
As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos ampliaram a pressão sobre a indústria brasileira da madeira, mas, na avaliação de Gustavo Milazzo, CEO da WoodFlow, elas estão longe de ser o único problema do setor. Para o executivo, o protecionismo internacional veio para ficar e obriga as empresas a reverem estratégias construídas ao longo de décadas.
Nesta edição do 5 PERGUNTAS, Milazzo analisa os impactos imediatos das novas barreiras comerciais, explica por que o Brasil perdeu competitividade antes mesmo do tarifaço, defende a diversificação dos mercados de exportação e faz um alerta: fortalecer o mercado interno deixou de ser uma alternativa para se tornar uma necessidade estratégica para a indústria brasileira da madeira.
Pergunta – As novas tarifas impostas pelos Estados Unidos chegam em um momento em que as exportações brasileiras de madeira já vinham perdendo força. Na sua avaliação, qual é a real dimensão dessa mudança? Estamos diante de uma crise pontual ou de uma alteração estrutural nas regras do comércio internacional?
Gustavo Milazzo – Não é uma crise pontual, na verdade, precisamos parar de encarar isso como um ruído temporário. A regra do jogo mudou definitivamente. Protecionismo acontece agora claramente nos EUA mas é uma tendência mundial. Quem está no chão de fábrica ou na mesa de negociação internacional já percebeu que o protecionismo veio para ficar. A consolidação dos 25% via Seção 301 somada à sobretaxa de 12,5% da investigação sobre trabalho e rastreabilidade cria uma barreira real de 37,5% no porto de entrada americano para a nossa madeira processada.
A dimensão disso é brutal. Desde o início das tarifas em 2025, nosso mercado para os EUA caiu drasticamente. No primeiro semestre de 2026, o faturamento das nossas exportações de madeira já caiu 8%, somando US$855,2 milhões. Como os EUA sozinhos compram quase 25% de todo o volume exportado pelo setor, dá pra se ter uma idéia do tamanho do problema. Estamos diante sim de uma nova regra no comércio internacional, temos que aprender a não depender de um mercado especificamente e tentar diferentes parceiros para não sofrer um impacto tão forte como está acontecendo agora que ficamos praticamente fora do mercado americano.
Pergunta – Os números mostram que a queda das exportações começou antes mesmo da entrada em vigor da nova tarifa. O que está acontecendo dentro das empresas? Quais são os impactos mais imediatos para a indústria da madeira brasileira?
Gustavo Milazzo – A incerteza com relação às tarifas provocou uma queda imediata no comércio com os EUA, ou seja, mesmo antes de sabermos os valores que seriam aplicados, os compradores congelaram as negociações com medo do que estava por vir. Mas o tarifaço foi a gota d’água em um copo que já estava transbordando. As empresas brasileiras já vinham apanhando de juros altos, frete marítimo caro, logística interna ineficiente e de um câmbio que oscila sem qualquer previsibilidade.
O impacto imediato é doloroso porque a cadeia de base florestal é gigantesca: geramos mais de 500 mil empregos diretos e indiretos e sustentamos a economia de dezenas de municípios no Sul do país. Quando uma fábrica de compensados ou molduras perde a margem da noite para o dia, a reação em cadeia é instantânea: cancelamento de contratos, congelamento de investimentos, férias coletivas e demissões.
A verdade é que o tarifaço escancarou a nossa fraqueza interna. O Custo Brasil drena R$1,7 trilhão por ano e faz a nossa logística consumir até 15% da receita bruta. É por isso que despencamos para a 69ª posição entre 90 países no ranking industrial da UNIDO/IEDI. Fomos empurrados para a parede pela tarifa americana, mas o que nos prende lá é a nossa incompetência estrutural interna.
Pergunta – Muitas empresas brasileiras foram estruturadas para atender o mercado norte-americano. Até que ponto é possível substituir esse destino por outros mercados? O que essa adaptação exige da indústria?
Gustavo Milazzo – Algumas indústrias foram construídas somente para atender produtos específicos e comercializados nos EUA, para essas, não é possível achar um outro cliente fora de lá pois não existe consumo. Para aquelas indústrias que conseguem adaptar seus produtos para outros mercados é muito difícil entrar pois já existem relacionamentos e fornecedores consolidados. Ninguém substitui o maior comprador do mundo de um mês para o outro.
Para virar esse jogo e buscar novos destinos — como Oriente Médio, Ásia e a própria Europa —, a indústria vai ter que se esforçar muito. Adaptar o corte da madeira, ajustar o padrão do produto, testar novos compradores e investir pesado em conformidade regulatória e encarar uma concorrência global que trabalha em condições internas mais competitivas do que o Brasil.
