
Durante muitos anos, quem passava pelo Centro Industrial do Subaé (CIS), em Feira de Santana, convivia com um símbolo clássico da industrialização baiana dos anos 1990: os caminhões carregados de cerveja saindo da unidade da cervejaria Kaiser. Havia também um cheiro característico de malte no ar, turnos movimentados e uma sensação de prosperidade que ajudou a consolidar o município como um dos principais polos industriais do interior do Brasil. A fábrica virou referência econômica, gerou centenas de empregos diretos e indiretos e movimentou toda uma cadeia logística, de transporte e distribuição na Bahia.
A unidade foi inaugurada em 1995, em um momento em que Feira de Santana vivia forte expansão industrial. A inauguração contou com nomes importantes da política baiana, como o então senador Antônio Carlos Magalhães, o governador Paulo Souto e do atual prefeito de Feira José Ronaldo. A presença de ACM no evento demonstrava o peso político e econômico do empreendimento. A fábrica era ligada ao grupo ACSA, do banqueiro Ângelo Calmon de Sá, que operava o sistema Coca-Cola na Bahia, e simbolizava uma tentativa ousada de enfrentar o domínio histórico da Brahma e da Antarctica no mercado cervejeiro brasileiro.
A Kaiser chegava a Feira já com uma história impressionante nas costas. Criada em 1982 pelo empresário mineiro Luís Otávio Poças Gonçalves a partir de engarrafadoras de Coca-Cola do Grupo Gonçalves-Guarany, fundadas em 1947, a cerveja nasceu como resposta à chamada “venda casada” praticada por Brahma e Antarctica: quem quisesse ter cerveja no balcão era obrigado a comprar refrigerantes das mesmas empresas. Poças arriscou todo o capital que tinha, tomou um empréstimo de US$6 milhões, testou mais de 700 mil litros de cerveja até chegar à receita ideal e batizou a marca com a palavra alemã para “imperador”.
Em três meses de operação, a Kaiser havia feito a fatia da empresa no mercado regional de refrigerantes saltar de 16% para 48%, segundo o portal Mundo das Marcas. A lógica era simples e devastadora: quem tinha a cerveja, abria as portas do ponto de venda para o portfólio inteiro.
Expansão
A expansão foi meteórica. Em poucos anos, a Kaiser se espalhou pelo país, instalando fábricas em cidades estratégicas como Jacareí, Araraquara, Gravataí, Ponta Grossa, Manaus, Pacatuba e Feira de Santana. A operação chegou a ter 10 fábricas, cerca de 2,3 mil empregados diretos e presença em aproximadamente 450 mil pontos de venda, conforme relatam textos históricos sobre a companhia publicados pelo portal Mundo das Marcas e reproduzidos em páginas de memória industrial e empresarial.
A unidade baiana entrou no mapa com a missão de abastecer o Nordeste e reforçar a presença da marca em uma região estratégica. Desde a sua chegada, a Kaiser passou a integrar oficialmente o CIFS (Centro das Indústrias de Feira de Santana) e, segundo o Wikipedia, representou um crescimento direto na arrecadação do ICMS do município. . A unidade produzia principalmente as marcas Kaiser e Bavaria e abastecia mercados da Bahia e de outros estados da região.

Em Feira, a fábrica era ao mesmo tempo orgulho econômico e paisagem urbana. Quem passava pelo CIS naquela época lembra do cheiro de malte no ar, do movimento de caminhões e da sensação de que a cidade havia chegado a um patamar industrial incomum para o interior baiano.
Nas rádios do país, um bordão havia entrado na memória coletiva: “Dá pra tomar uma Kaiser antes?”, campanha criada pela agência DPZ em 1995 – o mesmo ano em que a unidade feirense intensificava sua operação -, premiada no Brasil e repetida em mesas de bar de norte a sul. O baixinho bigodudo da Kaiser, o espanhol José Valien Royo, era reconhecido por qualquer criança da época. A marca havia se tornado cultura.
