
O biometano vive um dos momentos mais importantes de sua história no Brasil. Impulsionado pela regulamentação da Lei do Combustível do Futuro e pelo avanço das discussões sobre segurança energética e descarbonização, o combustível renovável deixou de ocupar apenas a agenda ambiental para ganhar espaço nas estratégias de crescimento da indústria brasileira.
O potencial ajuda a explicar esse movimento. Produzido a partir de resíduos da agropecuária, do saneamento e dos centros urbanos, o Brasil reúne condições para se tornar um dos maiores produtores mundiais de biometano. O desafio, agora, é transformar essa vantagem em investimentos, infraestrutura e mercado consumidor.
Na estreia da coluna 5 PERGUNTAS, o Indústria News conversou, com exclusividade, com Josiani Napolitano, presidente executiva da Associação Brasileira do Biogás (ABiogás). Ela analisa o novo momento do setor, os desafios para ampliar a produção e por que o biometano passou a ser visto como um ativo estratégico para a economia brasileira. Boa leitura!

Pergunta – Durante muitos anos o biometano foi tratado como uma promessa. Em que momento ele deixou de ser apenas uma alternativa energética para se tornar uma política de Estado?
Josiani Napolitano – Acredito que esse ponto de inflexão ocorreu quando o Brasil compreendeu que o biometano não é apenas um combustível renovável, mas um instrumento de segurança energética, competitividade e desenvolvimento econômico. A aprovação da Lei do Combustível do Futuro consolidou essa visão ao estabelecer uma política pública voltada à expansão do mercado, criando previsibilidade para investimentos e reconhecendo o papel estratégico do biometano na diversificação da oferta de energia.
Hoje, o debate já não é apenas ambiental. Trata-se de fortalecer a produção nacional de energia, reduzir dependências externas, dar destino produtivo aos resíduos e ampliar a competitividade da indústria brasileira.
Pergunta – O Brasil produz enormes volumes de resíduos agroindustriais, urbanos e do saneamento, mas ainda aproveita uma parcela pequena desse potencial. Hoje, o maior desafio é produzir mais biometano ou criar as condições para que esse mercado cresça?
Josiani Napolitano – O potencial existe e é extraordinário. O maior desafio, neste momento, não é tecnológico nem de disponibilidade de matéria-prima. É criar as condições para que os investimentos aconteçam na velocidade necessária.
Isso passa por regulamentação eficiente, segurança jurídica, financiamento, infraestrutura e desenvolvimento da demanda. Segundo estimativas da ABiogás, o Brasil tem potencial para produzir cerca de 120 milhões de metros cúbicos de biometano por dia, mas utiliza apenas uma pequena fração dessa capacidade. O desafio, portanto, é transformar potencial em mercado.
Pergunta – A regulamentação da Lei do Combustível do Futuro muda a lógica do setor ao criar uma demanda para o biometano. Qual será o primeiro impacto concreto dessa mudança para a indústria brasileira?
Josiani Napolitano – O principal impacto será a redução da incerteza para quem investe. Ao criar uma demanda estruturada para o biometano, a legislação oferece previsibilidade ao mercado e melhora as condições para viabilizar novos projetos.
Isso tende a acelerar investimentos em toda a cadeia produtiva, da produção de biogás à infraestrutura de distribuição e ao desenvolvimento de equipamentos e serviços. Para a indústria, significa ampliar o acesso a uma fonte energética nacional, renovável e competitiva, reduzindo a exposição às oscilações dos mercados internacionais de energia e fortalecendo a segurança do abastecimento.
Pergunta – O Brasil costuma aparecer entre os países com maior potencial para produzir biometano. Na sua avaliação, o país também pode se tornar uma referência mundial nessa indústria ou ainda estamos longe desse cenário?
Josiani Napolitano – O Brasil reúne condições únicas para se tornar uma referência mundial em biogás e biometano. Poucos países combinam uma base agropecuária tão forte, grande disponibilidade de resíduos urbanos e industriais e uma matriz energética já orientada para fontes renováveis.
O potencial existe e já começa a se materializar. O desafio agora é transformar esse potencial em escala, com segurança regulatória, investimentos e infraestrutura. Se conseguirmos manter uma agenda consistente de políticas públicas e ampliar a demanda, o Brasil tem todas as condições de liderar esse mercado nos próximos anos.
Pergunta – A senhora assumiu recentemente a presidência executiva da ABiogás, justamente no momento em que o setor entra em uma nova fase. Qual é a transformação que gostaria de ver consolidada até o fim da década?
Josiani Napolitano – Gostaria de ver o biogás e o biometano definitivamente incorporados à estratégia nacional de segurança energética, competitividade industrial e gestão de resíduos.
Espero chegar ao fim da década com um mercado maduro, investimentos em larga escala e o biometano presente de forma estruturante na indústria, no transporte e na substituição do gás natural fóssil.
Mais do que crescer em número de plantas, quero que o setor seja reconhecido como um ativo estratégico para o desenvolvimento econômico e para a descarbonização do Brasil.
O QUE FICA DA CONVERSA
O biometano atravessa um momento decisivo. A tecnologia já existe, a matéria-prima é abundante e a regulamentação começa a oferecer previsibilidade ao mercado. O desafio deixa de ser provar que o combustível é viável e passa a ser criar escala para que ele ocupe um espaço permanente na matriz energética brasileira. Se isso acontecer, o país poderá transformar um passivo ambiental — os resíduos — em uma vantagem competitiva para a indústria.
POR TRÁS DAS RESPOSTAS
Engenheira eletricista formada pela Unesp, Josiani Napolitano acumula mais de três décadas de atuação no setor elétrico brasileiro, com experiência nas áreas de regulação, planejamento energético e relações institucionais. Ao longo da carreira, passou por empresas como AES Brasil, AES Tietê e Matrix Energy, além de dirigir a área de Relações Institucionais da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia Elétrica (Apine). Desde maio de 2026, está à frente da Associação Brasileira do Biogás e do Biometano (ABiogás), entidade que representa um dos segmentos mais promissores da transição energética no país.
5 PERGUNTAS é um conteúdo exclusivo do Indústria News. Publicada às segundas-feiras, a série entrevista empresários, executivos, pesquisadores e autoridades para discutir, em cinco perguntas, os temas que estão redesenhando a indústria brasileira. Um espaço para ouvir quem toma decisões, produz conhecimento e ajuda a construir os próximos capítulos do desenvolvimento econômico do país.
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