
Existe um lugar no interior da Bahia onde a água cai de uma altura de quase 400 metros, some no ar antes de tocar o chão e vira névoa. A Cachoeira da Fumaça, no distrito de Caeté-Açu, mais conhecido pelo nome que o turismo consagrou, Vale do Capão, não é apenas um cartão postal. É a âncora econômica de um município de pouco mais de 10 mil habitantes que aprendeu, nas últimas décadas, a sobreviver da experiência de quem chega de fora.
O Vale do Capão está no município de Palmeiras, a cerca de 470 quilômetros de Salvador, encravado entre serras, dentro dos limites do Parque Nacional da Chapada Diamantina. O nome oficial, Caeté-Açu, vem do tupi e significa “mata verdadeira grande”. O nome popular vem do cotidiano, e do turismo que foi chegando aos poucos, remodelando o lugar sem pedir licença.
O ciclo que nunca termina
O Vale do Capão cresceu à sombra do desenvolvimento da mineração, e a vila foi um dos principais fornecedores de alimentos para os centros maiores da região. Durante muitos anos, o vale era, em quase sua totalidade, fazendas de café. Com o declínio da mineração e a erradicação dos cafezais, entre 1951 e 1952, veio um grande êxodo para as capitais, esvaziando a região.
A partir dos anos 1980, os habitantes do Vale do Capão acharam um novo rumo econômico: o turismo e o neo-ruralismo transformaram seus modos de vida. Hoje, o Vale do Capão é claramente um lugar turístico, com atrações, infraestrutura e atores trabalhando na atividade, mas também um território neo-ruralista, com atividades culturais, culinária e propostas educativas.
Esse movimento trouxe consigo um perfil de visitante – e de morador – diferente do original. O povoado é formado atualmente por uma mistura de nativos com pessoas de cidades grandes que optaram por uma vida mais saudável cercada de natureza. Pousadas sofisticadas, restaurantes com cardápios autorais, cervejarias artesanais, licoterias, práticas de yoga e massagem ayurvédica. O Capão foi se tornando, progressivamente, um produto.
Um destino que cresceu sem virar resort
Diferente de outros polos turísticos, o Capão nunca seguiu o roteiro clássico de grandes investimentos ou redes hoteleiras. O crescimento veio de baixo: pequenas pousadas, restaurantes independentes, terapias alternativas, guias locais.
O resultado é uma economia pulverizada e resiliente. Ali, o dinheiro gira mais dentro da própria comunidade. O turista que paga uma trilha contrata um guia local. Quem se hospeda consome no restaurante da vila. Quem volta, recomenda. É um ciclo curto, mas eficiente.
E tem mais: o destino construiu uma identidade clara. Sustentabilidade, alimentação natural, conexão com a natureza. Não é só marketing é produto.
A hora da conta
No fim de dezembro de 2025, enquanto boa parte do Brasil pensava em reveillon, a Câmara Municipal de Palmeiras entrou em sessão extraordinária – e votou algo inédito para a região.
Os nove vereadores aprovaram por unanimidade o Projeto de Lei que institui a Taxa de Fomento à Infraestrutura Turística e Sustentável do município, estabelecendo cobrança para a visitação de áreas classificadas como de interesse ambiental ou turístico, como o Vale do Capão. A taxa terá valor inicial de R$ 13,32 por semana durante períodos de alta estação, podendo chegar a R$ 53,28 para estadias mensais.
A lógica é conhecida e funciona em outros destinos do mundo. Amsterdã cobra taxa hoteleira por noite. Veneza experimenta ingressos diários. O dinheiro, em tese, vai para infraestrutura e preservação ambiental. O problema foi o processo – e o tom.
Movimentos sociais e entidades do Vale do Capão manifestaram preocupação com a possível votação do projeto durante o recesso legislativo, às vésperas do Ano Novo, sem a realização de audiências públicas e sem divulgação clara do texto aos moradores. Segundo o portal Bahia Notícias, a Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) recomendou o arquivamento do projeto por falta de participação popular, ausência de estudos técnicos e riscos de retrocesso socioambiental.
E, como se faltasse apenas uma faísca para incendiar o debate, veio a declaração de um vereador. Ao defender a taxa em plenário, o vereador Eduardo Antônio (Solidariedade), conhecido como Dudu, foi direto: “Turista que não puder pagar no mês R$ 50, pode voltar, não precisa nem vir para cá. Turista duro, não.” A declaração viralizou e reacendeu um debate que vai muito além da cobrança em si.
O que está em jogo
O Vale do Capão vive uma tensão clássica de destinos que “deram certo” no turismo: o sucesso atrai, o volume pressiona, a pressão exige solução – e qualquer solução divide. De um lado, quem mora lá e vê a infraestrutura pública ser engolida pelo fluxo de visitantes sem contrapartida financeira. Do outro, quem construiu ali um modelo de turismo alternativo, acessível, diverso e não quer ver isso desaparecer atrás de uma catraca.
Os coletivos locais afirmaram: “Não somos contra cuidar do meio ambiente. Pelo contrário. Mas decisões desse impacto não podem ser tomadas às pressas, sem ouvir moradores, comerciantes, trabalhadores do turismo, hospedarias e visitantes.”
É uma frase que resume bem o problema de gestão de destinos no Brasil: há vontade de monetizar, mas raramente há governança para isso.
O dilema do crescimento
O Capão enfrenta hoje uma escolha clássica do turismo: crescer ou preservar?
A resposta não é simples. Expandir demais pode descaracterizar o destino. Crescer de menos pode limitar renda e oportunidades para quem vive ali. No meio disso, está a necessidade de profissionalizar sem perder identidade. Esse é o ponto onde muitos destinos falham – e onde o Capão ainda está em construção.
O que o empresário leva dessa história
O Vale do Capão é um laboratório vivo de um dilema que qualquer destino turístico que cresce vai enfrentar. A taxa em si não é o problema é, inclusive, necessária. O problema é quando a ferramenta chega antes do planejamento, e o debate chega depois do conflito.
Para quem pensa turismo como indústria, a lição aqui é dupla: receita sem gestão participativa vira imposto sem legitimidade. E destino sem identidade preservada vira produto descartável. O Capão ainda tem muito para contar. A questão é quem vai decidir como essa história continua.
O Lado B dos Destinos é uma coluna semanal do Indústria News que revela a economia, a indústria e as decisões que fazem um destino funcionar – ou entrar em tensão. Aqui, viagem não é fuga do noticiário. É outra forma de entender como cidades e regiões geram valor, emprego e identidade. A paisagem atrai. O modelo sustenta. O que você vai encontrar aqui? Análise leve, sem jargão; textos de fim de semana, com narrativa e contexto econômico; infraestrutura, investimentos, empregos, conflitos e oportunidades. Casos reais: o que deu certo, o que cobra seu preço e o que pode ser replicado.
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