Basta olhar para o Chile: enquanto o produto chileno entra nos EUA com tarifa zero graças aos seus Acordos de Livre Comércio que ocorrem também em outros mercado, paga 8,5% de custo logístico, opera com juros de 4,5% e mantém 100% das suas receitas em dólar sem perder margem com banco, o Brasil paga tarifa cheia, juros altos e possui uma logística terrestre caótica. O chileno consegue absorver oscilações mundiais; o brasileiro opera no limite da sobrevivência.
Negociar contra as tarifas americanas e buscar novos mercados é vital, mas zerar a nossa autotaxação logística e operacional é a única agenda 100% sob nosso controle. Ganhar eficiência dentro de casa é o único caminho para competir em qualquer mercado global — com ou sem tarifaço.
Pergunta – Apesar das dificuldades, a crise também parece acelerar mudanças importantes. O fortalecimento do mercado interno, a madeira engenheirada e a abertura de novos mercados podem representar uma oportunidade para o setor?
Gustavo Milazzo – Com certeza. O Brasil focou por muito tempo sua produção e venda, principalmente da madeira de pinus e eucalipto como um produto voltado para exportação, enquanto a nossa construção civil pouco consome madeira.
O avanço da madeira engenheirada (CLT e Madeira Laminada Colada) e do Wood Frame no mercado nacional não é só estratégico e necessário, como extremamente benéfico para o país. Temos um déficit habitacional enorme e uma urgência por construções mais rápidas e sustentáveis. Fomentar a engenharia de madeira dentro do Brasil cria um mercado doméstico forte, capaz de absorver a produção nacional quando o cenário externo fechar as portas. O mercado interno precisa deixar de ser o “plano B” para se tornar parte da principal estratégia do negócio.
Para isso virar realidade precisamos de juros baixos, menos impostos e uma parceria forte entre o público e o privado para desenvolvimento de projetos.
Pergunta – Se pudesse deixar uma mensagem para empresários e formuladores de políticas públicas, qual seria a principal prioridade para que a indústria brasileira da madeira saia desta crise mais forte e menos dependente de um único mercado?
Gustavo Milazzo – Para os formuladores de políticas públicas: Parem de colocar a culpa apenas no governo americano. O maior imposto que o produtor brasileiro paga é cobrado antes mesmo de a madeira chegar ao porto. A prioridade tem que ser desatar o nó logístico, baixar o custo do crédito e atuar de forma agressiva na diplomacia comercial para fechar acordos bilaterais com tarifa zero em várias frentes, exatamente como o Chile fez.
Para os empresários: O protecionismo veio para ficar, os Estados Unidos dificilmente irão voltar a comprar os mesmos volumes de antes. Então, é necessário encontrar novos mercados. Também não acredite que iremos encontrar um “novo Estados Unidos” para salvar a sua fábrica. Esse modelo de colocar 80% da sua produção em um único comprador, ou país, acabou. A palavra de ordem agora é diversificação real. Você precisa ter um pé na Europa, um pé no Oriente Médio, um espaço na Ásia e uma base sólida no mercado interno. Se um país inventar uma taxa amanhã, sua fábrica não para. Quem continuar dependendo de uma única porta aberta vai continuar refém da primeira canetada que acontecer lá fora.
O QUE FICA DA CONVERSA
- O protecionismo deixou de ser exceção e passou a fazer parte das novas regras do comércio internacional.
- As tarifas dos EUA agravaram um problema que já existia: a baixa competitividade estrutural da indústria brasileira.
- Diversificar mercados será indispensável, mas não substituirá rapidamente a importância dos Estados Unidos.
- O mercado interno precisa ganhar protagonismo, especialmente com o avanço da madeira engenheirada e da construção sustentável.
- Reduzir o Custo Brasil e ampliar acordos comerciais são prioridades para tornar a indústria mais competitiva no cenário global.
POR TRÁS DAS RESPOSTAS
Formado em Comércio Exterior, Gustavo Milazzo é CEO e fundador da WoodFlow, plataforma especializada na exportação de madeira brasileira e na conexão entre produtores nacionais e compradores internacionais. Com mais de 28 anos de experiência em comércio exterior, acompanha de perto a evolução dos mercados globais, as mudanças regulatórias e os desafios da indústria florestal brasileira. À frente da WoodFlow, também atua na produção de análises, indicadores e conteúdo técnico voltados ao desenvolvimento do setor madeireiro.
5 PERGUNTAS é um conteúdo exclusivo do Indústria News. Publicada às segundas-feiras, a série entrevista empresários, executivos, pesquisadores e autoridades para discutir, em cinco perguntas, os temas que estão redesenhando a indústria brasileira. Um espaço para ouvir quem toma decisões, produz conhecimento e ajuda a construir os próximos capítulos do desenvolvimento econômico do país.
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