Os anos 1990 foram a era de ouro. Em 2002, no auge, a Kaiser controlava 15% do mercado nacional de cervejas e foi vendida por Poças para a canadense Molson Coors por impressionantes US$765 milhões. A operação entrou para a história como um dos casos mais notáveis de criação de valor no setor de bebidas brasileiro. Mas foi justamente aí que o declínio começou.
Sob controle canadense, segundo o portal Mundo das Marcas, a Kaiser foi perdendo mercado, caindo de 15% para 8,5% de participação nacional. A marca foi sendo “atropelada”, nas palavras do portal, até por cervejarias antes modestas como a Schincariol. Em 2006, a mexicana Femsa – dona das marcas Sol e Tecate – comprou a Kaiser. Em 2010, a holandesa Heineken assumiu o controle, como parte de uma aquisição global que também incluiu marcas como Schincariol, Devassa, Eisenbahn e Baden Baden.

Marca envelhecida
A Heineken herdou uma marca envelhecida. Em Feira de Santana, a fábrica seguiu produzindo Kaiser e Bavária, mas os números não animavam. A crise econômica que assombrava o Brasil em 2015 e 2016 aprofundou o problema: consumo em queda, custo de produção elevado, estoque cheio e demanda em retração. Em 15 de junho de 2016, a empresa comunicou o fechamento da unidade sem aviso prévio significativo.
Conforme noticiaram o G1 Bahia, o Bocão News e o Olá Bahia na época, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Cervejas e Bebidas da Bahia (Sindibeb-BA), Roberto Santana, confirmou o desligamento de 126 funcionários diretos e alertou que trabalhadores terceirizados de outras três empresas prestadoras de serviço também seriam afetados. “São 123 famílias que ficarão sem seu sustento, em plena crise econômica”, protestou o deputado estadual Carlos Geilson (PSDB) em pronunciamento na Assembleia Legislativa da Bahia, conforme registrou o site da Casa.
A Heineken afirmou, em nota divulgada à imprensa, que “a decisão foi tomada com base nos constantes estudos de viabilidade do negócio e na necessidade de levar a operação da companhia a outro patamar de excelência, mantendo sua sustentabilidade econômica”. As regiões atendidas pela unidade baiana passariam a ser abastecidas pelas cervejarias de Pacatuba, no Ceará, e Araraquara, em São Paulo – ironicamente, a mesma cidade onde a Kaiser havia engarrafado desde os primórdios.
O sindicato conseguiu negociar alguns benefícios: seis meses de assistência médica, seis meses de vale-alimentação e apoio para recolocação profissional via empresa especializada, segundo o G1 Bahia. Dez funcionários permaneceram até dezembro para cuidar da manutenção dos equipamentos. Depois disso, silêncio.
Notícia nacional
O fechamento da Kaiser em Feira foi notícia nacional. A revista Exame publicou a unidade baiana em sua lista das 13 fábricas fechadas no Brasil em 2016, ao lado de General Mills, GE e Souza Cruz – um retrato do quanto aquele ano foi devastador para a indústria.
Hoje, a antiga fábrica da Kaiser permanece na memória industrial de Feira de Santana como símbolo de um ciclo econômico importante para o interior baiano. Representou uma época em que o avanço industrial do CIS parecia ilimitado e em que grandes multinacionais enxergavam a Bahia como peça estratégica para expansão nacional. O fechamento da unidade deixou não apenas galpões silenciosos, mas também a lembrança de uma geração de trabalhadores que viu na cervejaria um dos grandes motores da economia feirense dos anos 1990 e 2000.
MEMÓRIA DA INDÚSTRIA é um projeto editorial dedicado a contar as histórias das indústrias que ajudaram a construir a economia da Bahia, moldaram cidades, geraram empregos e deixaram marcas que resistem ao tempo – mesmo depois do fechamento de suas portas. Aqui, o foco não está apenas nos números, mas no impacto humano, urbano e econômico dessas empresas. Cada texto busca equilibrar memória afetiva, dados concretos e análise histórica, mostrando por que essas indústrias foram relevantes e o que a Bahia perdeu – ou aprendeu – com o fim de cada ciclo produtivo.
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