
Enquanto enfrenta dificuldades para manter parte de sua produção de fertilizantes no Brasil, a Mosaic avança em outra frente considerada estratégica para a competitividade da companhia. A empresa ampliou sua parceria com a Casa dos Ventos para autoprodução de energia renovável, com a entrada em operação comercial de mais um parque do Complexo Eólico Serra do Tigre, localizado entre o Rio Grande do Norte e a Paraíba.
O novo contrato prevê o fornecimento de 25 megawatts médios de energia e marca a segunda operação de autoprodução firmada entre as duas empresas. Em 2022, a Mosaic já havia adquirido participação no Complexo Eólico Umari para garantir o abastecimento de outras unidades industriais.
Segundo as empresas, a expectativa é que os dois contratos proporcionem uma economia de aproximadamente R$330 milhões ao longo de sua vigência para as operações brasileiras de produção de fosfato.
A estratégia reforça um movimento que vem ganhando espaço entre grandes consumidores industriais. Ao participar da geração da própria energia, empresas eletrointensivas reduzem a exposição às oscilações do mercado, ganham previsibilidade de custos e fortalecem metas de descarbonização.
Para a Casa dos Ventos, o novo acordo demonstra o amadurecimento desse modelo de negócios.
“A relação com a Mosaic reforça nossa capacidade de desenvolver soluções estruturadas e competitivas para grandes consumidores de energia”, afirmou o diretor comercial da empresa, Rene Abrantes.
Já a gerente de Transição Energética da Mosaic, Letícia Salles, disse que a ampliação da parceria está alinhada aos compromissos de sustentabilidade assumidos pela companhia para 2030 e reforça a estratégia de manter a produção de fosfato no Brasil com menor intensidade de carbono.
Contraste com a realidade industrial
O anúncio, porém, acontece em um momento delicado para a operação brasileira da Mosaic.
No início de julho, a empresa comunicou a hibernação da fábrica de Candeias, na Região Metropolitana de Salvador, após meses de dificuldades para importar enxofre, matéria-prima utilizada na produção de ácido sulfúrico e fertilizantes fosfatados.
A paralisação atingiu também outras cinco unidades industriais da companhia no país e afetou cerca de 500 trabalhadores. Na Bahia, aproximadamente 30 empregados foram desligados.
Na ocasião, a empresa informou que tentou manter a operação durante cerca de seis meses, mesmo diante da escalada dos custos de aquisição do enxofre, até considerar inviável economicamente a continuidade da produção.
A crise foi desencadeada pelo agravamento das tensões no Oriente Médio e pelos impactos sobre o Estreito de Ormuz, corredor estratégico para o comércio mundial de enxofre. A restrição da oferta elevou significativamente os preços internacionais do insumo e comprometeu o abastecimento de indústrias dependentes da matéria-prima.
Dois desafios diferentes
Embora tratem de temas distintos, os dois movimentos ajudam a dimensionar o cenário enfrentado pela companhia.
A parceria com a Casa dos Ventos atua sobre um dos principais componentes do custo industrial — a energia elétrica — e oferece ganhos permanentes de eficiência operacional.
Já a paralisação das fábricas decorre de um problema na cadeia global de suprimentos, provocado pela dificuldade de acesso ao enxofre, insumo sem o qual a produção simplesmente não pode ser mantida.
Na prática, a autoprodução de energia reduz despesas estruturais e melhora a competitividade das operações. Mas ela não elimina riscos associados ao fornecimento de matérias-primas estratégicas, sobretudo em um ambiente de instabilidade geopolítica.
ANÁLISE INDÚSTRIA NEWS
Os dois anúncios feitos pela Mosaic em menos de um mês revelam uma característica cada vez mais presente na indústria brasileira: empresas precisam administrar, ao mesmo tempo, desafios internos de competitividade e riscos externos que fogem completamente ao seu controle.
A energia renovável tornou-se uma ferramenta importante para reduzir custos, aumentar previsibilidade e atender às exigências ambientais de investidores e clientes. A autoprodução deixa de ser apenas uma pauta de sustentabilidade para se transformar em estratégia de negócios.
Ao mesmo tempo, a crise do enxofre mostrou que nenhuma política de eficiência é capaz de neutralizar rupturas severas nas cadeias globais de suprimentos. Quando um insumo essencial deixa de chegar às fábricas, o impacto se espalha rapidamente pela produção, pelo emprego e por toda a cadeia industrial.
Para a Bahia, onde a Mosaic mantém uma operação relevante, o episódio reforça a necessidade de discutir não apenas competitividade energética, mas também segurança no abastecimento de matérias-primas estratégicas.
O QUE FICA DESSA HISTÓRIA
A ampliação da parceria entre Casa dos Ventos e Mosaic mostra que a transição energética continua avançando na indústria, mesmo em um ambiente econômico desafiador.
Mas também evidencia que competitividade industrial depende de um conjunto de fatores. Reduzir a conta de energia é importante. Garantir o fornecimento de insumos críticos continua sendo decisivo para manter fábricas em operação.
Quando esses dois elementos caminham juntos, a indústria ganha eficiência. Quando um deles falha, como ocorreu com o enxofre, os impactos chegam rapidamente à produção, ao emprego e à economia regional.
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