
O Projeto Satoshi, da Renova Energia, avança para a fase decisiva. Com cerca de 90% das obras concluídas e todos os containers já posicionados, o empreendimento, instalado em Igaporã, iniciou o ramp-up operacional em dezembro e deve atingir operação plena até o fim do segundo trimestre de 2026. Dos 90 MW de capacidade total, 40 MW já estão em operação.
Mais do que um novo ativo, o Satoshi inaugura um modelo ainda raro no país: a integração direta entre geração eólica e data centers. Conectado ao Complexo Alto Sertão III, o projeto transforma energia renovável em infraestrutura digital, com capacidade equivalente a quase 15% do processamento de dados instalado no Brasil.
Por que isso importa?
O avanço do Satoshi vai além da expansão energética. Ele aponta para uma mudança de lógica no uso da energia na Bahia. Em vez de lidar apenas com o curtailment (o desperdício de energia por falta de demanda ou escoamento) o projeto cria consumo local intensivo, agregando valor a uma infraestrutura já instalada.
Na prática, a Bahia deixa de ser apenas exportadora de energia para entrar na cadeia da economia digital.
Isso significa atrair novos investimentos, diversificar receitas e abrir espaço para um ecossistema de tecnologia associado à energia limpa – um movimento alinhado à corrida global por data centers mais eficientes e sustentáveis.
Há, porém, um ponto de atenção: o modelo ainda está em fase inicial e depende da consolidação de demanda e da atração de operadores especializados.
A Renova já sinaliza tratativas para fornecer energia a outros data centers, o que pode ampliar o alcance da estratégia.
Se bem-sucedido, o Satoshi reposiciona o estado no mapa da infraestrutura digital do país.
Mais do que gerar energia, a Bahia passa a disputar um novo jogo: o de transformar eletricidade em dados – e dados em valor econômico.
A estratégia da Renova Energia é fornecer energia, infraestrutura elétrica e suporte técnico, enquanto a operação dos data centers será realizada por empresas especializadas. Esse modelo híbrido segue uma tendência global que separa a gestão da infraestrutura física da operação tecnológica
Mais jogo, menos consumo real
O governo da Bahia quer entrar no jogo – literalmente. O projeto de lei enviado pelo governador Jerônimo Rodrigues à Assembleia Legislativa, na semana passada, autoriza a criação da Loteba, uma loteria estadual sob gestão da Bahiainveste.
A promessa é conhecida: reforçar receitas para áreas como educação, cultura e assistência social.
Na prática, o movimento levanta um debate incômodo. O Brasil já vive uma explosão de apostas. Entre as loterias da Caixa Econômica Federal, o jogo do bicho – historicamente enraizado – e a proliferação das bets online, o mercado já disputa, de forma agressiva, o bolso do consumidor.
A entrada do Estado nesse ambiente amplia a oferta, mas não necessariamente a riqueza.
Ao contrário: pode aprofundar a transferência de renda das famílias, especialmente as de menor renda, para jogos de azar. É dinheiro que deixa de circular na economia real, no comércio, nos serviços e no consumo básico.
A conta é simples e pouco discutida: cada real apostado é um real a menos no supermercado, no açougue, na feira, no pequeno negócio, na economia que gera emprego. Ao apostar na loteria como fonte de receita, o poder público assume o risco de estimular um modelo regressivo, que arrecada mais justamente de quem tem menos.
No fim, a Loteba pode até reforçar o caixa do Estado. Mas levanta uma pergunta inevitável: a que custo para a economia real e para o bolso do baiano?
A força das motocicletas
O mercado de veículos novos na Bahia acelerou em março, com 25.892 emplacamentos, uma alta de 32,76% na comparação anual. No acumulado do primeiro trimestre, o estado registrou 64.593 unidades, avanço de 11,48%, segundo a Fenabrave.
O dado central está nas motocicletas. O segmento respondeu por 60,6% das vendas de janeiro a março, com 39.149 unidades e crescimento de 19,40%. Na prática, são as motos que vêm sustentando o desempenho do setor no estado.
Enquanto isso, o restante do mercado mostra fragilidade. Automóveis cresceram apenas 4,05%, e os demais segmentos recuaram: ônibus (-40,99%), caminhões (-29,77%) e máquinas agrícolas (-16,92%).
O retrato é claro: o crédito mais acessível e o custo menor mantêm as motocicletas como motor do mercado, enquanto os veículos de maior valor seguem pressionados.



















