
O conflito no Oriente Médio chegou à indústria baiana. O Grupo Mosaic anunciou, em reunião com o Sindiquímica Bahia nesta quarta-feira (8), a hibernação de sua fábrica em Candeias, na Região Metropolitana de Salvador, com a demissão dos 30 funcionários da unidade. A empresa atribui a decisão à dificuldade de importar enxofre, matéria-prima essencial para a fabricação de fertilizantes, desde o início do conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, que resultou no bloqueio do Estreito de Ormuz, rota crítica para o comércio internacional de insumos químicos.
A paralisação em Candeias não é um caso isolado. O grupo confirmou que interromperá também as atividades em outras cinco fábricas no Brasil, localizadas no Paraná, em Goiás e em Minas Gerais, totalizando cerca de 500 trabalhadores afetados em todo o país. Segundo a empresa, a tentativa de manter a produção se estendeu por seis meses, período em que a companhia arcou com prejuízos econômicos crescentes, inclusive tentando pagar mais caro pelo enxofre, até que a compra da matéria-prima se tornasse simplesmente inviável, independentemente do preço oferecido.
Após negociação com o Sindiquímica Bahia, a Mosaic se comprometeu a cumprir o aviso prévio previsto em lei e as cláusulas da Convenção Coletiva de Trabalho. Além das obrigações legais, a empresa ofereceu um pacote social que inclui manutenção do plano de saúde por três meses e um programa de apoio psicossocial, com orientação para recolocação profissional. A companhia também garantiu prioridade de recontratação aos trabalhadores demitidos, caso a produção seja retomada.
Efeito colateral
O episódio ilustra um efeito colateral pouco discutido dos conflitos geopolíticos no Oriente Médio: o impacto direto sobre cadeias produtivas que dependem de insumos importados da região ou de rotas logísticas que passam por ela. O enxofre é elemento-chave na produção de ácido sulfúrico e fertilizantes fosfatados – insumos essenciais para o agronegócio brasileiro, um dos setores mais dependentes de fertilizantes importados do mundo.
“A interrupção na oferta de enxofre, portanto, não afeta apenas a operação industrial da Mosaic, mas potencialmente reverbera na cadeia de custos do setor agrícola nacional, ainda que os efeitos sobre o preço final ao produtor rural dependam da duração do bloqueio e da capacidade de outros fornecedores globais suprirem a demanda”, explica o economista Luiz Sérgio Moreira.
O Sindiquímica Bahia afirmou que vai acompanhar de perto o processo de desligamento para assegurar o cumprimento integral dos direitos trabalhistas dos funcionários demitidos. A entidade também manifestou expectativa de que o conflito internacional seja resolvido rapidamente, permitindo a retomada das atividades industriais e evitando que outras fábricas do segmento químico sejam ainda mais impactadas.
Alerta na Bahia
O caso Mosaic é um retrato concreto de como tensões geopolíticas distantes – a milhares de quilômetros da Bahia – podem se traduzir em desemprego real na Região Metropolitana de Salvador. Para o polo químico baiano, historicamente sensível a oscilações no fornecimento de matérias-primas importadas, o episódio acende um alerta sobre a vulnerabilidade de empresas que dependem de rotas logísticas internacionais estratégicas, como o Estreito de Ormuz.
A decisão da Mosaic de resistir seis meses antes de hibernar a unidade também mostra que a paralisação não foi uma resposta imediata à crise, mas uma medida de último recurso após esgotadas as alternativas comerciais, o que reforça a gravidade do cenário de desabastecimento de enxofre no mercado internacional. Para os trabalhadores da região, o caso reacende a discussão sobre a exposição do polo industrial de Candeias a choques externos sobre os quais a economia local não tem qualquer controle.
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