradas. É uma novidade mundial, mas nas Américas existe um ineditismo ainda maior”, afirmou Emerson Souza durante a entrevista ao Mapa da Mina, conduzida pelo diretor editorial Daniel Rittner e pelo repórter de mineração da CNN Infa Gabriel Garcia.
O projeto está sendo desenvolvido nos municípios de Piatã, Abaíra e Jussiape, na Chapada Diamantina, e se diferencia pela natureza do minério extraído: um ferro de altíssima pureza, capaz de ser transformado em aço com consumo significativamente menor de energia, e, portanto, compatível com o uso de fontes renováveis. O produto final é tecnicamente chamado de HBI ou ferro briquetado a quente, mas a empresa adotou a denominação “ferro verde” para facilitar a compreensão do mercado.
“Apenas 3% de todo o minério de ferro do mundo está apto a produzir esse insumo para chegar no aço verde”, explicou Emerson Souza ao Mapa da Mina, ressaltando a raridade e o valor estratégico do depósito baiano. O executivo destacou ainda que a indústria do aço responde por 8% de todas as emissões globais de gases de efeito estufa, o que torna a descarbonização do setor uma demanda urgente e crescente no mercado internacional.

Investimento
O projeto prevê um investimento total de US$5,7 bilhões, abrangendo toda a cadeia produtiva – da extração na mina à fabricação do HBI. Segundo Souza, o montante inclui uma planta de beneficiamento no próprio site da mina, um ramal ferroviário de aproximadamente 120 km para conexão com a malha existente, e outras duas plantas na zona portuária, responsáveis pela transformação do pellet feed em pelota e da pelota em ferro verde.
Antes mesmo do início formal da implantação, os investidores já aportaram cerca de R$2 bilhões no projeto, um sinal, segundo o executivo, da confiança do mercado na viabilidade do empreendimento.
Licenciamento
O projeto ainda aguarda a licença prévia, primeira etapa formal do licenciamento ambiental junto ao órgão estadual competente. O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) já foi concluído e entregue ao regulador e foi produzido, deliberadamente, por uma entidade externa: o Senai Cimatec. “Para garantir o máximo de capacidade técnica, de qualidade técnica e até uma certa isenção na hora da produção desse estudo”, justificou o executivo.
O próximo marco, segundo Souza, é a realização da audiência pública. Aprovada essa etapa, a empresa espera obter a licença prévia e avançar para a fase de implantação. Ele também fez questão de ressaltar a abordagem adotada com as comunidades da região: “Você não pode iniciar um projeto sem entender que naquela região onde você vai atuar, você é o ‘forasteiro’. Quem está lá são os verdadeiros donos daquela terra.”
Contratos de offtake
Um dos pontos mais relevantes revelados na entrevista ao Mapa da Mina é a existência de dois contratos de offtake já firmados, que cobrem toda a produção inicial prevista para os primeiros dez anos de operação. A cifra total dos contratos gira em torno de US$30 bilhões. “A partir do momento que nós iniciarmos a produção, os primeiros 10 anos já estão comercializados”, afirmou Souza.
Os compradores estão localizados na Ásia e na Europa – regiões onde a pressão regulatória pela descarbonização é mais intensa. Nesse contexto, o executivo citou o CBAM (Carbon Border Adjustment Mechanism), mecanismo europeu de taxação sobre emissões de carbono já em vigor desde janeiro de 2026, como um fator de estímulo à demanda pelo produto.
Sobre o financiamento, Souza confirmou que a formatação inicial do projeto prevê capital majoritariamente estrangeiro, mas sinalizou abertura para a participação do BNDES. “Já iniciamos conversas com o BNDES. Existe uma possibilidade de ele participar desse negócio”, disse, acrescentando que a eventual participação do banco de fomento agregaria não apenas aporte financeiro, mas também uma “chancela governamental” importante para o projeto.
Logística: Fiol e Porto Sul e alternativas em vista
Um dos principais gargalos do projeto é o escoamento da produção. A estratégia prioritária da Brazil Iron é utilizar a Fiol (Ferrovia de Integração Oeste-Leste) e o Porto Sul, em Ilhéus – dois projetos de infraestrutura que acumulam décadas de atraso. Questionado diretamente sobre o risco de descompasso entre o cronograma da empresa e a conclusão dessas obras, Souza reconheceu a incerteza, mas manteve o plano A. “Dentro da nossa linha do tempo entre implementação e produção, e do tempo que se necessita para terminar a obra da Fiol e construir o futuro Porto Sul, nós ainda temos uma janela possível para esperar a execução desse projeto”, avaliou o executivo ao Mapa da Mina.
Caso o cenário logístico não se confirme, a empresa tem alternativas. O plano B envolve a malha da FCA (Ferrovia Centro-Atlântica), que, segundo Souza, exigiria adaptações e restaurações, mas já está contemplada pelo ramal ferroviário que a Brazil Iron pretende construir – projetado para conectar tanto a Fiol quanto a FCA.
Cronograma e sustentabilidade
O calendário da Brazil Iron é ambicioso. Segundo Souza, a meta é iniciar a fase de implantação no final de 2026 ou início de 2027, com produção prevista para 2030. A empresa conta com reservas certificadas de 1,7 bilhão de toneladas de minério de ferro – base para mais de 20 anos de vida útil da mina – e projeta produção inicial de 5 milhões de toneladas anuais de HBI, com potencial de dobrar esse volume em uma segunda fase.
Outro destaque da entrevista ao Mapa da Mina foi a abordagem ambiental do projeto. Souza afirmou que o Projeto Ferro Verde não terá nenhuma barragem de rejeito, adotando tecnologia dry stacking (empilhamento a seco) em todo o processo. O transporte interno de material será feito exclusivamente por esteiras de correia de longa distância – mais de 16 km – alimentadas por energia renovável, eliminando a necessidade de caminhões na operação.
A empresa também incorporou ao projeto uma máquina de recuperação de área minerada com 220 metros de comprimento, capaz de recuperar e tornar agricultáveis as áreas exploradas em até sete anos. No total, são 17 projetos de sustentabilidade listados para a operação, desenvolvidos com suporte da empresa alemã RW, referência global em mineração sustentável.
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